Abril
2002
Ano IV - nº 44 |
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Apesar de não se realizar mais na velha
Capital esse espetáculo, consegui registrá-lo graças ao auxílio de meu pai, que
assistiu a exibições muitas e muitas vezes, e aprendeu de meu avô toda a embaixada. Em
algumas cidades do Estado ainda se realizam Cavalhadas, talvez com pequenas variações.
A cavalhada representa uma guerra entre os mouros e cristãos e tem a
duração de três dias. Doze homens trajam vestes azuis (os cristãos) e doze
roupagens vermelhas (os mouros). Todos usam camisas brancas de largas mangas, calções de
veludo ou de cetim até os joelhos, e meias brancas até os calções. Talvez calças
justas. Calçam botas de cano médio e esporas de rosetas aguçadas.
Os mouros usam saiotes em vez de calções. Sobre a camisa, um corpete do tecido dos
calções, com o peito enfeitado de rendas, galões dourados, tendo no centro um medalhão
em forma de coração. No ombro, jogada com elegância, uma capa arredondada, em veludo,
forrada de cetim. Às vezes trazem capuz também. Capa e capuz ricamente trabalhados a fio
de ouro, lantejoulas, missangas douradas e lindas franjas contornando as bainhas.
Na cabeça, capacete cilíndrico, coberto dos tecidos das vestes e bordado a ouro também.
A manta que recobre os arreios é ricamente trabalhada.
As crinas dos cavalos devem ser longas e enfeitadas de fitas coloridas. Um
"bouquet", de flores multicores, é colocado entre as orelhas do animal e sobre
a cauda uma cobertura de seda bordada em missangas, lantejoulas e fitas esvoaçantes.
O peitoral do arreio é recoberto de guizos e pratas; as patas pintadas de dourado e
prata.
Trazem os cavaleiros, como arma, uma lança, tendo ao longo do cabo, fitas de veludo
enroladas em espiral, na cinta uma espada e na cabeça do arreio um par de pistolas.
O campo de guerra é um terreno adrede preparado, com a forma circular, tendo mais
ou menos cem metros de diâmetro. Dividido ao meio, resultam dois campos perfeitamente
iguais. Em lados opostos constroem os seus castelos. Os mouros com as costas voltadas para
o poente, e os cristãos para o nascente. O início das funções, dá-se geralmente às
cinco horas da tarde, quanto estão todos a postos nos respectivos castelos. Cada partido
é dirigido pelo matinador, que representa o rei.
O rei se destaca dos outros pelas vestes mais ricas, possuindo as mais belas montarias e o
cavalo mais fogoso e vistoso. Traz na cabeça uma coroa em vez de capacete. O cavaleiro,
para ser elegante, deve montar com os estribos bem compridos, de maneira que possa ter as
pernas bem estiradas e o corpo ereto.
Lindas caçambas de pratas eram usadas em lugar de estribos. Na hora da partida do rei se
formava à direita da fila, vindo em seguida o secretário, com o título de embaixador
e logo depois os demais cavaleiros, que eram chamados fiéis vassalos.
Primeiro dia: troca dos ultimatuns
Ao toque do clarim, o rei dos cristãos convida o secretário, em alta voz: -
"Embaixador amado, vinde à minha presença".
A esse chamado, sai o embaixador por trás da fila, dá uma volta em frente ao castelo, em
grande exibição de cavalgada, e pára diante do rei, fazendo empinar três vezes o seu
cavalo, e responde em tom declamatório: - "Aqui me tendes, real senhor, pronto e sem
detença".
Ordena o rei:
- "Amigo e nobre conde... em ti tenho feito eleições para ires com minha embaixada
ao mais vil turco que segue a lei do Mafona, e dizer-lhe que eu, por ti saudar-lhe mando,
e aconselhar-lhe envio: que deixa a lei de Mafona, dessa vil seita infame a que tão
firmemente idolatra. Que o desfaça e consuma em um só átomo, aceitando a lei do
batismo, fazendo-se cristão". "Que se isso fizer, me terá por grande
amigo e forte coluna de seu reino, e se a proposta minha não queira abraçar, então
verá com o peso do ferro e com a violência do fogo, a sua soberba humilhada e
abatida". "Vá e vê bem o que digo".
O embaixador faz empinar o cavalo e responde com ênfase:
- "Meu esclarecido monarca, enquanto estes braços tiver, e o peito fulminar alento,
hei de cumprir à risca o teu desejo e o teu intento".
Termina a frase e parte a galope ao som da banda de música, que executa dobrado ou
marchas apropriadas. Guarnecem o embaixador dois fiéis vassalos.
Ao chegar ao centro da praça, isto é, na linha divisória dos campos, encontra o
embaixador dos mouros igualmente guarnecido, como se estivesse fazendo policiamento no seu
campo. Ao ver o embaixador cristão, interroga:
- "Quem sois vós cavaleiros que com tão luzidas armas passeiam nesta praça?"
