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AS AVES NA CULTURA E NO FOLCLORE DO PARANÁ

Fernando Costa Straube
Mülleriana: Sociedade Fritz Müller de Ciências Naturais. Caixa Postal 1644. Curitiba, PR - Brasil. 80011-970; e-mail: juruva@milenio.com.br;
URL: http://www.milenio.com.br/toca/


No Estado do Paraná, as aves estão presentes em uma considerável fração da cultura regional, especialmente no folclore e na simbologia. Tal relação enquadra-se diretamente com espécies de interesse cinegético, mas também aquelas que convivem com o homem nas regiões habitadas, às quais atribui-se valor místico ou lendário.

Na região dos Campos Gerais
[1], particularmente no Vale do Rio Iapó [2], pinturas rupestres feitas há milhares de anos, enfocavam espécies inconfundíveis, como a ema (Rhea americana), atualmente extinta no Estado e restrita, ao que parece, à pequena área com vegetação de cerrado [3]. Outros representantes de aves, também estão ilustrados e, embora dificilmente identificáveis, apontam novamente para representações ornitológicas.

Nos sambaquis
[4] do litoral, dentre conchas de moluscos e outros ítens, encontram-se fragmentos de ossos de mamíferos, répteis e aves, indicando uma importância significativa desses animais na alimentação dos indígenas [5]. De ocorrência muito mais rara nestes depósitos enquadram-se objetos zoomorfos [6], cuja tentativa de representação de aves foi também documentada na região litorânea [7].

Vários grupos de índios que viviam no território paranaense (dos troncos linguísticos tupi
[8] e macro-jê [9]), alguns deles nômades, utilizavam-se das aves como matéria-prima para a arte plumária [10]. Mesmo considerados pouco especialistas em tais artefatos, os extintos Xetá do noroeste do Paraná, confeccionavam brincos e outros adereços, os quais consistiam do próprio couro emplumado de várias espécies de aves [11], pendurado nas orelhas e pescoço. Além disso, tinham nas aves um elemento importante em seus rituais e crenças, destacando-se a dança do urubu-rei, relacionada com ritos funerários [12].

O guará (Eudocimus ruber), ave belíssima de plumagem vermelho-carmim, mencionada pela primeira vez por cronistas do século XVI, como Hans Staden
[13], deu origem a nomes de topônimos litorâneos, cujo exemplo clássico é Guaratuba [14]. Centenas de outras localidades paranaenses tiveram como inspiração a presença, abundância ou simples ocorrência acidental de aves. Exemplos disso aparecem em Ararapira, Araruna, Chopinzinho, Corvo, Foz do Chopim, Guaraqueçaba, Guaraúna, Jacutinga, Pato Branco, Rio das Marrecas, Rio dos Papagaios e Serra das Araras [15].

Teor ainda mais importante pode ser atribuído à cidade de Arapongas
[16], cujas ruas centrais, na sua quase totalidade, têm nomes de aves. Já o município de Fênix, alusão à ave mitológica que renasce das próprias cinzas, tem sua denominação originada pela recolonização recente (década de 50) no mesmo local [17] onde uma antiga cidade colonial espanhola, ao que tudo indica arrasada pela bandeira liderada por Raposo Tavares [18].

Na região de campos dos planaltos, a curucaca (Theristicus caudatus) é espécie das mais conhecidas, sendo estimada pelos moradores tanto pelo espetáculo que causam seus bandos cantando em coro ao alvorescer, como por uma suposta utilidade como devoradora de pragas das plantações. Rivaliza, nesse sentido, com o quero-quero (Vanellus chilensis), localmente considerado um representante campestre sempre alerta e pronto para fazer soar seu canto de advertência, frente a invasão de algum estranho.

Outro exemplo de interação entre homens e aves nos é dado em Centenário do Sul, região norte do Estado, que protege há vários anos um urubu (Coragyps atratus) e convive com as pessoas na praça principal da cidade. Criado desde filhote por populares, ele é considerado mascote municipal e vive às custas de restos presenteados pela população
[19].

