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SEIS DANÇAS GOIANAS

O marimbondo

Esta catira, ou dança singular, é uma palhaçada engraçadíssima pelos esgares e passos desordenados, caretas, saltos, etc. (tendo o dançante um pote cheio d'água na cabeça, sobre uma rodilha de pano).

Os assistentes formam um círculo; o dançante fica ao meio deste com um pote equilibrado sobre a cabeça. Os do círculo gritam: -"Negro, o que qui tem?" Ele responde: -"Maribondo, Sinhá!", passando as mãos pelo rosto e pelo resto do corpo como se tirasse maribondos que o mordessem, dançando, pulando sem se derramar a água do pote, encimada por um cuité. O instrumento próprio é a caixa ou pandeiro. Quando o dançante se cansa, ajoelha-se aos pés do assistente que for escolhido para substituí-lo. Este não querendo sair a dançar, pagará uma multa em bebida, vinho, aguardente, etc.., conforme os passes.


Dança de tapuio

É o arremedo fiel do caterã indígena e varia muito conforme os lugares e as tribos de que foi tomada de empréstimo. Caboclos ou brancos disfarçados em índios, trazendo vestimentas guerreiras dos indígenas: tanga, blusa, calções, capacetes, cocares, flautas e assobios se adiantam ao meio do plano dois a dois, jogando os paus cadenciadamente, em combate singular. Sucessivamente, a tempo, saem outros dois e assim até que todos se vejam empenhados num ruidoso combate coletivo, cada um pretendendo romper a ala e ficar no lugar que dantes ocupava o adversário. O que consegue isto, ganhou o combate e prende o seu contendor. A ala que mais número de lugares contrários a ocupar ganha a batalha e prende a confraria, com o seu cacique ou morubixaba, que ao lado assiste ao torneio. Os vencidos fazem com a face uma espécie de moulinet, uma caibara sobre o qual trepa o cacique vencedor, ficando o vencido por baixo, sem o cocar e mais armas que o vencedor conduz. Dançam então ladeados em círculo pelos vencedores ao som das vaias ou assobios de um coco pequeno, com dois buracos, colhida da palmeira denominada chodó. Esta é a dança guerreira. Há outras muitas figuras interessantíssimas e originais, em que se executam habilíssimas piruetas e tranças de menguaras ou cacetes polidos e pintados de várias cores. Este caterã só se usa em ocasiões de festas populares, de levantamentos de mastros com bandeiras representando santos. Depois de dançarem em casa dos festeiros, saem às praças públicas e casas particulares, onde são obsequiados com doces e licores.


O vilão

Consiste numa espécie de moulinet de quadrilha francesa, no qual os dançantes formam uma grande roda, ligados pelas extremidades de lenços. O violeiro fica de fora e vai cantando e repicando a viola: os dançantes com esgares esquisitos executam piruetas ao rigor do compasso, formando depois uma ala, sempre ligados pelos lenços. É também conhecida pelo mesmo nome uma variante, em que, em vez de lenços, empregam paus apropriados ou mengueras, e no fim das diversas figuras formam uma grade com os cacetes, em cima do qual o violeiro sobe e é carregado pelo grupo. Ainda se dança no Brasil Central o Vilão de Faca, em que se empregam, em vez de lenços ou paus, facas.


A candeia

É dança obrigatória nos pousos de folia e parece ser original nos sertões goianos. Formam-se duas alas de pares em número inderteminado. No centro do plano que separa as duas alas coloca-se um dos dançantes com uma candeia na mão e numa das extremidades posta-se o violeiro. Os passos se executam assim: o primeiro cavaleiro da ala direita sai atravessando os espaços entre os cavaleiros e damas da ala oposta, passando depois aquela que lhe pertencia. Ao passar por sua dama, esta o acompanha no mesmo giro, e este passo se executa até que tenham saído todos. Se algum errar o intervalo, passará a ocupar o lugar do porta-candeia. O canto é o seguinte:

Seu Salvador!
Salvadora!
Todo aquele que errá
Na candeia há de pegá!
Seu Salvador
Da cidade, Sinhá!
Todo aquele que errá
Na candeia há de pegá!


A piranha

Compõe-se de homens, mulheres e até crianças que formam uma grande roda, saindo ao meio dela um dos dançantes que executa passos variados ao tempo, em que os da roda girando à direita e à esquerda, cantam:

Chora, chora, piranha,
Torna a chorar, piranha;
Põe a mão na cabeça, piranha,
Piranha!
Põe a mão na cintura...
Piranha!
Dá um sapateadinho,
Mais um requebradozinho...
Piranha!
Diz adeus ao povo,
Piranha!
Pega na mão de todos,
Piranha!

A tal piranha faz o que se lhe manda, chorando, pondo a mão na cabeça, etc. Por fim conseguindo agarrar a mão de um dos qualquer dos da roda, puxa-o para o meio do círculo, tomando-lhe o lugar. Assim se continua.


A canoa

Posta-se no meio da sala o violeiro: doze cantores se aproximam dele, sentam-se ao chão com as pernas estendidas, pés contra pés, em torno das canelas do violeiro. Este prende o corpo sobre um dos cantores, que o sustem com as palmas das mãos e num movimento o arremessa à direita ao seu imediato, que o impele para o vizinho, e, assim num rodar vertigioso, o violeiro toca e canta: "A canoa virou, lá nas ondas do mar", e os cantores respondem em coro: "É porque mãe Maria não soube remar!" Seguem-se outros versos, e a perícia do violeiro está em não perder os compassos do rasgado naquele rodar violento, aos trambolhões e empurrões que leva.

(CASCUDO, Luís da Câmara, Antologia do Folclore Brasileiro.)

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