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Almanaque: Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...


setaquad.gif (95 bytes)Meteorologia popular 1

setaquad.gif (95 bytes)Meteorologia popular 2

setaquad.gif (95 bytes)No estradão

setaquad.gif (95 bytes)Calendário: Junho

setaquad.gif (95 bytes)Escrito em papel-moeda

setaquad.gif (95 bytes)Latrinália

setaquad.gif (95 bytes)Na parede do boteco

setaquad.gif (95 bytes)Animal na fala do povo

setaquad.gif (95 bytes)Adagiário

setaquad.gif (95 bytes)Provérbios

Alceu Maynard Araújo


A chuva é boa, meu fio,
a fina e não a grossa
prá moiá nosso mio,
Qui prantemo lá na roça


É na flora e na fauna que o caipira vai buscar elementos para suas práticas mágicas, terapêutica popular, cuja transmissão vem-se dando através das gerações. Estando em contato direto com a terra, com o seu tamanho e aproveitamento, as necessidades de chuva ou de sol, muitas vezes têm capital importância para sua própria sobrevivência ou bem-estar coletivo. Desenvolvem seus conhecimentos também através da observação. Desde cedo se iniciam na observação das fases da lua e dos fenômenos atmosféricos. Procuram então dominá-los, daí praticarem formas mágicas para chamar ou afastar chuva, elegem um santo do hagiológio católico romano como o supremo interventor nos fenômenos meteorológicos. É a meteorologia popular que, na vastidão do Brasil, poderá variar, mas nunca se afastará dos cânones portugueses dessas usanças.

Ad petendam pluviam

Varia de lugar para lugar e principalmente de região para região, o santo que faz descer as chuvas. Na comunidade paulista de Cunha, é São José. Aliás, como verificamos, é o santo mais querido do município todo.

Em São Paulo, pequeno burgo então em 1800, era outro o santo que desempenhava tais funções. É do punho de um bispo que vemos firmada o que hoje é imputado como crendice de caipira. O folclore é sem dúvida, um índice fiel das inquietações coletivas. Dizem que o povo não cria, apenas repete. O que está repetindo hoje é o que aprendeu há séculos, ou imita o que é proibido atualmente.

A sanção punitiva, o castigo que dão a São José do Bairro da Boa Vista é, sem dúvida, a maior manifestação coletiva da crença na interferência mágica desse santo no controle das forças da natureza. É a coletividade católica romana em Cunha que participa dessa cerimônia de magia, castigando o santo, mudando-o de edícula. Quando é grande a estiagem, vem a impossibilidade de prosseguirem na faina agrícola. Começam então, a fazer novenas à noite, dirigidas por um "capelão-caipira". Fazem promessas para São José e para Nossa Senhora da Conceição, que são os padroeiros do lugar. Se as rogativas "ad petendam pluviam" não são ouvidas, então o remédio é aplicar um castigo a São José. Vai o povo em procissão buscá-lo num lugarejo chamado Boa Vista, distante légua e meia da cidade, e trazem-no para a matriz local. O fato de o santo ser mudado de um lugar para outro, constitui a sanção punitiva, pois ele não gosta disso visto que o nicho da matriz não é o seu. Isto traz-lhe aborrecimentos e, como quer voltar para o próprio altar, manda chuvas copiosas. Vem, então, a alegria e... renovam a crença no poder (controlador das chuvas) do santo punido com a mudança de edícula.

"Às vezes o padre permite e avisa aos fiéis o dia em que devem ir buscar o santo. Há, porém, vigários (mormente os estrangeiros) que não querem consentir nisso. Nesse caso, o povo se reúne e, quer o pároco permita quer não, procedem assim. É enorme a afluência de povo todos os lugares, para a cerimônia. Às vezes, mal chegam com o santo na cidade, a chuva cai, chuva que encharca a terra, que tanto precisam dela. Após as chuvas levam o santo de volta em grande cortejo, com alegres cantos e rojões." Informaram-nos seguramente que essa prática é feita desde a fundação da cidade, antiga Freguesia do Facão.

