Ano V - junho  2003 - nº 58

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 58
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU

setaquad.gif (95 bytes)Culinária cearense, por Florival Seraine.

setaquad.gif (95 bytes)O passadio em Minas Gerais em 1817, por Augustin de Saint Hilaire.

setaquad.gif (95 bytes)Como se preparava a canjica

PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

 

COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


CULINÁRIA CEARENSE

Florival Seraine


Há certa diferença na alimentação de determinadas zonas do estado em relação à usada tradicionalmente na capital. Na região do Cariri, onde se encontram diversos municípios, o pequi ou piqui entra largamente na culinária. Este fruto, de uma árvore da família das cariocaráceas, é bastante apreciado ali, transmitindo gosto especial ao feijão, à carne, ao arroz, em que costumam cozinhá-lo. A mangusta é outra especialidade do sul cearense. Consta de pureia de manga cozida "de vez", perto de amadurecer; cozida e peneirada, depois de fria; à qual se adicionam açúcar e leite frio à vontade. Serve-se como lanche ou sobremesa.

Nas zonas praieiras, a alimentação principal – como era de esperar – consiste no pescado, que se come às vezes, cozido com caju azedo. Desta fruta bebe-se o suco em estado natural ou fermentado (mocororó) e também, quando meios o permitem, sob a forma de cajuína, bebida muito apreciada também em outros pontos regionais e, mesmo, em Fortaleza. Nela, o suco de caju, depois da fervedura e filtragem, é conservado em garrafas lacradas. Fazem-se ainda do caju excelentes doces em calda ou em massa.

Bastante descaracterizada hoje a culinária da capital, que anteriormente fora destituída de pratos requintados ou de exigente confecção, preferimos tomar como ponto de referência o que se observa, a respeito, em zona interiorana, como a do município de Acaraú, na região norte do estado. Nosso informante foi a jovem cozinheira Maria de Fátima, 24 anos, dali procedente, que nos forneceu algumas receitas de pratos típicos e tradicionais na alimentação ordinária daquela região, a saber: a carne assada com pirão deleite, a paçoca, a galinha de cabidela, o cozido de carne de gado com verduras e pirão escaldado, e outros. Trazemos aqui apenas duas receitas:

Carne seca assada (com pirão de leite)

Ingredientes: Um quilo de carne-seca (carne de sol), uma pitada de pimenta-do-reino moída, dois dentes de alho, uma colher de manteiga de nata, uma colher das de sopa de vinagre, uma cebola vermelha cortada em pequenos pedaços.

Modo de preparar: põe-se a carne de molho para retirar o sal, deixa-se enxugar um pouco; em seguida faz-se uma mistura de alho, pimenta-do-reino, cebola e vinagre, com a qual se tempera a carne. Leva-se esta à grelha para assar, tendo o cuidado especial de passá-la uma vez por outra na manteiga. Come-se com pirão de farinha de mandioca, misturada com leite de vaca, ou com coalhada.


Paçoca

Ingredientes: carne-de-sol (isto é, carne-seca cearense), cebola vermelha, farinha de mandioca, manteiga de nata (ou da terra); pimenta-do-reino e alho. Antes de tudo, necessita-se de um bom pilão de madeira; que pode ser encontrado à venda nos mercados públicos.

Modo de preparar: ferve-se a carne que, quanto mais gorda, melhor para a paçoca. Depois corta-se a carne fervida em pequenos pedaços e frita-se com manteiga, cebola, pimenta-do-reino e alho. Não deixe fritar muito. Junta-se à carne, assim, a farinha na proporção de dois para um; cada dois quilos de carne pede um quilo de farinha. Pila-se então no pilão de madeira, podendo-se ir juntando cebola e alho ao gosto. Enquanto se pila, mexe-se com a colher de pau, para a mistura ficar melhor. Come-se, no interior do estado, acompanhada de banana ou misturada com feijão, bem assim com rapadura.


BOLOS

Bolos e alimentos outros comidos em todo o Ceará, especialmente nas festas juninas, em dias ou noites de festas: pé-de-moleque, grude, bolos de carimã, de batata-doce ou de milho, tapioca com leite de coco, etc. Quando é época de milho verde, fazem-se dele canjica, pamonhas, ou comem-se-lhe os grãos cozidos ou assados, nas próprias espigas. O mucunzá ou munguzá e o cuscuz são pratos de uso quase cotidiano na região de que tratamos. A mesma cozinheira pôs à nossa disposição receitas de todos esses bolos, mas aproveitamos apenas as duas que se seguem.


Pé-de-moleque

Não é o mesmo pé-de-moleque do sul.

Ingredientes: um quilo de massa de mandioca puba preparada (carimã), meio quilo de farinha de mandioca peneirada; um quilo de rapadura; vinte cravos-da-Índia e uma colher das de sobremesa de erva-doce; duzentos e cinquenta gramas de castanhas-de-caju assadas a carimã com a farinha de mandioca em uma vasilha; prepara-se o mel das rapaduras, dissolvendo-se em fogo com meio copo de água (o mel não deve ser muito grosso); pisa-se o cravo e a erva-doce, e da mistura faz-se um chá bem forte; pisa-se metade das castanhas. Na vasilha onde está a carimã mistura-se esta com o mel, as castanhas e o chá de erva-doce e cravo. Em seguida, acrescenta-se o restante das castanhas inteiras e o leite de coco e leva-se o todo ao forno quente, em uma assadeira forrada de folhas de bananeira, até que fique bem assado. Serve-se frio em quadriláteros ou fatias.

Grude

Ingredientes: Um quilo de goma de mandioca; um coco grande; uma colher das de chá de sal de cozinha. Rala-se o coco e retira-se o leite com um pouco d’água, deixando-se uma parte do bagaço para ser adicionada à mistura dos outros ingredientes: a goma, o sal, o leite de coco, a qual é feita em vasilha apropriada. Em seguida, leva-se o todo ao forno quente, em forma, ou assadeira, forrada com folhas de bananeira ligeiramente untadas de manteiga. Deixa-se assar bem e serve-se frio em fatias. Há quem acrescente leite de vaca e açúcar na confecção do "grude".



(Seraine, Florival. Folclore Brasileiro: Ceará. Rio de Janeiro, Funarte, 1978, p.43-44)

Jangada Brasil © 1998-2002