Ano V - junho  2003 - nº 58

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 58
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA

setaquad.gif (95 bytes)Pesca de tainhas, por Antônio Alves Câmara.

setaquad.gif (95 bytes)Pregões

setaquad.gif (95 bytes)Rendeiras de Guarapari, por Isabel Serrano.

PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

PESCA DE TAINHAS

Antônio Alves Câmara


Elas são em geral empregadas na pescaria e a das tainhas merece especial menção por ser uma das mais curiosas, e na qual é preciso desenvolver muita sagacidade, por serem elas muito tímidas e vivas.

Para esse fim empregam redes de dois sistemas: a da tainha é retangular, regulando suas dimensões 60 metros de comprimento para 4 a 5 de altura, sendo a malha de 0,025 m. a 0,038. É guarnecida na parte inferior de pandulhos para não fazer barulho na bordas das canoas.

A outra, a angareira, é uma pequena rede de malhas miúdas com as cabeceiras cosidas em pequenas varas, a qual se coloca por cima da canoa no sentido da quilha, do lado oposto ao cerco feito pela rede de tainhas, e inclinada para fora. As extremidades inferiores das varas ficam no fundo da canoa escoradas pelos pés dos pescadores, que com uma das mãos mantêm a parte superior delas na posição conviniente.

Em geral é a pescaria feita por duas ou mais canoas em número par, que levam, cada qual, uma quartelada da rede das dimensões citadas.

Observa-se o mais rigoroso silêncio a bordo delas, e até o remar é de maneira a não produzir o menor ruído, pois o mais ligeiro som as dispersaria.

Com estas precauções seguem vagarosamente procurando surpreendê-las em cardumes, como geralmente andam. Elas denunciam-se, quando está lisa a superfície do mar, por um ligeiro marulhar e opacidade em forma circular no centro do cardume, o que sendo reconhecido pelos pescadores, instintivamente principia o trabalho de cerco.

As canoas de duas a duas lançam ao mar suas quarteladas de redes de maneira que, quando se encontram com as outras do outro grupo, sobra sempre rede para trespassar uma sobre a outra, e, ajuntando as extremidades, fica fechado nesse ponto qualquer buraco por onde possam as tainhas fugir.

Quando são apenas duas canoas, partem ainda do mesmo ponto descrevendo um círculo a encontrarem-se no outro extremo do diâmetro.

Desta sorte, em curto tempo, e sem rumor algum, fecham o círculo, em cujo centro está o cardume das tainhas que, quando reconhecem a rede, a percorrem toda em roda procurando a fuga, a qual não sendo encontrada, tentam salvar-se saltando por cima do obstáculo que se lhes apresenta.


Já nesta ocasião estão as canoas dispostas em diversos pontos à beira da rede com as angareiras armadas, onde elas, não tendo obtido a salvação dentro da água, vão bater, e achar a morte dentro das canoas.

Passado o primeiro ímpeto da fuga, os canoeiros batem com as pás na borda da canoa, ou em chato na água, para espantá-las, e elas mais descoroçoadas e menos avisadas continuam a saltar até que com o ataque, desta ordem astucioso, termina quase o cardume. Uma que outra salta às vezes por cima da angareira, algumas escapam saltando em lugares onde não há canoa, e ainda outras mais tímidas, ou sagazes, aprofundam-se, e não saltam, nem investem para rede, o que resultaria emalharem-se.

Assim o grande salto, ou a excessiva timidez, as salva.

Algumas, ao primeiro ímpeto na carreira, que dão para fugir, não reconhecem a rede, e ficam presas nas malhas, principalmente onde as redes se ajuntam.

Essa pesca assim descrita é feita de dia, e em ocasião de calma e águas paradas.

À noite rara vez se a faz, e nas melhores circunstâncias de tempo e mar, e quando não há fosforescência, que aliás é fenômeno pouco comum no porto da Bahia, empregam o sistema de abalo, que as faz emalhar, por elas não verem a rede, e pouco saltarem em noite escura.


(Câmara, Antônio Alves. Ensaios sobre as construções navais indígenas do Brasil. São Paulo, Companhia Editora Nacional / Brasília, INL, 1976, p.41-43)

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