Ao que o embaixador responde:
- "Sou embaixador do rei dos cristãos e levo embaixada ao seu soberano, e como tal,
peço licença para entrar".
"Entre sozinho e nada lhe sucederá". "Fiquem aqui os vassalos
cristãos".
O embaixador segue ladeado pelos cavaleiros mouros. Os animais marcham ao compasso da
música, habilmente ensaiados. Chegando à frente do castelo dos mouros, o embaixador
exclama:
- "Poderoso monarca: enviado pelo meu rei, aqui venho com o seu convite, para que
deixando sua errada crença, faça-se cristão, recebendo o batismo, com o que terá a
ganhar a felicidade de seu povo".
O rei mouro brada:
- "Volta e dize a teu rei que o meu secretário levará a minha resposta, e se essa
não o agradar, que cedo, em campo o espero para pessoalmente lhe responder".
O secretário embaixador, fazendo continência com sua lança, deixa a frente do castelo e
volta acompanhado dos dois vassalos mouros até o limite do campo, onde o esperam os seus
guardas.
De volta, ao chegar diante de seu rei, faz a continência de protocolo, e em voz alta
declara:
- "Meu esclarecido e amado monarca, o rei dos mouros me respondeu, com aspecto
furibundo e cheio de altivez, que o seu secretário será o portador de sua resposta, e se
essa não for por vós aceita, que vos espera nos limites do vosso reino, para
pessoalmente responder. Por isso, senhor, ides e não temais, porque vassalos o tendes ao
vosso lado. E se por acaso sofrerdes alguma afronta, em breve sereis vingado".
O rei ordena
- "Recolhe-te, Embaixador amado, que em breve será vingado".
Marchando ao compasso da música, chega até a linha divisória das armas, o embaixador
dos mouros, ladeados por dois vassalos. E recebido por dois cristãos, que o acompanham
até o seu rei. Diante do rei cristão, faz seu cavalo empinar, com arrogância, e
declara:
- O monarca, poderoso cristão, qual raio, qual trovão, que no mundo é tão temido, a
mandado de meu rei, te cometo um partido: - "Deixar de adorar a Cristo, seguindo a
lei de Mafoma. Deixa de adorar a Cristo que terás paz, a liberdade e tudo que neste mundo
é visto. E se acaso este partido não queiras abraçar, então verás o bronze gemer, os
clarins romperem nos ares, teu sangue correr em mares, teu exército destroçado, tu morto
e derrotado... e o meu monarca vencido".
Responde o rei dos cristãos:
- "Indignas têm sido as palavras que perante minha soberania tens proferido e
ofensivas às pessoas da Santíssima Trindade. E a ti por tão soberba embaixada, eu daria
um memorável exemplo, se os ilustres reis não soubessem acatar as sagradas leis dos
embaixadores. Portanto voltai, dizei ao teu rei que não me assusto com as terríveis
ameaças com que pretende destruir os soldados do meu esquadrão. Que com o contigente de
minha guarda irei ao campo castigar o seu orgulho deitando as suas bandeiras por terra no
pó do abatimento".
O embaixador mouro, ainda insiste:
- "Ó rei de juízo vário, aceite o meu partido e não seja temerário".
O rei dos cristãos, nessa altura, exalta-se, faz seu cavalo avançar um passo e grita
insolente:
- "Retira-te, bárbaro, antes que eu com essa dura lança te arranque do peito esse
coração desgraçado".
O embaixador resolve retirar-se, mas antes brada:
- "Eu me vou, ó rei arrogante, não por te temer, mas sim por de ti me
aborrecer".
Parte a galope, ao som da música. Chega em frente ao seu castelo e grita:
- "Meu real senhor, enviado por você como embaixador ao rei dos cristãos, tive como
resposta que vos esperam nos limites do vosso reino para convosco pelejar".
A música inicia uma marcha e os dois monarcas se dirigem para a linha divisória dos
campos. O rei mouro brada primeiro:
- "Quem sois vós cavaleiro, que com tão luzidias armas passeia nesta praça?. Um
passo mais não dês, sem que diga quem sois e o sangue de onde procedes".
O rei cristão responde raivoso:
- "Tu mandaste me convidar para o campo de batalha e como agora me perguntas quem
sou? Olha bem e te advirtas que não te direi quem sou sem que primeiro me digas quem
és".
O rei mouro:
- "Eu sou o rei turco, filho do grão-sultão do Egito e o senhor das terras dos
mouros. E como disse quem sou, quero agora saber quem és?".
Aproximam-se mais:
- "Eu sou Alexandre, rei cristianíssimo, que tenho a meu cargo combater toda a
mouritânia e com lástima de sua alma de novo te peço: recebe a água do santo batismo e
faça-te cristão. É o último desafio".
