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A Getúlio César

Deus vos salve, relógio
Que, andando atrasado,
Serviu de sinal
Ao Verbo encarnado


(Ofício da Imaculada Conceição da Virgem Maria. Hino da Véspera)

Ôrai, Hora, Horae, Horas, as três estações gregas, as vinte e quatro horas do dia e da noite, filhas de Cronus, o Tempo, sempre tiveram respeito para o espírito dos homens de outrora. Dividiam a luz e as trevas com as gradações de penumbra. Assistiam aos mistérios, aos encantamentos, ao nascer e morrer de todas as coisas deste mundo. Tudo tem sua hora!… Boa hora, má hora, são os quadros normais da atividade humana. Vinte séculos caíram sobre as devoções greco-romanas às ôrai, mas os vestígios resistiram e são reconhecíveis nos dias contemporâneos.

Não sei como os negros sudaneses e bantus denominavam suas horas e quais as superstições ligadas a elas. Os indígenas da raça tupi tinham longa nomenclatura denominativa da espécie.

O Dia era ara, dia, tempo, mundo, claridade, época, ocasião, de ar, nascer, vir, ocorrer. Manhã provinha de coem, começo do dia, aurora, co ê, ei-la surde, ei-la surge, ou o ser sáe, emerge. Noite era pituna, de pi, interior, espaço, fundo, e tun, negro. É a lição de Batista Caetano de Almeida Nogueira.

As saudações eram: - Iané coéma, nossa manhã, bom-dia! Até a tarde dizia-se Iané ara, nosso dia. Boa-tarde era Iané caruca, nossa tarde. Boa-noite, Iané pituna, nossa noite.

Pituna diz-se do escurecer, Pituna ieráme, quase noite, à meia-noite, pisaié. Pituna uaçu, noite-grande, noite alta, escura, indefinida, serve de expressão genérica. Pituna pucu, noite comprida, noite estirada, segue da meia-noite até os primeiros sinais da madrugada, os clarões iniciais e vagos. Vem Coéma-etê, manhã verdadeira, madrugada alta, Coéma-piranga, manhã vermelha, aurora, Coéma-reté, manhã-feita, manhã-muita, primeiras horas do dia, Coéma-uaçu, manhã grande, divisões que estão habitualmente contidas na frase Coéma-pucu, manhã comprida, até meio-dia, horário de pesca e caça para os homens e de trabalho na roça para as mulheres. É o que sei no assunto, lido em Batista Caetano e Ermano Stradelli.

O grego inventou o mito de Alectrion, o companheiro de Marte, encarregado de vigiar e guardar os seus encontros com a deusa Vênus. Alectrion descuidou-se e o Sol avistou os dois amantes, indo denunciá-los a Vulcano, marido enganado. Seguiu-se uma série de escândalos e, ao final, Marte transformou o falso sentinela em galo. Por isso, o galo canta estridentemente durante a noite, anunciando a aproximação do Sol, lembrado do castigo e da perdida dignidade custodial.

O canto do galo é a divisão mais universal. Dividia a noite grega e passou para Roma. Para os romanos noctis septem tempora sunt. Eram o crepusculum, Fax, quando as luzes se acendiam; concubium, hora de dormir, quo nos quieti damus, a noite alta, nox intempesta, seguindo-se o gallicinium, quando o galo canta, e conticinium, quando ele cessa o canto, finalmente aurora, tempus quod ante solen est. Literariamente dizem antelucem, quando a manhã bruxuleia, ad meridiem, meridiem, perto do meio-dia e meia-noite etc.

Mesmo no Tibete a noite se divide em quatro jornadas: - Nyima, Tsen ou Gongmo, a noite, Chake-tangno, primeiro canto do galo, Chake-nyepa, segundo canto do galo. Nenhuma surpresa causará recordando-se a popularidade do galo como time keeper na Ásia clássica. Jesus Cristo anunciou as três negativas de Simão Bar Jonas, o apóstolo Pedro, antes de o galo cantar, antequam gallus cantet (Mateus XXVI, 34. Marcos XIV, 30. Lucas, XXII, 34).

