![]() ![]() No último dia 30 de dezembro, morreu aos 89 anos, João Batista da Silva, mais conhecido por João Pacífico, um dos maiores compositores da música brasileira, autor de quase 1.400 músicas, entre elas os clássicos Cabocla Tereza, Pingo d'água e Chico Mulato. *** "João Pacífico era o mais antigo sobrevivente da autêntica música caipira, senão o único. Para mim não existe música sertaneja. Regravei praticamente todos os clássicos desse mestre, que morreu compondo coisas lindas. Não é exagero algum dizer que ele estava para o gênero como Noel Rosa para a música popular brasileira" Rolando Boldrin *** "Ele se foi, mas suas músicas ficarão para eternizar sua arte. João soube como ninguém, buscar na natureza inspiração para compôr músicas lindas. Pena que a mídia não lhe tenha dedicado mais espaço, principalmente por ele não abrir mãos de suas convicções artísticas. Seu estilo acabou influenciando o trabalho de vários autores caipiras, o meu inclusive" Renato Teixeira *** "Jamais conheci alguém tão criativo. Sem diploma ou formação musical, João Pacífico criou algumas das mais belas páginas da música caipira. Era um gênio, doce e sensível. Perdi a conta de quantas vezes ele se apresentou em meu programa nos dezenove anos de Viola, minha viola. Ele sempre chegava da mesma forma - entrava correndo, bem-humorado e brincalhão." Inezita Barroso *** "João soube ganhar respeito não só na música caipira, mas na música popular brasileira em geral. Há um mês fizemos um show em Botucatu. A última imagem que guardo dele é a daquele sujeito simpático, amigo e gozador, que só conseguia matar alguém no enredo de suas músicas. Fiz, inclusive uma toada em sua homenagem chamada Caboclo João em que exalto toda a sua bondade." Adauto Santos (Diario Popular. 31/12/1998)
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"Se um dia vocês virem as folhas amarelas, não reparem, foi a saudade quem pintou" JOÃO PACÍFICO Desde 1923 um grupo de oficiais e alguns
civis conspiravam contra o governo de Artur Bernardes. Embora estendida por todo o país,
a conspiração concentrava-se em São Paulo e era liderada pelo general Isidoro Dias
Lopes, pelo major Miguel Costa, além de João Cabanas e Joaquim Távora, contando com o
apoio da Força Pública Estadual. Na madrugada de 5 de julho de 1924, São Paulo caiu nas
mãos dos revoltosos. Três dias depois, o Presidente do Estado de São Paulo, Carlos de
Campos, entregou a cidade ao comando revolucionário. Tomado de surpresa, o governo
federal mobilizou suas forças (14 mil legalistas contra 3.500 revoltosos) e bombardeou a
cidade às cegas, atingindo residências particulares e civis assustados. Foi nesse clima, em plena revolução paulista de 1924 que um sujeito
chamado João Pacífico, então funcionário da Companhia Paulista de Estrada de Ferro,
desembarcou na cidade de São Paulo. Naquela época, esse neto de escravos que havia nascido numa fazenda perto
de Cordeirópolis, cursado o grupo escolar em Limeira, jamais pensaria um dia virar
cidadão paulistano, receber discos de ouro e compôr mais de 1.200 músicas, além de ser
um dos maiores compositores da música sertaneja do Brasil. Pois a revolução de 1924,
já é coisa do passado. Entretanto, o início da profissionalização de João Pacífico, só iria
ocorrer 10 anos depois, em 1934, quando começa a trabalhar na Rádio Cruzeiro do Sul,
"que não tinha programa de auditório, mas tinha um dos mais competentes
estúdios do país", Seu ingresso na rádio foi resultado de um encontro entre o
futuro compositor e o príncipe dos poetas, Guilherme de Almeida no carro-restaurante de
um dos trens da Paulista: "Eu declamei uma poesia minha para ele, que gostou e me
deu um cartão para eu me apresentar na Cruzeiro do Sul. Na rádio, Guilherme me
apresentou ao Raul Torres. Então começou a minha vida sertaneja." Pacífico hoje é um bem sucedido moleque (no sentido carinhoso do termo),
de 74 anos, morando numa gostosa casa em São Paulo. Ao lembrar do começo de sua
carreira, dá uma sonora gargalhada e fala que quando veio para São Paulo em 1924
continuou o trabalho na Companhia Paulista e depois foi trabalhar na Sociedade Harmonia de
Tênis, "eu fui prá lá indicado por um amigo, e fiquei por onze anos, pois a
rádio era só bico. Só sai do Harmonia porque um dos diretores do clube que também era
diretor do Banco Ítalo-Belga me levou para trabalhar com ele. No banco eu fiquei 38 anos,
até me aposentar. Aliás, tenho duas aposentadorias: bancário e compositor. Uma com 38
anos de trabalho e outra com 45". Voltando a falar de sua "vida sertaneja", João
Pacífico conta que sua primeira música gravada foi uma embolada. Isso porque na época
no final da década de 1920 quem começasse tinha que começar mesmo com
