Fevereiro
2001
Ano III - nº 30 |
|
COMO
NÃO FAZER O TACACÁ
Tacacá Amazônia - Pará - Belém - 4 pessoas
a - 1/2 litro de tucupi
b - 1 galho de jambu
c - 4 pimentas malagueta
d - 250 gramas de polvilho (mandioca)
e - 250 gramas de camarão descascado e descabeçado (pesar depois de limpos)
f - molho de tucupi a gosto
1) leve ao fogo alto (a) o tucupi, (b) o jambu e (c) as malaguetas; apure por meia hora;
2) deite à panela, aos poucos, (d) o polvilho e a água, até formar a goma, homogênea e
não excessivamente pastosa (mais ou menos, água);
3) junte (e) os camarões secos e limpos, espere que se torne tenros e está pronto.
Serviço: serve-se bem quente, em prato fundo, recobrando-se, a gosto, com (e) o molho de
tucupi, aferventado.
É um dos produtos culinários mais típicos, exóticos e característicos da cultura da
mandioca (que está no tucupi duas vezes e no polvilho). Em ocorrendo a oportunidade, não
experimentar é pecado.
(HOUIASS, Antônio; DRAEGER, Alain)
O RITUAL DO TACACÁ
(...) o tacacá, com seu molho de pimenta, seus camarões e seu jambu é uma infusão
explosiva, capaz de por si só substituir o jantar. Muitos paraenses o tomam
arbitrariamente, de manhã ou de tarde, dependendo do momento em que têm a oportunidade
de encontrar uma tacacazeira. O horário indicado, porém, é entre as 4 e 5 da tarde,
quando o sol arrefece. Na rua ou nas casas, essa é a hora do tacacá. A hora ritual.
Porque a bebida, que é mais uma comida pela infusão alimentícia que apresenta, tem
requisitos para ser devidamente apreciada. Só pode ser tomada na cuia, uma vasilha
preparada do fruto da cuieira (crescentia cujete L.) e no fabrico da qual se
especializaram os caboclos de Óbidos, Santarém e das vizinhanças do Baixo Amazonas.
Ninguém pode conceber tomar tacacá em tigela ou copo. Seria uma profanação não só ao
paladar como à vista. A nosso ver o tacacá não é uma bebida, mas um prato que se toma
na cuia. Mesmo este recipiente, para ser usado com propriedade, tem de obedecer a certas
condições: ser simples, liso, todo negro por dentro, sem desenhos por fora. As cuias
floreadas e coloridas servem para adorno de casa ou para tomar açaí; não para o
tacacá. Muitos apreciadores dessa especialidade da terra, tomando-a mais tarde, eliminam
o jantar. Julgam-se alimentados para o resto do dia. Outros, como nosso saudoso amigo,
governador José Malcher, consideravam-no um aperitivo e, ainda mesmo sorvendo três cuias
na hora indicada, não dispensavam o jantar, como se antes houvesse tomado um simples
digestivo.
(...) A prova real do bom tucupi está no tacacá. Porque o tucupi é o seu elemento
fundamental. Quem toma tacacá é para saborear o tucupi, porque a goma, que se põe
junto, é um acompanhamento, um simples acessório. Há muita gente que, quando pede um
tacacá, o que toma na verdade é o tucupi com o camarão fervido dentro, a colherada de
molho de alho, sal, pimenta-de-cheiro, mais aquela incrível descoberta com a qual já se
regalavam nossos avós indígenas - o jambu - planta da família das Ampestas (Wulfia
stenoglossa), de um sabor característico, destinado a prolongar na língua e nas
paredes da boca um ardume sensual e entorpecente.
(ORICO, Osvaldo)
(Em MARANHÃO, Haroldo. Pará, capital: Belém; memória & pessoas & coisas
& loisas da cidade.) |
|