As lanças se cruzam como num combate e o mouro diz:
- "Em nome de meu Mafoma: ou renda-te ou espera pela derrota".
O rei cristão:
- "Bárbaro, ao rei cristão ameaças? Eu te juro pela fé de Jesus Cristo que o
mundo aclama, que farei de ti e dos teus, em mil pedaços. Compra campo, aperta lança e
trata de ser bom cavaleiro, que serás morto ou prisioneiro".
O rei mouro, afastando-se, grita:
- "E tu morrerás primeiro".
Vai deixando o campo. Retiram-se ambos para os seus castelos, debaixo de clarinadas.
Ao chegar ao seu castelo, o rei cristão faz esta proclamação:
- "Meus amigos e leais companheiros, não temais de ter batalha com o mais vil turco
que segue a lei de Mafoma. Do valor dos vossos braços, e da nobreza dos vossos
corações, desde já me considero com a vitória. Não esqueçais das ordens do cavaleiro
que diante de vós sereis o primeiro".
Nesse momento, o matinador segue em disparada, acompanhado de todos os pares, fazendo a
primeira carreira que se chama:
Defesa de praça
Os inimigos se enfrentam e simulam um combate nos limites dos dois terrenos. Fazem
interessantes evoluções até se colocarem frente a frente. Esse primeiro combate é a
lança. Afastam-se, fazendo novas evoluções em seus campos respectivos, e novo encontro,
quando combatem a pistolas. Tiros de ambos os lados. Novas carreiras, música e novo
encontro. Este último combate é à espada. Brandem-nas ao ar e executam movimentos
interessantíssimos. Saem dos campos sem, contudo, terminarem a luta. O término será no
dia seguinte, quando se dará a
Rendição
Segundo dia
Inicia-se à tarde, com a continuação dos combates da véspera, até que os mouros
simulando cansaço, de espada em punho, diminuem os passos e os cristãos, tomando a
dianteira, dão um cerco nos vencidos e marcham na frente, isto é, enfrentam o inimigo,
exigindo deles a rendição. Os mouros atendem, apeiam-se dos cavalos, e entregam suas
espadas. O rei cristão diz eloqüentemente:
- "Bárbaro, eu não te disse que serias morto ou prisioneiro? Tu queres ser
batizado?"
Responde o mouro:
- "Prefiro a morte ou a perda do meu reino, a passar por tão dura
humilhação".
Brada Alexandre:
- "Olá de minha guarda, peguem este bárbaro e atado a quatro touros, seja morto e
esquartejado, recolhendo-se seus soldados a prisões, para serem escravos dos
cristãos".
Responde o rei mouro:
- "Ó não seja por minha causa que o meu reino desapareça. Aceito pois o
batismo".
Proclama vitorioso Alexandre:
- "Mafoma, quebrei-te o encanto".
A fama seja notória: Viva o filho de Maria, Jesus Cristo Rei da Glória. Vivô...
Vivô... Vivô..., respondem todos.
Devolvem as espadas e todos se cumprimentam e se abraçam efusivamente. As corridas antes
da rendição, obedecem a evoluções determinadas, são de grande efeito e divertem
muitos os assistentes, que ocupam camarotes especiais, mandados fazer pelo festeiro ou
pelos próprios ocupantes. Há números cômicos, com palhaços, bobo do rei, por certo.
Há o rapto de Floripes Jovem e bela. Um homem se veste de mulher para fazer o
papel da bela raptada.
Tira argolinha
Terceiro dia
Nesse dia, festeja-se a vitória, com exibições as mais variadas possíveis, sem
contudo ter em valor histórico. Exibições de perfeita equitação. Realiza-se nesse dia
a corrida tira cabeça, oito de contas, foguinho, alcancia e tira
argolinha.
Tirar argolinha é a mais importante: Em uma trave por cima do campo estão atadas, em
fio, muitas argolinhas. Os cavaleiros que querem concorrer à prova colocam-se, em fila,
de lança em punho. Dado o sinal de partida, largam em disparada, tendo, de passagem, de
tirar uma argolinha com a ponta da lança. O herói que conseguir realizar tal façanha,
leva-a como troféu, debaixo de aclamações até a arquibancada e oferece-a a quem deseja
homenagear. Costuma-se oferecer às autoridades ou às namoradas. O homenageado retira
então a argolinha e coloca em seu lugar um presente que previdente que foi, trouxe para o
caso, ou para o acaso. Há ocasiões em que o festejado é apanhado de surpresa e coloca,
então, cédulas, de alto valor, é claro, jóia ou objetos de uso. É costume tirar-se o
relógio de uso e oferecê-lo ao cavaleiro. Cortes de casemiras são vistos, esvoaçantes,
como flâmulas ao vento.
[1957]
(Lacerda, Regina. Vila boa; folclore, p.45-56) |
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