A cidade de Quatro Barras, situada perto de Curitiba, rivaliza com Campinas (São Paulo) o título de capital das andorinhas, pela impressionante quantidade de andorinhas-do-barranco (Stelgidopteryx ruficollis) que abriga em todos os logradouros municipais durante a época de migração. Espetáculo como esse é frequente em várias outras cidades do Paraná, dentre elas, Campo Mourão e Foz do Iguaçu, onde outra espécie (Progne chalybea) domina por completo as árvores das praças urbanas.

O gavião-carrapateiro (Milvago chimachima), também conhecido pela forma onomatopéica "pinhé", é considerado espécie útil à criação de bovinos, pois, acredita-se que pousado sobre o lombo dos bois, passa seu tempo a catar carrapatos que lhes parasitam. É em alusão a essa espécie, uma canção associada a uma brincadeira de salão
[20], a qual, aponta imediatamente para uma origem típica do sul do Brasil:

"Pinhé,
Pinhé,
Pinhé...
Pinhão!"

No folclore, as aves não-domésticas aparecem também nas músicas do fandango, reunião de várias danças particularmente conhecida nas regiões litorâneas e ilhas da Baía de Paranaguá
[21], por exemplo nesta relação entre o sabiá e o gavião [22]:

"A marvada sabiá,
Que comeu meu arrozá
Não me ajuda a prantá
Nem tampoco a capiná
O gavião que te pegue
E não te deixe escapá
O gavião que te pegue
E que te leve para o ar;
O gavião come a carne
E os ossos deixa ficar..."

São igualmente retratadas em cantigas populares tipicamente paranenses:

"Vamos, vamos lá
Na casa do beija-flor
Vamos, vamos lá
Na casa do meu amor..."

Dentre mitos, pode-se mencionar o caburé (Glaucidium minutissimum)
[23], que adquiriu um fantástico atributo de predador, acreditando-se atacar outras aves muito maiores, como o macuco (Tinamus solitarius), rasgando-lhe a carne e entrando em suas vísceras, onde permaneceria por vários dias, ali alimentando-se até a morte do hospedeiro [24].

Espécies regionais, ou até universalmente consideradas como agourentas, são as várias espécies de corujas (família Strigidae, especialmente a suindara ou sundaia, Tyto alba), o urubu ou corvo (Coragyps atratus), o anu-preto (Crotophaga ani) e a urutágua
[25] (Nyctibius griseus).

Algumas espécies têm presença associada a premonições, apenas pelo fato de emitirem vocalizações roucas ou ruidosas no período crepuscular ou durante a noite, enquanto voam. É o caso do socó (Nycticorax nycticorax) com seu crocitar áspero e forte, do acauã (Herpetotheres cachinnans) e sua voz semelhante ao reclame de uma velha e mesmo do quero-quero (Vanellus chilensis), tratado, em tais casos, como "coruja". Há muita gente, também, que acredita ser a aparição rápida e furtiva de uma corruíra (Troglodytes aedon) ou da alma-de-gato (Piaya cayana), avisos iminente de que algum parente próximo irá morrer.

Por outro lado, atribui-se às aves, diversas qualidades na previsão do tempo: andorinhas voando baixo indicam chuva, o mesmo acontecendo quando tucanos-de-bico-verde (Ramphastos dicolorus), arapongas (Procnias nudicollis), urus (Odontophorus capueira) ou saracuras (Aramides cajanea) cantam com mais intensidade.

Histórias de sertanejos - os "causos" - podem narrar uma relação de amizade entre uma espécie de ave, como o jacu-velho (Penelope obscura), e a popular entidade mítica chamada de saci-pererê
[26]:

"Quando senão quando, fômo escuitando úas combersa de jacu véio num gáio bem por riba de nóis, e já vimo o brutão d’um macho todo arrepiado, de penacho em pé, espichando o pescôço e tremendo a cabeça pra nóis; óia ora com um zóio, ora c’otro, fechando e abrindo as penas do rabo, de asa caída, dando aquelas corridinha e já vortando otra vêiz com modos de ansiado. Querendo de certo contá de nóis pr’arguém..."

Sobre o pavó (Pyroderus scutatus)
[27], caçadores crêem ser incapazes de matar mais do que sete aves, número bíblico, porém determinado por uma divindade mítica, o "guirapuru" [28].