Dizem os lavradores: "a chuva "braba" cai no dia 2 de fevereiro, dia de Nossa Senhora das Candeias, e a chuva miúda, no Natal. Vento seco, no dia de São Bartolomeu, 24 de agosto. A primeira chuva nós a esperamos no dia 8 de setembro, que é o dia de Nossa Senhora das Brotas."

Orações para chamar chuva:

"Ó meu Deus, ó meu Sinhó, vós por nóis óie e tenha dó, vós nos dá chuva que nos móie e dá o pão que nos console. Tenha dó dos inocente, não deixai morrê de fome, nem a fome nem a sede. Sinhô Deus di misericordi."

"Virge Santa do Rosário, vós venha me remediá, vós nos dá a chuva que nos móie e dá o pão que nos consola. Vós tenha dó dos anjo inocente, não deixai morrê de fome, nem a fome nem a sede. Não deixai morrê de fome. Misericordi Sinhô."

"Sinhora Santana, socorrei nós da miséria, sinhô Deus di misericordi. Minha Sinhora Santana vós socorrei nós da miséria. Vós tenha dó dos inocente, não deixai morrê a fome, nem a fome, nem a sede. Sinhô Deus di misericordi."

"Santa Madalena, Madalena Santa, ô Virgi i sinhora, vós nois daí chuva na terra. Santa Madalena, Madalena Santa, peço pra vós chuva na terra Santa Madalena, Madalena Santa, pede a Virgi Senhora, que nos dê chuva na terra."

Outras práticas para chamar chuva:

"Buscar água em canequinhas ou tigelas no rio e despejá-las na santa-cruz de beira de estrada e ajoelhar para rezar."

"Novena e dar para uma criança lavar os pés dos santos."

"Fazer procissão passando pelo quatro cantos da roça."

"Colocar Santo Antônio de cabeça para baixo no sol quente."

"Fazer uma cruz de cinza no quintal. É bom recolher-se logo, pois vira mesmo chuva."

"Matar sapo, é ter chuva na certa."

"Matar sapo, colocá-lo de barriga para cima."

"Pisar em formigueiro, chama chuva."

"Cantar desafinado traz chuva (ou chama chuva)."

Quando não querem trabalhar e o patrão não se esconde da chuva, os camaradas dizem: "Bata chuva grossa, porque da fina o patrão não gosta." Ou também assim: "Mandai Mãe de Deus, mandai, São Pedro, destampa a porta do céu, derrama o pote."

"Pedra de raio (machado lítico dos índios) não presta em casa, porque quando começa a chover, ele começa a saltar, pois tem as influências maléficas do raio." Lugar onde cai um raio, a pedra afunda sete braças, depois de sete anos ela está emcima da terra. Não presta ter a pedra de raio (machado lítico dos índios) em casa, pois atrai raios.

"Quando chove não presta falar o nome de raio: é chamá-lo."

"Perobeira, jacarandá chamam raio, não presta fazer batente de porta ou janela com essas madeiras. Para casa deve-se usar aroreira, que não chama raio."

"Não se deve ter cachorro nem gato perto, na hora da chuva: o pêlos deles têm eletricidade que atrai o raio."

"Não presta olhar no espelho que atrai raio. Quando chove, deve-se cobri-lo."

"Quando se colocar uma galinha para chocar, deve-se riscar os ovos com carvão para que os raios e trovões não os gorem."

Para chamar a chuva: "São Barnabé lá no arto da serra, manda chuva na terra pá num dexá os inocentes morrê de fome". Rezar uma Salve-Rainha e "Ó Virge Santíssima", que a chuva virá mesmo.

Mudar Santo Antônio de lugar no oratório, é chuva na certa.

(Araújo, Alceu Maynard. Folclore nacional. São Paulo, Edições Melhoramentos. v.2, p.102-108)

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