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CERÂMICA MARUBO
Há vários grupos indígenas que os civilizados chamam de marubo. Vamos tratar aqui da
cerâmica de um desses grupos, que mora no município de Atalaia do Norte, Estado do
Amazonas, nas cabeceiras dos cursos do Ituí, Maronal e Curuça.
Como é feita a cerâmica
Marubo
Um barro de cor marrom é coletado na beira de pequenos córregos.
Dizem os índios que, quando o arco-íris aparece por cima do igarapé, nas suas extremidades se
acha argila boa para fazer cerâmica. As mulheres transportam a argila em cestas e
guardam-na dentro da maloca ou embaixo de um jirau, coberta com folhas de bananeira. Nas
horas de folga, confeccionam as peças. A ceramista trabalha sentada diretamente no chão
e às vezes sobre uma esteira rústica. O serviço pode ser realizado por uma pessoa
apenas, ou auxiliada por outra, sendo que esta normalmente faz os retoques da peça. A
técnica de manufatura é a mesma para qualquer objeto; o que varia é o formato. Fazem
peças de formato tradicional para seu uso e outras imitando nossas louças (travessa,
xícara, tigela, etc.), raramente utilizadas, mas para serem vendidas. Numa maloca do
Maronal, vimos queimando 33 peças de vários tamanhos, para fins comerciais; muitas delas
não eram de estilo antigo.
Todo barro, antes de ser utilizado, é amassado e examinado para constatar sua pureza, consistência e umidade. A textura é obtida com o acréscimo da cinza (pó)
da casca do pau caripé. Estas cascas podem ser queimadas num monte, no chão ou dentro de
uma velha panela grande. As cinzas são trituradas num grande cocho comprido de tronco, com uma
pedra retangular, ou no solo sobre folhas de bananeira, esteiras velhas ou uma lâmina de
madeira. As cinzas são colocadas na argila e molha-se a mistura. Esta é amassada com as
mãos, acrescentando-se mais cinza e água. O processo continua até que a cinza
desapareça totalmente na massa e esta tenha a textura ideal. Para isso, prova-se a massa
para constatar se ainda permanece o seu sabor azedo, pois a cinza o tira. Se possui este
sabor e está bem preta, está pronta para ser utilizada.
Ela repousa sempre sobre as folhas de bananeira. A ceramista amassa uma quantidade dela
para fazer a base da vasilha (uma placa arrendondada). Então, faz um rolete grosso de
massa com ambas as mãos, de aproximadamente 30 cm de comprimento. Às vezes a ceramista
coloca uma ponta do rolete entre os lábios para segurá-lo, enquanto o gira entre as
palmas das mãos, deixando-o da espessura e comprimento necessários. Observamos este
metódo numa maloca do Maronal, na confecção de uma grande panela cônica, de borda
corrugada. O rolete é colocado sobre a borda da base inicial da peça, seguro pela mão
direita, enquanto a esquerda o comprime de dentro para fora. Também pode ser comprimido
de ambos os lados com as pontas dos dedos. As pontas dos roletes desaparecem totalmente
nas emendas. Os roletes não são alisados externamente. Nem sempre o rolete cobre toda a
circunferência da peça, sendo necessário emendá-lo posteriormente. Com o dedo úmido,
a massa colocada é alisada rapidamente para se emparelhar com a outra já aplicada. O
alisamento é feito de cima para baixo (em sentido vertical) e depois para os lados (em
horizontal). Este último movimento dá a sensação de que a massa se espicha. Os roletes
vão sendo soldados uns aos outros em hélice.
A oleira constantemente inspeciona o vaso para verificar se o formato está ficando
correto. Se durante o processo da confecção a massa endureceu, jogam-se nela algumas
gotas dágua. Verificamos numa maloca do rio Ituí, que uma mulher algumas vezes
aquecia bolas de massa perto de um pequeno fogo e depois retirava um pouco das mesmas para
fazer o rolete. Parece que esse aquecimento é para amolecer a massa.
O alisamento preliminar do vaso, feito com os dedos, começa quando há uma boa parte
pronta. O alisamento final se faz com um pedaço de cabaça ovalada. Dependendo do tamanho
da peça, a oleira realiza esta tarefa sentada, de pé ou acocorada. O alisador é molhado
com saliva (nem sempre) e/ou água, que está numa tigela, perto da ceramista. O
alisamento interno e externo se faz no sentido horizontal. Inicia-se na parte superior
interna e termina na base. Enquanto alisa, com a mão esquerda a oleira apoia a parede
externa da vasilha. Após o alisamento interno, ela realiza a parte superior externa. Se
notar algum orifício nas paredes, tapa-os com massa e alisa. Não se percebe o remendo. A
massa que sobra é coberta com folhas de bananeira.