embolada, pois era o que as gravadoras queriam lançar. A embolada foi gravada por Raul
Torres e Aurora Miranda, saiu pelo selo Odeon, e foi feita em homenagem a um amigo de
Pacífico que morava em Campinas. Foi assim que Seu João Nogueira virou nome de música com o
seguinte estribilho: "Seu João Nogueira/ O que é essa mariquinha / eu vou
soltar meu galo / prá prender a sua galinha". "Mas depois de falar em galo e galinha", diz, "eu
passei para o romance, para a tragédia. A primeira música minha que ficou realmente
conhecida foi Chico Mulato (Na volta daquela estrada/ bem em frente de uma
encruzilhada/ todo ano a gente via/ lá no meio do terreiro/ a imagem do padroeiro/ São
João da Freguesia/ do lado tinha a fogueira/ e ao redor, a noite inteira/ tinha caboclo
violeiro/ tinha a tal de Terezinha/ cabocla bem bonitinha, sambava neste terreiro...). Com essa música, eu comecei aquelas histórias de declamar e depois
cantar, pois minhas letras dão sempre metro e meio de verso e os intérpretes tinham
dificuldades em colocar isso tudo num 78 RPM". João Pacífico conta que uma vez Mister Evans, chairman da
Colúmbia no Brasil, mandou cortar um pouco a orquestração, apertar um pouquinho,
imprimir um pouco mais depressa, enfim, mandou dar um jeito para que a música coubesse
todinha em um lado do 78RPM, mas "o interessante é que ele gostou, e mandou me
avisar que quando fizesse outras músicas, fizesse daquele jeito de e capricha no
sotaque falar e cantar. Segui o conselho e logo em seguida não só fiz com o
proseado e canto, mas fiz a minha primeira vítima em música: matei a personagem."
A música é a hoje clássica Cabocla Tereza, gravada em 1936. A primeira gravação de Cabocla Tereza foi feita pelo Raul
Torres (proseado) e Florêncio (parte cantada), é até hoje ainda gravada. Sem dúvida
alguma, é uma das composições mais conhecidas de Pacífico. A história de um sujeito
que, enciumado, possessivo, acaba matando a amada porque ela "felicidade não
quis". Esta é uma das músicas mais conhecidas do cancioneiro nacional. Composta
cerca de quatro anos antes da data de gravação, Cabocla Tereza se encaixa
perfeitamente na argumentação que João Pacífico dá à aceitação das suas músicas.
Para ele, o caboclo gosta de história completa, gosta de música que tem começo, meio e
fim, gosta dessa coisa de folhetim, de história como se fosse notícia de jornal. "O caboclo é muito simples nisso, ele gosta muito que uma
música conte uma história, uma história com a qual ele se identifique. Eu percebi isso
quase que sem querer, apenas sentindo a aceitação do público pela minha música",
conta Pacífico. Existe um questão que intriga o compositor com relação a esta música:
"Olha, quase todas as duplas do país já gravaram músicas minhas e, ainda hoje,
chega gente aqui em casa e fala: "Seu João, a gente queria gravar Cabocla
Tereza", e eu respondo: mas a Cabocla Tereza já tá velha, já
teve enfarte. Tem tanta coisa nova por ai, mas não, eles insistem e eu tenho que
deixar." Velha, enfartada ou não, o fato é que esta música virou roteiro e
depois filme. Filme que deu chances para que João Pacífico pudesse utilizar suas
qualidades de compositor num trabalho, para ele, até então inédito, aliás, dois:
trabalhar sob encomenda e fazer uma trilha para cinema. Para isso o compositor assistiu ao
copião e depois sentou era um início de noite numa austera mesa de
jacarandá que existe em sua sala de visitas. Quando começou a amanhecer o dia, o
trabalho estava feito: cada trecho para ele - importante do filme tinha uma música
que se encaixava com o clima. Pacífico aproveita a deixa do filme e reclama que a
Chantecler, gravadora que lançou o disco, só lhe deu um que foi devidamente roubado. Depois de Cabocla Tereza, o grande sucesso de João Pacífico foi
com a música Pingo dágua, composta em 1944 na cidade paulista de
Barretos, "numa época em que o sertão paulista estava amargando uma seca de
sete meses, o gado já definhando e boa parte dele estava até morrendo. Safra de café
então faz um gesto largo , nem pensar mais. Mas o pior é que e disso
eu me lembro bem o disco saiu no dia 5 de agosto de 1944. No mesmo dia, eu cantei a
música no Programa Minerva da rádio Record que, na época era um colosso. Uma
semana depois, choveu até dizer chega. Quase que viro milagreiro". João aproveita o mote das chuvas e lembra que em 1960 fez uma música
sobre a seca do nordeste, "mas logo em seguida foi um tal de chover tanto que
chegou até a morrer gente. O Orós no Ceará, encheu, deu aqueles problemas todos, e
felizmente a gravadora que ia lançar a música, a RCA, segurou o disco. Só agora em
outubro de 1993 é que eu voltei a cantar a música no programa Som Brasil do