Fazem parte considerável das tradições paranaenses, embora atualmente em muito menor escala, as atividades relacionadas ao aproveitamento direto das espécies de aves. Aí incluem-se a caça e a captura, seja para mantê-las para posterior abate, seja como animais de estimação pelo canto ou beleza do colorido da plumagem.

A caça foi um meio de subsistência extremamente importante durante a colonização do Estado do Paraná, tal como ocorre em todas as outras regiões brasileiras. Conta-se, na década de 40, de pilhas de jacutingas (Pipile jacutinga), espécie ameaçada de extinção, mortas por caçadores no norte do Estado
[29].

Dentre as espécies mais importantes nessas atividades cinegéticas destacam-se as perdizes, codornas, inambus e macuco, as pombas, rolas e juritis, os papagaios, os tucanos, jacus e jacutingas, urus, saracuras, marrecas e patos
[30].

São clássicas as caçadas da pomba-asa-branca (Columba picazuro), da amargosinha
[31] (Zenaida auriculata) praticadas até hoje com auxílio de ceva. Aumenta o interesse em tais caças, pelos agricultores, levando-se em conta a grande nocividade de algumas aves aos vários tipos de cultivo.

Na cidade da Lapa, sudeste do Estado, legisladores municipais
[32] propuseram, em 1853, uma mortandade obrigatória de chupins (Molothrus bonariensis) a todos os lavradores da região, cujo não-cumprimento incorria em multa de dois mil réis ao "contraventor" [33].

Muito conhecidas no Paraná, são as "passarinhadas", desjejuns muitas vezes festivos, cujo prato principal são pássaros de pequeno porte de inúmeras espécies, abatidos às centenas. Uma receita típica, originada pelos imigrantes italianos, é a tradicional "polenta com passarinho", sendo esses capturados principalmente pelas crianças, com auxílio de setras
[34].

Sobre os papagaios (gênero Amazona), devido a seu comportamento fortemente gregário, sabe-se que quando algum do bando recebe carga de tiro, os outros não voam. Então, ficando fácil pegar vários em uma única situação, criou-se o dito: "quem vai aos papagaios, traz os canudos
[35] vazios".

Além de fonte alimentar dos moradores do interior, as aves eram ítens importantes no cardápio dos exploradores que se aventuravam pelo sertão até então inexplorado. Não há relato de tais cronistas, que deixe de mencionar constantemente as espécies abatidas, o sabor das carnes, forma de preparo e modo de caçá-las.

Os índios mantinham nas proximidades de suas moradias, aves criadas desde filhotes, forçadas, por efeito disso, a não se aventurarem a grandes distâncias. Imagens colhidas na década de 1950 por Wladimir Kozák no noroeste paranaense, mostram, por exemplo um periquitão (Aratinga leucophthalmus) ao ombro de uma criança Xetá. Os Guarani que se instalaram no complexo insular da Baía de Paranaguá comercializam, ainda hoje, espécies nativas, como o papagaio-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis), considerado ameaçado de extinção. Na região sudoeste, alguns Caingangue vendiam em 1987, na beira de uma importante estrada, diversas espécies, como o periquito cuiu-cuiu (Pionopsitta pileata)
[36].

A tradição de captura de aves, no Estado, foi mantida por muito tempo, reduzindo sensivelmente em sincronia com o aumento e maior eficiência na fiscalização ambiental. Ainda atualmente, entretanto, é comum encontrar mesmo nas cidades maiores, gaiolas expostas às portas de estabelecimentos comerciais ou residências. São comuns os canários-da-terra (Sicalis flaveola), curiós (Oryzoborus angolensis), pichochós (Sporophila frontalis), sabiás-pretas (Platycichla flavipes), sabiás-laranjeira (Turdus rufiventris), chopins (Gnorimopsar chopi), periquitos (Brotogeris tirica) e os tão populares papagaios-verdadeiros (Amazona aestiva).

