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| COLHER DE PAU - Nesta seção, textos
sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa;
horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e
alimentos... |
Há certa diferença na alimentação de determinadas zonas do estado em relação à
usada tradicionalmente na capital. Na região do Cariri, onde se encontram diversos
municípios, o pequi ou piqui entra largamente na culinária. Este fruto, de uma árvore
da família das cariocaráceas, é bastante apreciado ali, transmitindo gosto especial ao
feijão, à carne, ao arroz, em que costumam cozinhá-lo. A mangusta é outra
especialidade do sul cearense. Consta de pureia de manga cozida "de vez", perto
de amadurecer; cozida e peneirada, depois de fria; à qual se adicionam açúcar e leite
frio à vontade. Serve-se como lanche ou sobremesa.
Nas zonas praieiras, a alimentação principal como era de esperar consiste
no pescado, que se come às vezes, cozido com caju azedo. Desta fruta bebe-se o suco em
estado natural ou fermentado (mocororó) e também, quando meios o permitem, sob a forma
de cajuína, bebida muito apreciada também em outros pontos regionais e, mesmo, em
Fortaleza. Nela, o suco de caju, depois da fervedura e filtragem, é conservado em
garrafas lacradas. Fazem-se ainda do caju excelentes doces em calda ou em massa.
Bastante descaracterizada hoje a culinária da capital, que anteriormente fora destituída
de pratos requintados ou de exigente confecção, preferimos tomar como ponto de
referência o que se observa, a respeito, em zona interiorana, como a do município de
Acaraú, na região norte do estado. Nosso informante foi a jovem cozinheira Maria de
Fátima, 24 anos, dali procedente, que nos forneceu algumas receitas de pratos típicos e
tradicionais na alimentação ordinária daquela região, a saber: a carne assada com
pirão deleite, a paçoca, a galinha de cabidela, o cozido de carne de gado com verduras e
pirão escaldado, e outros. Trazemos aqui apenas duas receitas:
Carne seca assada (com pirão de leite)Ingredientes: Um quilo de carne-seca
(carne de sol), uma pitada de pimenta-do-reino moída, dois dentes de alho, uma colher de
manteiga de nata, uma colher das de sopa de vinagre, uma cebola vermelha cortada em
pequenos pedaços.
Modo de preparar: põe-se a carne de molho para retirar o sal, deixa-se enxugar um pouco;
em seguida faz-se uma mistura de alho, pimenta-do-reino, cebola e vinagre, com a qual se
tempera a carne. Leva-se esta à grelha para assar, tendo o cuidado especial de passá-la
uma vez por outra na manteiga. Come-se com pirão de farinha de mandioca, misturada com
leite de vaca, ou com coalhada.
Paçoca
Ingredientes: carne-de-sol (isto é, carne-seca cearense), cebola vermelha, farinha de
mandioca, manteiga de nata (ou da terra); pimenta-do-reino e alho. Antes de tudo,
necessita-se de um bom pilão de madeira; que pode ser encontrado à venda nos mercados
públicos.
Modo de preparar: ferve-se a carne que, quanto mais gorda, melhor para a paçoca. Depois
corta-se a carne fervida em pequenos pedaços e frita-se com manteiga, cebola,
pimenta-do-reino e alho. Não deixe fritar muito. Junta-se à carne, assim, a farinha na
proporção de dois para um; cada dois quilos de carne pede um quilo de farinha. Pila-se
então no pilão de madeira, podendo-se ir juntando cebola e alho ao gosto. Enquanto se
pila, mexe-se com a colher de pau, para a mistura ficar melhor. Come-se, no interior do
estado, acompanhada de banana ou misturada com feijão, bem assim com rapadura.
BOLOS
Bolos e alimentos outros comidos em todo o Ceará, especialmente nas festas juninas, em
dias ou noites de festas: pé-de-moleque, grude, bolos de carimã, de batata-doce ou de
milho, tapioca com leite de coco, etc. Quando é época de milho verde, fazem-se dele
canjica, pamonhas, ou comem-se-lhe os grãos cozidos ou assados, nas próprias espigas. O
mucunzá ou munguzá e o cuscuz são pratos de uso quase cotidiano na região de que
tratamos. A mesma cozinheira pôs à nossa disposição receitas de todos esses bolos, mas
aproveitamos apenas as duas que se seguem.
Pé-de-moleque
Não é o mesmo pé-de-moleque do sul.
Ingredientes: um quilo de massa de mandioca puba preparada (carimã), meio quilo de
farinha de mandioca peneirada; um quilo de rapadura; vinte cravos-da-Índia e uma colher
das de sobremesa de erva-doce; duzentos e cinquenta gramas de castanhas-de-caju assadas a
carimã com a farinha de mandioca em uma vasilha; prepara-se o mel das rapaduras,
dissolvendo-se em fogo com meio copo de água (o mel não deve ser muito grosso); pisa-se
o cravo e a erva-doce, e da mistura faz-se um chá bem forte; pisa-se metade das
castanhas. Na vasilha onde está a carimã mistura-se esta com o mel, as castanhas e o
chá de erva-doce e cravo. Em seguida, acrescenta-se o restante das castanhas inteiras e o
leite de coco e leva-se o todo ao forno quente, em uma assadeira forrada de folhas de
bananeira, até que fique bem assado. Serve-se frio em quadriláteros ou fatias.
Grude
Ingredientes: Um quilo de goma de mandioca; um coco grande; uma colher das de chá de
sal de cozinha. Rala-se o coco e retira-se o leite com um pouco dágua, deixando-se
uma parte do bagaço para ser adicionada à mistura dos outros ingredientes: a goma, o
sal, o leite de coco, a qual é feita em vasilha apropriada. Em seguida, leva-se o todo ao
forno quente, em forma, ou assadeira, forrada com folhas de bananeira ligeiramente untadas
de manteiga. Deixa-se assar bem e serve-se frio em fatias. Há quem acrescente leite de
vaca e açúcar na confecção do "grude".
(Seraine, Florival. Folclore
Brasileiro: Ceará. Rio de Janeiro, Funarte, 1978, p.43-44) |
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