A mais completa série de nomes dados às horas, mais ou menos geral no Brasil, foi enviada pelo professor Raimundo Guerra ao professor José Saturnino que incluiu no segundo volume da sua Língua Portuguesa (p. 197-198. Natal, 1942):

Uma hora da madrugada: Primeiro canto do galo
Duas horas da madrugada: Segundo cantar do galo
Três horas: Madrugada
Quatro horas: Madrugadinha ou amiudar do galo
Cinco horas: Quebrar da barra
Seis horas: Sol fora
Sete horas: Uma braça de sol
Oito horas: Sol alto
Nove horas: Hora do almoço
Dez horas: Almoço tarde
Onze horas: Perto do meio-dia
Doze horas: Pino ou pingo do meio-dia
Treze horas: Pender do sol
Quatorze horas: Viração da tarde
Quinze horas: Tarde cedo
Dezesseis horas: Tardinha
Dezessete horas: Roda do sol para se pôr
Dezoito horas: Pôr-do-sol
Dezenove horas: Aos cafuis
Vinte horas: Boca da noite
Vinte e uma horas: Tarde da noite
Vinte e duas horas: Hora de visagem
Vinte e três horas: Perto da meia-noite
Vinte e quatro horas: Meia-noite

Dissemos ainda "Sol-se-pôr" em vez do "Pôr-do-sol". Reaparece a secular expressão "aos cafuses" e no quebrar da barra lembra o inglês "at break of day".

As horas canônicas usam os nomes romanos para as várias tarefas durante as vinte e quatro horas no coro, cantando em salmodia. Matinas-e-laudes depois da meia-noite, Prima às seis da manhã, Terça as nove horas, Sexta ao meio-dia, Noa ou Nona às quinze, Véspera à tarde e Completas à noite.

No tocante às superstições diz-se em Portugal horas abertas, horas sem defesas, tempo em que as forças do Mal estão livres de reação maior, aos quatro períodos do dia, meio-dia, meia-noite e os crepúsculos vespertino e matutino. Surgem nessas horas os fantasmas, animais encantados, pavores, formas assombrosas e vagas que o canto do galo dissipa. Nos crepúsculos portugueses passam a galinha com os pintos, a porca dos sete leitões, a ovelha, a moura, o tardo, a coisa-ruim, a zorra de Odeloca berrando. Ao meio-dia é a hora do diabo à solta, dos Encantados em São Miguel, do Pretinho do Barrete Vermelho em Lagos e Estombar, dos Rosemunhos (redemoinhos) na Vila Nova d’Anços, do Homem das sete dentaduras no Cerro vermelho (Algarves), dos demônios meridianos. À meia-noite vê a Velha da Égua Branca e o Homem do Chapéu de Ferro nas aldeias algarvinas. As bruxas reúnem-se às terças e sextas-feiras sob a presidência do Demônio. O lobisomem cumpre seu fado nas quartas e sextas, depois daz dez horas. No Brasil, a noite do lobisomem é a noite de quinta para a sexta-feira.

Há as horas sagradas e definitivas para orações e remédios. Ao meio-dia os anjos do Céu estão todos cantando louvores a Deus. Ao findar a hora, terminando o coro, cantam o amém final. Coincidindo a praga ou a oração terrenas com o amém dos anjos tudo ocorrerá como se pediu, infalivelmente. Praga do meio-dia, dita na soleira da porta, é de um poder assombroso. É a mais forte e mais séria. Dificilmente deixa de pegar, de realizar-se.

As orações nesta hora são poderosas. A magnífica (Magnificat) o Ofício de Nossa Senhora, as Forças do Credo, o terço, rezados a esta hora conseguem milagres. Muitas e muitas pessoas preferem a madrugada para orar. Talvez pela sugestão da primeira hora canônica de matinas-e-laudes esse momento é ainda muito popular nas famílias tradicionais. No sertão rezam as velhas senhoras pela madrugada, quando os galos amiúdam os cantos. Há horas melhores para Deus escutar o pedido. Antes de o Sol nascer, com sinais de dia no horizonte, as rezas são de efeitos prodigioso. Mantém-se a tradição de orar com velas acesas, apagando-se a lâmpada elétrica. A muita luz dispersa a atenção e a penumbra concentra o pensamento.

A Morte prefere visitar os doentes nessas horas abertas, especialmente nos dois crepúsculos. Quando o sol nasce ou morre são as horas da Morte. A estatística indicará a mais alta percentagem nesse horário, explicável pelo desequilíbrio da temperatura, com influência decisiva na pressão cardíaca, estudada na meteorologia médica.

No vocabulário popular português do século XV era corrente a anorabuena e aramá, hora-buena e hora-má, prognósticos de viva tradição coletiva que tão vivos reaparecem nas comédias de Gil Vicente. Guardamos apenas a invocação da Boa Hora como prenúncio de feliz parto e há mesmo Nossa Senhora da Boa Hora para esse mister.

As horas prestigiosas são as ímpares. Numero deus impare gaudet, informa Vergílio, Écloga VIII, 75. Excetuam-se as horas abertas que são pares.

(CASCUDO, Luís da Câmara. Superstição no Brasil)

 

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