Ir para a página principalRetornar para Oficina

Abril 2001
Ano III - nº 32

CARRO DE BOI EM MUQUI

O carro de boi representa a mais antiga tradição de terra e ainda um remoto meio de transporte, substituído hoje por veículos mais modernos e eficazes.

Não obstante o avanço do progresso em todos os sentidos, vale a pena meditarmos no passado, pesquisando a vida daqueles que com dificuldade e heroísmo desbravaram nossas terras virgens fazendo surgir e florescer cidades onde tivemos hoje, sem contudo conhecer o seu passado.

Em 1855, no município de Muqui, surgia o primeiro carro de boi, pertencente ao senhor José de Souza Pinheiro de Souza Werneck, proprietário da fazenda Santa Teresa do Sumidouro. Naquela época, todo o comércio deste município era feito em Cachoeiro do Itapemirim, através de carros de bois ou tropas, cantando pela estrada o canto típico do trabalho difícil e moroso. No afã do progresso, outras fazendas foram se formando, surgindo assim inúmeras delas às margens do ribeirão Muqui do Norte, e com elas os carros de bois se multiplicavam.

Com o passar dos anos, o progresso foi chegando a nossa região, os primeiros caminhões foram aparecendo para surpresa de todos, reduzindo o uso dos tradicionais carros de bois. Mesmo assim em algumas fazendas como em Santa Rita, Floresta, Fortaleza, Rio Claro, Pedra Negra e outras, ainda o usam com freqüência, para transporte dos cereais que cultivam de preferência, transportando-os das lavouras para os paióis das próprias fazendas, dada a difícil topografia do terreno.

Para uma melhor idéia acerca do antiquado veículo, tive o prazer de entrevistar o mais antigo carreiro da região, senhor José Augusto da Silva, que gentilmente me informou sobre os detalhes principais de sua profissão. Segundo nossa entrevista, um carro de boi pode durar até cinqüenta anos, se for devidamente cuidado, e acabar logo, se não forem observados os cuidados necessários para com o mesmo. Alguns cuidados, ditos pelo sábio homem, incluem a observância do eixo para não se derreter com o atrito nos dias de intenso calor. Para evitar tal ocorrência, o carreiro cauteloso traz sempre consigo um chifre contendo azeite de mamona para o unto feito a miúdo, entre o chumaço, cocões e o próprio eixo.

A característica do carro de boi é aquele caminhar lento que mais parece a "paciência em marcha", e aquele canto que nos faz lembrar um lamento de angústia, ante o açoite dos garruchões que padecem os animais. Não obstante os "eia" dos vaqueiros e o ameaço das torturas, os bois caminham a passo, indiferentes a tudo. O típico cantar dos carros deu origem ao conhecido provérbio: Carro apertado é que canta.

Para a confecção deste trabalho foi necessário entrevistar algumas pessoas peritas no assunto e que tiveram a gentileza de me ouvir e em seguida responder às perguntas que fiz.

Sou grata ao senhor José Augusto da Silva, brasileiro, viúvo, carreiro, residente na fazenda de São Francisco, neste distrito, e ao senhor Joaquim Ribeiro, brasileiro, casado, carreiro, residente neste distrito também. Estendo ainda meus agradecimentos aos fabricantes de carro de boi, Augustinho Meloni, brasileiro, casado, carpinteiro, residente na fazenda da Cachoeirinha, neste distrito de Muqui, e Eduardo Martins Vicente, brasileiro, casado, marceneiro, residente nesta cidade.

Através dos últimos entrevistados, tive conhecimento dos preços atuais dos carros. Fabricado na roça fica em Cr$ 800,00 (oitocentos cruzeiros); nas oficinas de carpintaria e marcenaria da cidade, o preço vai até Cr$ 1.500,00 (hummil e quinhentos cruzeiros).

Assim, em linhas gerais, está aí um apanhado ligeiro sobre o veículo remoto, típico no início de nossa civilização, usado em todo o Brasil.

Mesa do carro de boi e suas peças


1. Cabeçário: É a maior peça de madeira da mesa de um carro de boi, que sai da biqueira e vai até ao recavém.

2. Chedas: São as duas peças laterais do carro de boi.

3. Recavém: Peça de madeira inteiriça ligada às chedas, ficando na parte traseira do carro de boi.

4. Furas chedas: São quatro furos feitas nas chedas do carro de boi, para se colocar os cocões.

5. Assoalho do carro: São tábuas colocadas por cima das reias.

6. Furos de fueiros: São furos redondos feitos nas chedas para se colocar os fueiros.

7. Cocões: Duas peças de madeira que ficam viradas para baixo a fim de segurarem o eixo; os cocões são presos nas chedas.

8. Furos dos cocões: São furos feitos nos cocões para colocar os pinos que os prendem nas chedas.

9. Biqueira: Peça de ferro presa na ponta do cabeçário para engatar as cangas da junta de torno.

10. Furo da chaveia: É um furo feito na ponta do cabeçário para colocar a chaveia, que segura a canga do coice, para a mesma não sair para frente.

11. Furo do pigarro: É um furo feito dois palmos para trás do furo da chaveia, onde se coloca uma peça na parte inferior do cabeçário chamada pigarro; esta peça é para não deixar a canga de coice correr para trás.

