| Tanto como representação do
pensamento puro e dos sentimentos e emoções, quanto como retrato dinâmico das coisas e
dos atos, potenciais ou acabados, a linguagem folclórica vige e viça fértil e
multiforme, copiosa e eloqüente. Provérbios, ditos, abusões, qualificativos, alcunhas,
receitas, admoestações, ciência enfusa ou empírica, charlatanismo e, até, as mentiras
folclóricas que também há as que fartem tudo isso, para ser comunicado e
entendido, está a carecer constantemente da palavra e da frase. E essas vêm, ora sós,
ora, e não raro, complementadas pela ação ou explicadas e reforçadas pelo gesto, que
é outra forma de linguagem, a miúdo auto-suficiente, mas sempre oralmente traduzível na
síntese de uma interjeição ou na análise de uma proposição. Damos a seguir uma pequena apanha desses elementos que adornam e porventura enriquecem a conversa e a vida diárias da gente das Alagoas, sem prejuízo do constante arcaizamento, renovação e substituição a que se acham sujeitos. Muitos deles, ao certo, correm noutras paragens inclusive de estranja: uns fiéis como fotografias de corpo inteiro, outros parafraseados ou caricaturados, ao sabor da distância e do tempo. Para melhor confronto e compreensão, distribuímos por várias categorias a ceifa recolhida, não desconhecendo que aqui é flagrante sua interpenetração, ali visível a identidade de significação entre ditos e formalmente diversos, registrados em classes distintas. Sem pôr o fito em explicar e justificar certos casos que implícita ou explicitamente ressaltam do contexto e, menos ainda, de formular teorias, pareceu-nos oportuno destacar da pauta e reproduzi-los nesta introdução, para alguns rápidos comentários, uns poucos números incluídos no parágrafo II: Medicina curativa e preventiva. Fazemo-lo porque, parte ou testemunha de certos fatos aí referidos, não podemos descrê-los, mas quereríamos vê-los explicados ou razoavelmente refutados. Isso não importa ignorar a fragilidade do testemunho humano, inda menos fidedigno quando pobre de cultura científica. É possível que algumas coisas aqui anotadas constem do livro de Fernando São Paulo Linguagem médica popular no Brasil; mas, posto que o tenhamos à mão, resolvemos não ir até ele em busca de soluções, preferindo esperá-las doutras fontes igualmente idôneas. Noutros passos, que nos parecem meditáveis, limitamo-nos ao acrescentamento de um comentário ou à formulação de uma hipótese, no remate de cada verba particularmente atendível. Vejamos os fatos destacáveis, pela ordem numérica do seu registro: N. 8 Membro varão de nossa família sentiu-se uma tarde impossibilitado de urinar. Foi suportando e esperando; mas dentro de poucas horas já sentia fortes dores e mal estar. Ao tempo, não eram fáceis os médicos, sobretudo para pessoas pobres. Nem havia prontos socorros. Discutiu-se a situação, até que alguém lembrou o chá de uma perna de grilo. Corre-se a casa, descobre-se um desses ortópteros, que inocentemente crilava num recanto, e ei-lo sacrificado. O homem ingere a beberagem e dentro de alguns minutos urina abundantemente na própria cama, pois não tivera tempo nem ânimo para levantar-se. Como agira o medicamento? Estimulando os músculos da bexiga, se houve paralisia desse orgão? Como anti-espasmódico, se ocorrera contração da uretra? Como dilatador desse canal, no caso possível de um estreitamento que naquela ocasião atingira o clímax? São perguntas de leigo. N. 9 Um decocto de saúvas (formigas de roça) usado muitos dias seguidos, curou uma faringite (?) obstinada. Como? Por que? É razoável supor uma ação do ácido fórmico? N.9 (Cont.) É coisa correntia a cura ou, pelo menos, a regressão das inflamações da garganta, com gargarejos de um cozimento desse pequeno sáuvio chamado lagartixa Que tem ele? Que substância ativa existirá talvez na sua pele rugosa? Nota: É indispensável aqui desfazer a confusão que (talvez por razões científicas) fazem entre o animal a que damos aquele nome e seu congênere a que popularmente denominamos víbora. Esta parece fora de dúvida é a osga, réptil que vive dentro das casas, escondido durante o dia e visível só à noite, quando sai à caça dos pequenos insetos de que se alimenta. Dizem que sua mordida é venenosa. A lagartixa, que atinge maior tamanho, vive nos quintais, nos cercados; come os frutos do mandacaru e outros, sendo talvez insetívora. Tem o nome popular de catenga (afro-negrismo?) e caracteriza-se por um reiterado movimento da cabeça, de cima para baixo e vice-versa. |
