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LOJISTAS E CAIXEIROS ANTIGOS

O lojista do Rio de Janeiro, há oitenta anos, não era o homem de movimento, de trabalho, sempre bem disposto, que vemos hoje a dirigir dezenas de caixeiros e a acudir centenas de fregueses. O lojista carioca não se incomodava muito com os caixeiros, pois quando os tinha, eram filhos,
pupilos ou auxiliares escravos. Não procurava a freguesia: esperava-a na loja.

Uma casa de
ouvires, por exemplo, na rua a que eles pela sua residência deram o nome, não tinha as armações luxuosas que hoje guarnecem os grandes armazéns de ouro, prata e pedras preciosas, tendo, entretanto, mercadorias de grande valor. Algumas vidraças chatas, suspensas aos portais, com amostras de cordões, filigramas e pequenas obras de ouro e de prata, um armário de portas inteiras ao fundo, um balcão tosco e corrido constituíam o quadro da loja em que muitas vezes se mercavam jóias e obras de alto preço. O ourives, na generalidade fabricante também, esperava o freguês deitado em um catre de fundo de couro e os cuidados do comércio não privaram de fechar a sua loja e dormir a sesta habitual.

Os costumes dos outros retalhistas não eram muito diferentes. A sesta obrigatória encurtava-lhes bastante o tempo útil do dia, mas, por isso, os negócios não
periclitavam, porque os fregueses eram constantes e tudo toleravam.

Parece que as grandes armações principiaram com os franceses, porque o comércio importador inglês, de então, como o de hoje, não precisava delas.

Essas armações, pouco a pouco, foram se generalizando e há cinqüenta anos já primavam pela qualidade das madeiras e pelas obras de talha que as ornavam. Na rua do Ouvidor, por exemplo, eram comuns as grandes vidraças de jacarandá, pau-cetim e peroba e os mostradores partidos em dois ou três
caixilhos, por não serem ainda conhecidos os enormes vidros inteiriços que hoje ornam os nossos armazéns. Essas armações ostentavam vistosas amostras de modas, fazendas e armarinho. As armações pintadas ficavam para os armarinhos modestos. Ainda assim, a Farmácia Farinha, da rua dos Ourives, em um prédio arrasado para abertura da Avenida Central, possuía uma das mais belas armações de jacarandá com obras de talha, do Rio de Janeiro.

Os restaurantes à francesa, que os cariocas não deixaram de chamar "casas de pasto", os cafés (botequins) eram bem montados e procuravam com louvável
emulação primar no serviço dos fregueses.

Na antiga rua Dom Manuel, o Café de La Rade teve a freguesia de Garibaldi e dos carbonários, seus companheiros emigrados da Itália; na rua Direita sobressaíam a Confeitaria e o Café Francioni, depois Carceller e paredes-meias o Café de La Bourse, tendo como esse as paredes cobertas de espelhos.

O Café do Braguinha, ou mais correntemente – "A fama do café com leite" florescia no largo do Rocio em frente ao Teatro São Pedro de Alcântara.

O Hotel Pharoux e o Hotel de France, no largo do Paço, o Hotel da Europa, o Hotel Frères Provenceaux e o Hotel Ravot, na rua do Ouvidor, foram famosos há cinqüenta anos atrás e em tempos mais próximos.

A cidade mal passava nessa época do campo de Santana a oeste e do largo do Machado ao sul. Toda a vida fluminense se passava nessa acanhada área. Em 1808 a população não atingia a oitenta mil habitantes. A imigração européia que se fez comerciante no primeiro quartel do século passado, se era ativíssima e se plantou nesta cidade as mais variadas indústrias e se ensinou inúmeros trabalhos, antes desconhecidos aos luso-brasileiros, não era numerosa. O comércio de importação, o comércio de retalho, por sua natureza, foi na maioria transitório em quase todas as casas e em muitos ramos de negócio.

Muitos retalhistas franceses, alemães e italianos e alguns ingleses fundaram famílias brasileiras. Não citamos portugueses porque estes naturalmente fundiram-se com a gente nativa e são os avós e os pais dos fluminenses de agora.

Não temos muitas casas comerciais centenárias nesta praça; também hoje não as há em número
avultado na velha Europa. À exceção da Inglaterra, onde muitas famílias conservam as profissões dos seus maiores, onde o aferro às tradições pouco tem enfraquecido com as novas usanças, nem a França, nem a Alemanha, nem Portugal, e muito menos a Itália, nação de quarenta e cinco anos de idade, registram em suas estatísticas estabelecimentos comerciais de tráfico secular.

O Rio de Janeiro comercial, entretanto, tem algumas poucas sem dúvida, mas de tradições
opulentas.

… Não se encontrava no comércio dessa época o caixeiro elegante e tão inteligente de hoje, trocando idéias literárias e até políticas, resplendente de custosos vestuários, deslumbrando a freguesia com abrilhantados anéis, alfinetes e botões de peito, calçando finas botinas de pelica e verniz e usando gravatas lustrosas e
policrômicas.

Não; o espírito do caixeiro de então, conservador e modesto, procurava reunir economias, dedicava-se de corpo e alma ao trabalho, para garantir um futuro compensador.

O objetivo era tornar-se patrão, tornar-se independente e poder agir livremente, dedicando-se apenas às pequenas diversões em que passavam algumas horas sem enfraquecerem os seus haverem, ou procurando constituição da família carinhos e confortos que lhe amenizassem a existência laboriosa.

Seu vestuário sóbrio consistia da jaqueta de alpaca preta, calça e colete, de fazenda escura sempre, alva camisa de colarinho deitado, não usando gravata, nem deixando desaparecer entre as fumaradas de bom charuto o preço avultado do seu custo.

Caminhava, e caminhava muito, diariamente, e a pé, levando as encomendas à freguesia ou entregando nas residências das costureiras volumoso embrulho de roupas cortadas para o respectivo preparo.

Não encontrava a facilidade de tráfego como hoje para todos os mais longínquos pontos da cidade, nem tampouco o patrão se preocupava com as distâncias que ele tinha de percorrer.

Os ônibus e depois as gôndolas tinham horário determinado e havia pontos da cidade a que só faziam uma viagem pela manhã e à noite.

Os mais jovens, os mais ágeis, muitas vezes cansados da
labuta diária, agarravam-se à traseira dos veículos semelhantes que se denominavam diligências, sobraçando dúzias de calças, paletós, ceroulas, etc., para levá-los às costureiras, moradoras quase sempre em meio arrabalde da cidade. O que se dedicava a outro gênero de comércio qualquer que ele fosse, teria de fazer o trabalho na freguesia no russo-ceroula, como se dizia então.

[circa 1910]

(Ernesto Sena. In BANDEIRA, Manuel; ANDRADE, Carlos Drummond. Rio de Janeiro em prosa e verso)
 

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