12. Chumaço: Peça de madeira colocada entre as chedas e o eixo e presa por dois dentes feitos na mesma peça que se encaixam nos coões.

13. Chaveia: Peça de ferro mais ou menos parecida com um parafuso sem rosca, de trinta centímetros, que se coloca na ponta do cabeçário para não deixar a canga de coice sair para frente.

14. Fueiros: São varas roliças de madeira com um metro e meio mais ou menos, que, colocadas nas furas das chedas, servem para segurar a esteira e caniço.

15. Argolão: Argola de ferro presa ao recavém para colocar as amarras. São chamadas amarras uma corrente colocada no argolão e presa na outra extremidade da canga de guia; só é usada quando em ladeiras muito fortes, o carreiro desliga as juntas de guia, contra-guia, meio e torno do carro de boi e leva-as para a traseira do carro, fazendo as mesmas juntas descerem as ladeiras, funcionando como freio do carro.

16. Pino de argolão: É um pino de ferro que transpassa o recavém e segura o argolão por baixo da mesa do carro.

17. Reias: São quatro talas de madeira colocadas em furos feitos nas chedas e no cabeçário, para uni-los; estas reias são presas às peças citadas acima por pinos de madeira.

18. Pigarro: É peça de madeira; fica na ponta do cabeçário, atrás da chaveia e serve para não deixar a canga de coice sair para trás.

Roda de um carro de boi e suas peças


1. Chapa de ferro: Peça de ferro que circula as peças de madeira da roda do carro de boi para prendê-las.

2. Meião: Peça de madeira inteiriça situada no centro da roda do carro de boi; é a maior de todas as peças de madeira.

3. Cambotas: Duas peças de madeira inteiriças que se juntam ao meião e completam as rodas dos carros de boi.

4. Gatos: Duas peças de ferro situadas na roda do carro de boi, ficando presas juntas ao furo feito no meião onde é colocado o eixo do carro. Essas peças servem para não deixar rachar o meião, quando é colocado o eixo.

5. Reias: Duas talas de madeira colocadas nas furas feitas no meião e nas cambotas, para uni-las. Estas peças ficam escondidas dentro do meião e das cambotas.

6. Buraco da chaveia: São furos feitos no meião, nas reias e nas cambotas, onde se coloca um pino de madeira atravessando as três peças citadas e cujo pino é denominado aqui em nossa região: chaveia.

7. Centro da roda: É a denominação dada ao buraco que fica no centro da roda ou no meião, onde é colocado o eixo.

8. Buraco da chaveia: São buracos feitos nos gatos para prendê-los ao meião por meio dos pinos de ferro, que também se chamam chaveias.

9. Óculos das rodas: São furos feitos nas cambotas. Dependendo do construtor do carro, estes furos são de formas circulares ou ovais.

Eixo do carro de boi e suas peças


1. Eixo de madeira oitavada, que serve para segurar as rodas dos carros.

2. Romãs: Ressaltos feitos no eixo, para segurarem os chumaços e também para não deixar as rodas virem para o meio do eixo.

3. Cantadeira: vão que fica no meio das romãs e encaixa o chumaço.

4. Espigas: São as pontas do eixo onde tem um furo para colocar o pino que segura a roda no eixo.

5. Cavias: buracos (dois) feitos nas espigas do eixo para colocar os pinos que seguram as rodas.

6. Pinos: peças (duas) de madeiras de três faces que se colocam nas cavias do eixo para segurar as rodas, não deixando as mesmas caírem.

Nota: As romãs também são conhecidas por romanas ou margaridas.

Existem duas peças de madeira ou chapa de ferro presas às chedas que são chamadas de paralamas ou orelhas, e servem para evitar que caia terra ou outro qualquer cisco na cantadeira.


Madeiras que servem para a construção de um carro de boi


As madeiras empregadas para fabricar carros de boi aqui em nossa região são as seguintes:

Mesa: sucupira, óleo vermelho, ipê, tabaco, garapa cipó.

Chedas: sucupira e as demais usadas na mesa.

Eixo: óleo vermelho.

Reias: roxinho.

Tornos ou pinos: roxinho.

Fueiros: tambu, garapa.

Cavia: roxinho ou óleo vermelho.

Pigarro: óleo vermelho ou sucupira.

Cocões e chumaços: óleo vermelho.

Canga: bico de pato, cabiúna e jacarandá.

Canzil: laranjeira da mata virgem, roxinho, peroba, ipê, laranjeira de casa, óleo pardo e pequiá.


Tamanho das peças do carro de boi


Mesa: comprimento 3 metros por 1,36 de largura.

Cabeçário: 5 metros.

Eixo: 1,70m de comprimento e 22 centímetros de espessura ou 9 polegadas.

Roda: 1,25m de altura.

Fueiros: 1,50m mais ou menos de comprimento.

Nota: Estas medidas variam de acordo com os fabricantes.


Pesquisando dois carreiros e dois fabricantes de carro de boi, observei que existem pequenas diferenças no emprego dos nomes das peças, devido ao nível cultural de cada um deles, como por exemplo: cabeçário e cabeçalho, romã e romana, cavia e cavilha, torno ou pino, argolão de amarrar ou argolão de marra, etc.


[1968]


(LOBATO, Ana Bettero Monteiro. Em Folclore)

Topo

Jangada Brasil © 2000