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CENA DE CARNAVAL

O Carnaval do Rio e em todas as províncias do Brasil
não lembra em geral nem os bailes nem os cordões barulhentos de mascarados na Europa
que, comparecem a pé ou de carro nas ruas mais frequentadas, nem às corridas de cavalos
chucros tão comuns na Itália.
Os únicos preparativos do carnaval brasileiro consistem na fabricação dos limões de
cheiro, atividade que ocupa toda a família do pequeno capitalista, da viúva pobre,
da negra livre que se reúne a duas ou três amigas, e finalmente das negras das casas
ricas que todas, com dois meses de antecedência e à força de economias, procuram
constituir sua provisão de cera.
O limão de cheiro, único objeto dos divertimentos do Carnaval, é um simulacro de
laranja, frágil invólucro de cera em um quarto de linha de espessura e cuja
transparência permite-se ver o volume de água que contém. A cor varia do branco ao
vermelho e do amarelo ao verde. O tamanho é o de uma laranja comum; vende-se por um
vintém e as menores a dez reis. A fabricação consiste simplesmente em pegar uma laranja
verde de tamanho médio, cujo caule é substituído por um pedacinho de madeira de quatro
a cinco polegadas que serve de cabo, e mergulhá-la na cera derretida. Operada essa
imersão, retira-se o fruto ligeiramente coberto de cera e mergulha-se na água fria, a
fim de que se revista de uma película de um quarto de linha de espessura, bastante
resistente, entretanto. Parte-se em seguida esse molde, ainda elástico, a fim de retirar
a laranja e, aproximando-se as partes cortadas, solda-se o molde de novo com cera quente,
tendo-se o cuidado de deixar a abertura formada pelo pedaço de madeira para a
introdução da água perfumada com que deve ser enchido o limão.
O perfume de canela, que se exala de todas as casas do Rio de Janeiro durante os dois dias
anteriores ao Carnaval, revela a operação, fonte dos prazeres esperados.
Para o brasileiro, portanto, o Carnaval se reduz aos três dias gordos, que se iniciam no
domingo às cinco horas da manhã, entre as alegres manifestações dos negros já
espalhados nas ruas a fim de providenciarem para o abastecimento em água e comestíveis
de seus senhores, reunidos nos mercados ou em torno dos chafarizes e das vendas. Vemo-los
aí cheios de alegria e de saúde, mas donos de pouco dinheiro, satisfazerem sua loucura
inocente com a água gratuita e o polvilho barato que lhe custa cinco réis.
Com água e polvilho, o negro, nesse dia, exerce impunemente nas negras
que encontra toda a tirania de suas grosserias facécias; algumas laranjas de cera
roubadas aos senhores constituem um acréscimo de munições de Carnaval para o resto do
dia. Ao contrário, um tanto envergonhada, a infeliz negra despenseira vestida
voluntariamente com sua pior roupa, quase sempre azul-escura ou preta, volta para casa com
o colo inundado e o resto do vestido marcado com o sinal das mãos do
negro que lhe enlambuzou de branco o rosto e os cabelos. Quanto ao ros, ela se apressou em
limpá-lo para evitar o motejo das companheiras, mas ainda
permanecem desenhadas em branco as rugas dos trejeitos que fez para se lavar; e essa
expressão fixa, dominando a mobilidade habitual de seus traços, dá a seu rosto uma
feiúra monstruosa difícil de descrever [1]; por outro lado, a face achatada do negro, igualmente
pintada de branco, perde suas saliências e sua expressão.
Nesses dias de alegria, os mais turbulentos, embora sempre respeitosos para com os
brancos, reunem-se depois do jantar nas praias e nas praças, em torno dos chafarizes, a
fim de se inundarem de água, mutuamente, ou de nela mergulharem uns aos outros por
brincadeira; a vítima, ao sair do banho, pula e faz contorções grotescas, com as quais
dissimulam às vezes o seu amor próprio ferido. Quantos às negras, somente se encontram
velhas e pobres nas ruas, com o seu tabuleiro à cabeça, cheio de limões de cheiro
vendidos em benefício dos fabricantes.
Muitos negros de todas as idades são empregados nesse comércio até a hora da Ave Maria,
quando se suspendem os divertimentos.
Vi, durante a minha permanência, certo Carnaval em que alguns grupos de negros mascarados
e fantasiados de velhos europeus imitaram-lhes muito jeitosamente os gestos, ao
cumprimentar à direita e à esquerda as pessoas instaladas nos balcões; eram escoltadas
por alguns músicos, também de cor e igualmente fantasiados.
Mas os prazeres do Carnaval não são menos vivos entre um terço pelo menos da
população branca brasileira; quero referir-me à geração de meia-idade, ansiosa por
abusar alegremente, nessas circunstâncias, de suas forças e habilidade, consumindo a
enorme quantidade de limões de cheiro disponíveis.