Durante a confecção das tigelas (cãtxá e mai quepo) a ceramista as
coloca nas mãos ou no chão. Quando se faz panelas grandes (mane yowá) e pote
dágua, e se encontram na metade do tamanho pretendido abre um pequeno buraco no
solo, forra-os com folhas de bananeira sem talos e coloca a peça em cima continuando a
trabalhar nela.
Após o término da confeccão, a peça de cerâmica é deixada na sombra
a secar, pelo menos nos primeiros dias, sendo constantemente mudada a sua posição para
secar uniformemente. Se o dia está nublado faz-se um fogo brando e se colocam as vasilhas
ao redor do braseiro para irem secando. Quando a peça está quase seca, passa a ser
polida com um coco de jarina e é posta diretamente ao
sol, sobre uma esteira. O polimento lhe retira a aspereza interna e externa, deixando-a
brilhosa. O coco de jarina é coletado no chão, pelas mulheres, na floresta.
Para queimar o vasilhame, a fogueira é disposta da seguinte maneira: uma camada de lenha;
outra de uma determinada casca de pau; as vasilhas; e mais uma camada de casca, cobrindo
todas elas. O fogo é aceso na camada de lenha. Há também outra técnica: a oleira
coloca os objetos sobre um braseiro, cobre-os com paus finos, pequenos e inclinados,
depois com outros mais compridos, de modo a formar um cone. Utiliza grande quantidade de
lenha. Depois de pronto o monte abana as brasas para avivá-las. As peças pequenas são
emborcadas e depois viradas de boca para cima, ou vice-versa. As grandes (potes e panelas)
permanecem deitadas. Normalmente, quando o monte termina de queimar, os objetos já estão
prontos. Cronometramos uma hora e meia para se queimarem duas panelas grandes, numa maloca
do Maronal. Antes de retirar as peças grandes do fogo, com uma longa taquara, a oleira
limpa o local ao redor para depositá-las. As menores são retiradas entre dois pedaços
de pau.
Para saber se ficaram bem queimadas, bate-se levemente com a taquara nas peças; se
emitirem um som parecido com o do sino, estão prontas; caso contrário, ficam mais um
pouco no braseiro. Às vezes a oleira retira os restos de tições e os coloca em outro
lugar, emborcando as vasilhas em cima. Se estiver ventando, coloca ao lado do fogo um
anteparo de abano ou de esteira, para evitar as labaredas.
A oleira tem que cumprir algumas restrições para evitar que suas peças se quebrem ou
rachem. Não pode ingerir comida de sal quando as está confeccionando, porque, na
ocasião de queimá-las, parece que a massa fica doce e elas se quebram. Pela mesma causa,
não come carne de caça, mas de peixe. Por ocasião da decoração da peça, não há
proibição alimentares.
Decoração
Os potes dágua (chomo) não são decorados. As grandes panelas (mane
yowá) tem o seu interior enegrecido. Esta cor é obtida através do seguinte
processo: a oleira esfrega folhas verdes de mamão por dentro e por fora das peças
queimadas, deixando-as esverdeadas. Faz um fogo brando com cascas de ivi chaca e
folhas verdes de mamão, emborcando sobre ele as vasilhas pequenas para enegrecerem.
Normalmente, a parte externa das cãtxá e mai quepo, quando não leva
decoração, não é pretejada. Deixa de 45 a 60 minutos no fogo, de que emana muita
fumaça. Evita que se forme labaredas, pondo um anteparo com esteira velha. Gira as
vasilhas no fogo para pretejarem uniformemente. Para enegrecer o interior de uma panela, a
oleira faz um pequeno fogo brando de cascas de pau e folhas de mamão, emborcando-a em
cima. Com o correr do uso este preto vai desaparecendo; então, repete-se o processo.
Dizem que o preto obtido com as folhas de mamão evita que a banana se queime, quando
está cozinhando. Para que o preto fique mais brilhante, colocam-se cocos de jarina no
fogo, em lugar das folhas de mamão.
Normalmente as tigelas (cãtxá e mai quepo) são decoradas externa e/ou
internamente, sendo que isso ocorre mais em malocas do Maronal. Os elementos geométricos
(os mesmo da pintura corporal) são impressos em negativo, isto é, permanecem na cor
natural da cerâmica, enquanto a superfície restante é enegrecida. Para se obter esse
efeito, usa-se uma cobertura provisória de argila.
Essa argila para decorar a cerâmica (totecá) é diferente daquela usada na sua
confecção. Mais esbranquiçada, amarelada, é coletada perto do igarapé ou da maloca.
Não leva mistura. Vimos apenas uma índia, no rio Ituí, acrescentar argila avermelhada
à mais clara, apesar das informações de que não se colocam mistura. Essa argila se
apanha apenas na ocasião em que será utilizada; o que restar é abandonado.