Rolando Boldrin". Mas Pingo dágua também foi um sucesso e, contrariando a
regra do compositor, ela não tinha proseado: - "Eu fiz promessa/ prá que Deus
mandasse chuva/ que molhasse a minha roça/ e vingasse a plantação...". Falando sobre sua temática sertaneja, João Pacífico, sem grandes
artifícios justifica-se "afinal é mais fácil falar vançeis do que
vocês, concorda?" e, em seguida, diz que naturalmente influiu muito o
fato de ter nascido em fazenda em pleno sertão paulista e as imagens da fazenda que ele
guardou. Lembra ainda da figura de sua mãe que lhe contava e cantava muitas coisas,
"e isso entrou em mim de um jeito muito forte e ficou, pois, escrever sobre
sertão ou sobre fazenda hoje em dia e aqui no asfalto, não é muito fácil não. Claro que de vez em quando eu faço alguma poesia diferente, mas a
minha temática mesmo é a sertaneja. Eu gosto disso, pois as letras tem enredo, contam
histórias, não tem aquilo que hoje em dia é normal e muito usado, que é um tal de põe
ela na cama, tira versos, eu não gosto disso não". Outra coisa peculiar dentro desta temática toda é o "processo de parto" de uma música: às vezes João tem o título, e sai o
verso melódico junto com o poema, então "é só perseguir que vai saindo tudo
junto, música e letra", diz. Naturalmente que o compositor depois burila, lapida, e sempre, conforme
ele gosta de frisar, "sai metro e meio de verso", mas claro que tem
sempre uma exceção. Pacífico fez a sua menor letra, que para ele conta toda sua vida.
Esta menor letra tem "dois versinhos" e se chama Fiozinho
dágua. Cenas, fotos e lembranças são a matéria-prima que o poeta retira para o
seu trabalho. Isso tudo em um movimento ininterrupto. Aquilo que aos olhos normais passa
desapercebido, para o poeta adquire métrica, ritmo e melodia. Um exemplo disso é o
poema/música chamado Goteira. João conta que um dia estava sozinho em casa e
chovia. No fundo do quintal, uma calha jogava água sobre uma lata abandonada. Foi o
suficiente para nascer esta composição: - Aquela noite chovia que Deus dava/ aquela
chuva que varou a noite a noite inteira/ no meu telhado uma telha se quebrava/ preu
ouvir a sinfonia da goteira/ e uma lata enferrujada, coitadinha/ tão esquecida lá num
canto onde eu dormia/ talvez a chuva vendo a pobre tão sozinha/ veio alentar/ cantando
aquela melodia/ Veja seu moço/ eu também passei por isso/ fiquei igual aquela lata
esquecida/ com a tristeza/ assumi um compromisso/ depois senti que a solidão/ não era vida/ e então pedi a Deus que me ajudasse/ e que voltasse minha doce
companheira/ e no meu rancho outra telha se quebrasse/ pois tive inveja/ do carinho da
goteira. Embora defenda com unhas e dentes os valores da temática com que vem
trabalhando há 53 anos, João não é sectário e muito menos
revanchista, quer sobre novas tendências existentes dentro do mesmo filão que faz parte,
quer sobre outras tendências musicais. Sobre as novas tendências musicais dentro da
música sertaneja, Pacífico vê até com certa satisfação as novas correntes, "pois
vejo evolução, inclusive no que diz respeito à orquestração e instrumentação
utilizadas nas músicas; vejo também que existe cada vez mais interesse dos jovens pela
música sertaneja, bem como uma aceitação cada vez maior em todos os setores por esta
mesma música. Veja o meu caso por exemplo, hoje a minha música chegou até no salões
quando eu faço shows em faculdades, os alunos conhecem a minha música. Agora eu só
tenho medo ressalta que tanto ânimo assim acabe machucando a
melodia, não que fique feio, mas é que descaracteriza. Tanto é que eu nunca fiz nada
para o Milionário e José Rico. Agora Tonico e Tinoco, por exemplo, já gravaram quase
todo o meu repertório". Sobre outras tendências musicais Pacífico diz que quando surgiram ritmos como o charleston
e o twist "eu ficava debaixo da ponte. Quando a moda passava, eu saía
debaixo da ponte e fazia uma toada. O mesmo aconteceu com outros ritmos, mas, nestes
períodos de hibernação, eu sempre continuei compondo, daí quando o pessoal cansa
destes modismos todos, eu surjo e avanço". Assim é esse homem, contador de belas histórias, apreciador de uma boa cachaça de
alambique tem um tonel invejável em sua sala de visitas e poeta que conta
as coisas de um modo simples e verdadeiramente belo, para um povo também simples, mas que
nunca deve ser subestimado, construiu sua vida. Sem segredos, este é o melhor lema para
um molecão que está em sua melhor forma hoje, aos 74 anos, e cada vez mais com coisas
belas para contar e cantar. (Extraído de DEFESA DA CULTURA NACIONAL, nº 3, 1984, não constando o nome do autor da matéria) |
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