As aves e o Paraná encontram, por todos esses aspectos, uma afinidade generalizada, que aparece em incontáveis situações do cotidiano regional. E essa importante relação vai, pouco a pouco, tomando ares consolidados pela lei, por meio da formalização de símbolos oficiais. Seu valor como tradição perpetua-se assim, de geração em geração, constituindo-se de riqueza incalculável transmitida através dos tempos. Em outra oportunidade enfocaremos exatamente essa questão. Afinal, o Paraná é o único estado brasileiro que possui duas aves em sua simbologia oficial: a gralha-azul, ave-símbolo e a harpia, ornamento do escudo de armas.



Notas:

1. Segundo Planalto Paranaense ou Planalto de Ponta Grossa, especificamente no município de Tibagi.

2. Blasi, 1972; Parellada, 1993a.

3. Straube, 1995

4. Lugar de acampamento de populações indígenas que exploravam os recursos do litoral. São, portanto, acúmulos artificiais, principalmente de conchas de moluscos e, em menor escala, de ossos de mamíferos, répteis, aves e peixes, restos da alimentação de populações que habitaram principalmente o litoral (Parellada & Gottardi-Neto, 1993).

5. Bigarella, 1978; Kneip, 1992.

6. Artefatos com forma de animais, como esculturas rudimentares entalhadas em rochas (zoólitos) ou ossos.

7. Tiburtius & Bigarella, 1960.

8. Por exemplo Kayová, Ñandéva e Mby-a (seg.Melatti, 1993).

9. Por exemplo Kaingang e Xokleng (seg.Melatti, 1993).

10. Veja-se, por exemplo, os Caingangue (Fernandes, 1941)

11. Por exemplo, o pavó (Pyroderus scutatus), o tucano-de-bico-verde (Ramphastos dicolorus), o pica-pau-joão-velho (Celeus flavescens) e o surucuá-de-barriga-amarela (Trogon rufus), tal como tivemos a oportunidade de observar (Straube et al.(1993).

12. Kozák et al., 1981; Straube et al, 1993

13. Staden, 1557.

14. Straube, 1998.

15. Leão, 1924-1928; Leão, 1934; IBGE, 1950; Ferreira, 1996.

16. Na região norte, proximidades de Londrina.

17. Terço médio do Rio Ivaí, próximo à foz do Rio Corumbataí, na região noroeste do Paraná.

18. Parellada, 1993b.

19. Observação pessoal em dezembro de 1990.

20. Camargo, 1966.

21. Roderjan, 1969.

22. Camargo, 1966.

23. Uma pequena coruja, com não mais do que 20 cm de comprimento.

24. F.Straube, inédito: mito coletado na região da Serra da Prata (Guaratuba) em 1992.

25. Segundo Muricy (1975), o mesmo que urutago e urutau. "Espécie de coruja (sic) grande que nas noites de luar e nas madrugadas claras solta gritos de tal plangência que mais parecem lamentações"

26. Muricy, 1975.

27. Belo pássaro negro, com uma vasta área vermelha brilhante na garganta, também chamado de pavão.

28. Carvalho, 1924.

29. Sick & Teixeira, 1979.

30. Carvalho, 1924.

31. O nome amargosinha deve-se, segundo contam, ao sabor amargo da carne. Vide Carvalho (1924), quando afirma ser proveniente de um "esforço de odio que a ave faz contra o caçador, ao receber o tiro, esforço tão pronunciado e fóra do commum, que a billis se entorna, estragando toda a carne". Para que isso não aconteça, ensina o autor, é preciso que o caçador "...immediatamente após a queda da pomba ferida, lhe quebre a pontinha da aza esquerda, por ficar do lado do coração".

32. João Ferreira de Oliveira Bueno e Antônio Alves de Oliveira.

33. "Art.1º. Todos os lavradores são obrigados a apresentar ao fiscal, entre junho e novembro, 12 cabeças de chupins, incorrendo aquele que não as trouxer na multa de dois mil réis; Art.2º. Nos quarteirões onde não existir semelhante pássaro, obrigam-se os lavradores a justificar sua inexistência com duas pessoas dignas do lugar ou mediante informe do inspetor", segundo Lacerda (1998).

34. O mesmo que atiradeira, estilingue ou bodoque, tal como tratado no Paraná.

35. Cápsula de munição de arma de fogo, carregada com pólvora e chumbo de acordo com a necessidade de caça.

36. Straube, 1988.

 

 

 

Referências Bibliográficas:

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