N. 11
Por incrível, extravagante e repelente que pareça, vimos duas vezes em nossa própria
casa, já lá se vão mais de sessenta anos, o rápido, quase imediato alívio de uma
pessoa (mulher) que padecia de freqüentes tumores da garganta, provavelmente das
amídalas. Nem se falava em médico, quanto mais em intervenção cirúrgica. A princípio
atacando com menor intensidade, o mal se resolvia por outros meios; mas por último, não
sei que vizinha ou mezinheiro prescreveu o tópico? Um sapo. Alguém saiu em busca
do batráquio, e daí a pouco, com o bicho ainda quente e latejante amarrado no pescoco da
doente com uma faixa, a paciente golfava pus e sangue dos tumores, respirava com
facilidade e adormecia. Morreu muitos anos depois, sem mais recidivas. Que é isso? Que elementos físico-químicos se contém no asqueroso animal, tão malsinado quanto útil e do qual se contam tantas histórias, todas tendentes a fazê-lo antipatizado?... N. 12 O infuso das folhas da mangueira, bebido à vontade, como água, cura, senão qualquer, pelo menos certo tipo de constipação intestinal. Que é essa anormalidade fisiológica doença ou sintoma? No caso vigente, podemos supor o efeito da terebentina, presente em apreciável quantidade nas folhas e frutos da prestimosa anacardiácea, agindo como laxativo ou estimulante do peristaltismo? N. 18 Vimos em pessoa de nossa família uma ferida rebelde a pós e pomadas da farmácia curar-se com a aplicação do pó da casca da romã, torrada e moída, que a princípio produziu algumas dores, talvez por efeito cáustico. "Estava matando a doença", explicava-se. E hoje perguntamos: - Teria havido aí só o efeito adstringente do tanino ou esse trabalhara apenas como roborante doutra substância ativa e enérgica?
N. 22 Talvez sejam idênticos os efeitos das três substâncias, oleosas ou gordurosas a banha do jacaré, o sebo do carneiro (que se quer seja capado) e a enxúndia da galinha. Não parece haver dúvida quanto ao seu poder de penetração pela epiderme, quando energicamente friccionadas. Em nós mesmos experimentamos, em tempos idos, a ação benéfica da terceira. Padeciamos de freqüente enfartamento dos gânglios inguinais que, resistentes aos produtos farmacéuticos, só se resolviam com unções da enxúndia, aplicada quente. Efeito quimioterápico resolutivo do próprio linimento, simples ação térmica, ou ambos em colaboração?
N. 26 Negociávamos com
vidraçaria. Certa vez, ao cortarmos uma lâmina, ferimo-nos ligeiramente na ponta de um
dedo, e então o sangue teimou em gotejar com aquela impertinência das hemorragias das
extremidades. Sugávamos a ferida, punhamo-lhe álcool, algodão queimado, e nada
O
serviço era urgente e ficara parado. Nesse comenos, entra um velho conhecido, vê o
embaraço e: - Espere aí! Vai à rua, abaixa-se perto da sarjeta, e volta
com qualquer coisa na mão. Toma-nos o dedo, aplica-lhe uma massa esverdeada e manda que a
comprimamos sobre o ferimento. Um minuto, dois Pode tirar! A
hemóstase era perfeita, consumada. O esterco de cavalo obrara o prodígio. Mas...
que haverá nele com tamanho poder hemostático?... Só vimos a ter notícia do bacilo
de Nicolayer, freqüente naquele dejeto, mais de vinte anos depois, quando íamos
morrendo de tétano, conseqüente de uma cauterização do nariz feita sem as devidas
cautelas profiláticas. (SANTIAGO, Paulino. In Boletim Alagoano de Folclore. Maceió, 1959, ano 4, números I e II) |
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