Domingo ainda, mas depois do almoço, o vendeiro procura provocar o vizinho da frente, com
incidentes insignificantes, a fim de atraí-lo à rua e jogar-lhe o primeiro limão ao
rosto. Alguns jovens franceses empregados no comércio, passeiam como se fossem sentinelas
avançadas, armados de limões, e aproveitam a oportunidade para inundar uma senhora,
também francesa, ocupada no fundo da loja semi-fechada. Vêem-se também jovens
negociantes ingleses, consagrando de bom grado 12 a 15 francos a um quarto de hora de
brincadeira lícita, passear com orgulho e arrogância, acompanhados por um negro vendedor
de limões, cujo tabuleiro esvaziam pouco a pouco, jogando os limões às ventas de
pessoas que nem sequer conhecem. Alguns gritos, entrecortados de gargalhadas, revelam ao
locatário do primeiro andar, cujo cômodo de frente já foi esvaziado de seus móveis, por precaução, que chegou a hora de abrir as janelas, ou para evitar que se
quebrem os vidros ou para se preparar ele próprio para a batalha de limões. Alguns
curiosos assimam aos balcões e logo desaparecem e a manhã toda decorre entre escaramuças.
Depois da refeição, entretanto, sentindo-se todos dispostos ao combate, correm às janelas e alegremente solicitam, de longe, e com gestos, licença para
começar; ao mais ligeiro assentimento limões trocados com habilidade e pontaria dão o
sinal do ataque geral; e, durante mais de três horas, vê-se grande quantidade desses
projéteis hidróferos cruzando-se de todos os
lados nas ruas da cidade e estourando contra um rosto, um olho ou um colo. A ducha
decorrente, de mais ou menos um copo de água aromática, suporta-se agradavelmente em
vista do calor extremo da estação.
É natural que, após semelhante combate, toda a sociedade de um balcão, molhada como ao
sair de um banho, se retire para mudar de roupa; mas logo volta com o mesmo entusiasmo. E
uma moça sempre se orgulha do grande número de vestidos que lhe molharam nesses dias
gloriosos para seus dotes de habilidade.
Se a batalha de limões, graças a essa familiaridade espontânea tolerada
durante três dias seguidos, se torna muitas vezes a causa de novas relações entre beligerantes, é ela por outro lado
motivo de isolamento para as pessoas tranquilas, que se fecham em casa e não ousam sair
à janela. Eis em resumo, a história do carnaval brasileiro; quanto ao episódio aqui
desenhado, eis a explicação: a cena se passa à porta de uma venda, instalada como de
costume numa esquina. A negra sacrifica tudo ao equilíbrio de seu cesto, já repleto de
provisões que traz para seus senhores, enquanto o moleque, de seringa de lata na mão,
joga um jato de água que a inunda e provoca um último acidente nessa catástrofe
carnavalesca. Sentada à porta da venda, uma negra mais velha ainda, vendedora de limões
e de polvilho, já enlambuzada, com seu tabuleiro nos joelhos, segura o dinheiro dos
limões pagos adiantado, que um negrinho, tatuado voluntariamente com barro amarelo,
escolhe, como campeão entusiasta das lutas em perspectiva. Perto desse e da porta pequena
da venda, outro negro, orgulhoso da linha vermelha traçada na testa, adquire um pacote de
polvilho a um pequeno vendedor de nove a dez anos; em cima, uma negra dispõe-se a vingar
com um limão o punhado de polvilho que lhe recobre a face e parte do olho; ao lado da
mesma porta, outro negro, grotescamente tatuado, está de tocaia. O vendeiro, tendo
retirado precipitadamente todos os comestíveis que de costume expõe à sua porta, deixou
tão-somente garrafas cobertas de palha trançada, abanadores e vassouras.
No fundo do quadro podem-se observar famílias tomadas da loucura do momento, uma
vendedora ambulante de limões, negros lutando e um pacífico cidadão escondido atrás de
seu guarda-chuva aberto e que circula por entre restos de limões de cera.
A Ave Maria impõe uma trégua e algumas rondas policiais acabam por implantar a paz.
A venda muda então, de aspecto; mal iluminada e cheia de fumaça das fritadas, torna-se,
como diariamente aliás, o ponto de encontro de todos os negros, já mais calmos, que aí
vêm, de prato na mão, comprar sardinhas ou peixes-galos servidos no vinagre, ceia comum
às pessoas das classes pobres e aos escravos, e recurso tanto mais procurado, quanto o
vendeiro chega a vender seis peixes fritos por um vintém. No dia seguinte, para liquidar
os restos da véspera, vende ele o dobro pela mesma importância.
[1] É sempre uma das mais
velhas escravas que preenche essa função.
(DEBRET, Jean Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao
Brasil)
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