Provavelmente misturada com água, tem uma consistência pastosa e fica dentro de uma cuia
ao lado da ceramista.
Os desenhos são executados após as queimas das vasilhas. Para se fazerem, pontos, a
argila é colocada com a ponta do dedo e fica saliente, como um alto-relevo. Caso
contrário, utiliza-se um estilete de pau, para se fazerem linhas. Toma-se cuidado para
que este não contenha excesso de argila e borre o desenho. Em seguida, as peças são
emborcadas sobre um fogo brando, feito com lenha, casca de pau e fibras da casca da
aiuasca, que ajuda a pretejá-las, além de queimá-las. Ao esfriarem, a argila de
decoração é retirada com o dedo, aparecendo o desenho claro.
Normalmente são as crianças que executam esta atividade. Há uma infinidade de
diferentes tipos de desenho, que cobrem toda a superfície da vasilha, quer seja interna
ou externamente.
(MELLATI, Delvair Montegner. Revista Cultura) |

Tipos de vasos
Toda mulher casada, jovem ou velha, confecciona utensílios domésticos de barro cozido. O ateliê de trabalho pode ser o pátio externo
da maloca ou a área debaixo do assoalho de um jirau (palafita de paxíuba).
Poucas são as variedades de vasos domésticos usados na maloca:
Iwaca ou mane yowá: Panela de bojo largo, fundo pontudo, para ser
enterrado no chão com fogo ao redor, boca grande. Perto da boca, às vezes, há um friso,
dando impressão de que separa o bojo da borda, ou senão esta parte é
ligeiramente corrugada, ou seja, alisada. Há casos em que toda a peça é corrugada.
Quando usada para cozinhar carne de caça, pupunha , mandioca, sua boca é tampada com folhas de bananeira, amarradas
com fibras do tronco do mesmo vegetal, na altura do friso ou da parte corrugada. Há
vários tamanhos dessas panelas, e a utilização de uma delas depende da quantidade de
alimento a ser cozido no momento. São guardadas debaixo nos jiraus. Às vezes os homens
auxiliam as mulheres a carregar a panela do jirau para a maloca.
Existe um miniatura de mane yowá que tem uma finalidade mágica. Guarda um mingau de
banana, enquanto este recebe um poder terapêutico ou preventivo contra determinado males
através do cântico que um ou mais homens entoam várias vezes sobre ele. O mingau é
ingerido pela comunidade ou pela pessoa doente. A pequena mane yowá é preta, sem
pintura, havendo poucas delas em cada maloca. É tampada com folha de bananeira ou pano
nos intervalos entre os cânticos.
Chomo: Pote de bojo grande, base levemente pontuda, para ser fincada no
chão, gargalo curto e estreito, tampado, ou não, com uma pequena tigela (mai quepo).
Dentro dos jiraus o chomo fica suspenso em um tripé de madeira, e, na maloca, no chão.
Estes potes servem para depositar água. São lavados antes de serem enchidos no igarapé.
Apenas mulheres e meninas os transportam.
Oni Chomo: Pequeno pote no estilo e formato do chomo que serve para se colocar oni, sumo extraído da aiuasca, bebida que é usualmente ingerida por
ocasião das sessões xamanísticas. Apesar de ser confeccionado pelas mulheres, é apenas
usado pelos homens adultos. O potezinho preto sem decoração, tampado por um pano,
esporadicamente fica pendurado por um cordão de tucum dentro da maloca ou no jirau. Existem poucos deles em cada
maloca.
Mai Quepo: Pequena tigela de boca larga e fundo ligeiramente pontudo,
para se firmar no solo. É utilizada para servir alimentos líquidos e cremosos, ou
também como recipiente para beber. Usada por ambos sexos, apresenta-se em diversos
tamanhos.
Há outra tigela com o mesmo estilo e nome, com uma diferença na sua base: ligeiramente
quadrada, para apoiar-se no chão.
Cãtxá: Tigela de boca larga e base ovalada para servir alimentos
sólidos e pastosos, é utilizada por indivíduos de qualquer idade ou sexo.
Pao: Colher com duas cavidades ovaladas. Caiu em desuso, sendo ainda
encontrada em algumas malocas do Maronal. Possui decoração e é usada por indivíduos de
qualquer idade e sexo.
Os marubo comem com as mãos e raramente alguém usa uma colher, que geralmente é
oferecida aos visitantes "brancos". Comem separados por sexo. Na entrada da
maloca, sentados em dois bancos paralelos, ficam os homens adultos e jovens; no centro da
maloca, dois ou três grupos de mulheres.
Saiba mais sobre os marubo e outros índios do Brasil, visitando:
- Documentação indigenista
e ambiental: Povos indígenas no Brasil.
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