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A IARA

Sentada num tapete de folhagem
A iara bela, perfida e divina
É da beleza a humanizada imagem
Bastos cabelos, fulvos, redourados
Da graça azul das turbidas falenas
(Crespo de Castro)

Sob a sombra de mamauarana frondosa, à margem do rio Maguari, no limpo e cuidado terreiro onde se erguia a palhoça do velho pescador Boaventura, com ele conversava sobre os mistérios que os nossos rios, tão profundos, e as nossas grandiosas e sombrias florestas ocultam.

- Não é possível, velho Boa, não creio nessa história de iaras, curupiras e outras quejandas: são lendas criadas pela imaginação timorata do povo. Elas existem entre todos os povos, mais ou menos modificadas, conforme o caráter de cada um.

- Ah! branco... todos os senhores são assim! Como nunca penetraram sozinhos na espessura das matas, como nunca passaram horas e horas, isolados no rio ou na baía, como só vivem na cidade, cercados de muita gente, não acreditam naquilo que nós vemos. Pois, eu lhe vou narrar o que comigo se passou na baía do Sol.

O vento marajó soprava rijo e as ondas estavam encapeladas. Em minha montaria procurei uma enseada, onde as águas se achavam tranqüilas. O sol estava quasi sumindo-se no horizonte e lá ao longe se via o bando de vigilengas, que, de velas enfunadas, corriam sobre o dorso das vagas, aproveitando a maré e o vento. Lancei n’água o meu anzol, acendi o cigarro e pus-me a cismar, contemplando a beleza da tarde, sempre melancólica quando a solidão nos cerca. Já o sol havia desaparecido, mas a claridade ainda era grande, pois o céu estava dourado pelos seus últimos raios, quando ouço o marulho da água bem junto de minha montaria, como da onda levantada por branda aragem.

Volto-me e vejo, saindo da água, até quase a cintura, uma moça linda, linda como nunca vi tão bela em minha vida.

Os seus cabelos eram dourados e caíam ondeados, pelas costas; os olhos verdes, mas da cor verde do mar; a face alva, de uma brancura que fascinava; o seu sorriso seduzia e tive de fazer um esforço sobrehumano para não me atirar ao mar, quando a vi mergulhar.

- Ora, meu velho Boa, o fresco da tarde, a solidão, o cansaço do dia, fizeram-no dormitar um pouco e você julgou ver aquilo em que continuamente estão pensando, quando se acham sozinhos na mata ou no rio.

- Não, não, branco; eu vi a iara e, como eu, muitos a têm visto. Vou narrar outro fato e este é tão verdadeiro como si eu mesmo o tivesse visto, pois quem m’o contou foi uma senhora distinta, incapaz de faltar à verdade.

Ela morava no Iguarapé-assu, o pitoresco afluente do Acará, sua terra natal. Lá todos conhecem dona Maria, e muitas pessoas têm dela ouvido o que lhe vou contar.

Era no pino do meio-dia, quando dona Maria veio tomar o seu banho, antes do almoço. Como o senhor sabe, o Iguarapé-assu tem as águas claras, é pouco fundo e vêem-se os peixes nadando sobre a areia alva do leito.

Dona Maria entrou no riozinho e, em pé, voltada para o lado de sua casa, conversava, tomando banho, com uma escrava que lavava roupa, assentada no muritizeiro do porto. Dona Maria ouve, do mesmo modo que ouvi, o marulhar da onda. Volta-se e vê a iara, a mãe d’água: moça formosa, de cabelos dourados, olhos, não verdes como tinha a que me apareceu, mas azuis da cor do céu.

Dá um grito e corre para a terra, como louca, mal podendo a escrava atirar-lhe sobre o corpo a roupa. Foi tal o seu susto que durante oito dias uma febre intensa a prostrou no leito, variando, só falando na iara: por milagre escapou da morte.

- Aí está a causa. Quando dona Maria entrou para o banho, já estava com febre, já esta lhe havia atacado o cérebro e, por conseguinte, foi ainda a febre que a fez ver a iara.

- Como os brancos são teimosos! Posso garantir que existe a mãe d’água, a formosa iara, e que não há mortal capaz de resistir à sua beleza fascinadora. Quando alta noite a lua brilha no firmamento, ouvem-se, bem ao longe, melodias divinas, em um cantar monótono e triste, e o bater dos remos: - são as iaras, que, em iagaras pintadas, vogam na corrente, encantando os que as ouvem.

É preciso cerrar os ouvidos a esses cantares, se não quer ser arrastado. Outras vezes, mesmo de dia, assentado à margem do rio, ouve-se o aproximar de uma canoa pelo bater cadenciado dos remos. De repente, cessa o barulho e debalde se espera a montaria.

Foi a igara das iaras que mergulhou no rio, para surgir mais adiante.

Não queira nunca, seu branco, ver a iara.

É de uma beleza diabólica; no fundo das águas ela tem os seus palácios encantados, e quem uma vez a acompanhar, não voltará mais, não terá forças para quebrar o encanto.

Todas as vezes que vou para o mar, não deixo de fazer o sinal da cruz e de me recomendar à Nossa Senhora, para que ela me livre da mãe d’água.

- Faz bem; mas creia que os cantares longínquos e o bater dos remos que você ouve pelo silêncio da noite, lhe são transmitidos pelo eco.

São pescadores ou viajantes que passam distante, remando e cantando, como deles é costume, e a volta do rio faz cessar o eco, que toma outra direção.

- Pode ser, branco, mas ninguém me há de convencer de que não existe uma coisa que eu vi, estando bem acordado.

A iara é uma realidade e só os da cidade não a vêem!...


(OLIVEIRA, Hosaná de. Lendas e fatos da minha terra)

Ilustração de Marcos Jardim

Marulho – Movimento das águas do mar.

Timorata – Medrosa, receosa.

Variando – Delirando; Enlouquecendo.

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