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Porque das mulheres, umas têm os peitos grandes e outras pequenos

Ilustração de Marcos Jardim              Ilustração de Marcos Jardim

Um homem tinha um cachorro (cão) de raça, muito bom. Quando ia às matas, se matava sacuê (galinha de angola) ou outro bicho, vinha trazer ao dono. E este já estava acostumado. Um dia que ele foi à caça com o seu cachorro, este matou uma sacuê e a trazia ao dono, quando uma mulher, muito grande e valente, de peitos tão grandes que caíam no chão e faziam um grande barulho quando ela andava, não só tomou e comeu o sacuê, como o cachorro. O dono cansou de chamar, o cachorro não veio. No dia seguinte, ele voltou ao mato e principiou a procurar o cachorro e a cantar:

Avun-cê, mababú
Avun-cê, nôgô-é-zin,
Avun-cê, mababú,
Avun-cê, nôgô-zo,
Avun-cê, mababú,
Avun-cê, nôgô-abô,
Avun-cê, mababú,
Avun-cê, aúê-na
A son côticolô kê
Búbúm

De repente, apareceu-lhe a tal mulher enorme, de peitos volumosos, que toda enfurecida e batendo com os pés no chão, cantou ameaçadora:

Náná né die, paraiá
Un só aun tôédu, paraiá
Tô, tô, tô, pacraiá

(Que ela tinha o direito de comer tudo o que se mata; que tinha sido ela quem comeu a sacuê e o cachorro; que quem quisesse se aproximasse).

" homem fugiu e foi contar o caso ao rei.

O rei reuniu logo muitos homens e todos armados, seguiram para o mato, para ver a mulher de peitos enormes. Chegando lá, o homem pôs-se a cantar e assim que acabou apareceu de repente a mulher que lhe respondeu da mesma forma e todos deitaram a fugir.

À vista disto, o rei mandou chamar homens de outra terras e com eles foi de novo procurar a mulher. Assim que o dono do cachorro acabou a sua cantiga, a mulher apareceu e logo que acabou de cantar todos correram outra vez.

Então, as mulheres da terra disseram que, como os homens já tinham ido três vezes combater a mulher de peitos grandes, e tinham sido batidos e haviam corrido, desta vez iriam elas. Não quiseram saber de espadas, nem de armas, cada qual se apoderou de colher, de vassoura, de panela, etc.

Quando a expedição chegou aos matos e o homem do cachorro cantou a sua cantiga, a mulher monstro apareceu.

Caíram as mulheres sobre ela de colher, de vassoura, de panela e para logo a mataram. Então, cada qual tratou de apoderar-se de um pedaço do peito da mulher; as que puderam apanhar um pedaço grande tiveram os peitos muito grandes, as que só alcançaram um pedacinho, ficaram de peito pequeno, e é por isso que as mulheres não tem peitos do mesmo tamanho.

(Ramos, Arthur. O folclore negro do Brasil)

 

 

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