|
|
| OFICINA
- Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária;
artesanato; vendedores ambulantes; pregões... |
A história da origem da renda é repleta de lendas encantadoras, em cujo enredo o amor é
quase sempre o motivo central. Ora é o caso de uma jovem camponesa que, encontrando-se em
situação desesperadora, promete à Virgem Maria renunciar ao noivado, caso lhe venha Ela
em seu auxílio, e a Virgem, atendendo-lhe a súplica, faz surgir, estampado no avental da
jovem, o modelo da primeira renda, modelo tão fino que, executado pela moça vem
proporcionar-lhe abundantes meios de subsistência; ora é a história daquele marinheiro
que, havendo trazido de longínquas paragens, lindo coral para a sua noiva, esta, ao
vê-lo partir para guerra, toma a resolução de reproduzir a imagem da preciosa dádiva
em delicadíssima renda.
Imitando o trabalho das aranhas, a inconsolável noiva do filho do poderoso cacique
executa a primeira renda nhanduti tomando por modelo a teia que haviam elas tecido
na caveira do valente caçador, morto por um jaguar na espessura da floresta.
E de muitas outras maneiras procura a imaginação da gente simples explicar a origem da
renda, esse delicado trabalho, adorno da indumentária feminina e que outrora o foi
também das ricas vestes dos cavalheiros, ao tempo em que os punhos de renda dos uniformes
e os punhos de aço das espadas não apresentavam antagonismo ou contradição.
A renda de bilro ou de almofada é mais conhecida no Brasil pelo nome de renda do Norte,
muito embora seja executada no país inteiro.
No estado do Espírito Santo é assaz comum a sua confecção.
Em algumas fazendas haviam escravas ou servas especializadas nessa indústria doméstica.
Nesse tempo, as senhoras vestiam roupas largamente enfeitadas de rendas e bordados. Nas
várias saias usavam babados com adornos de renda fina. A roupa de cama, de mesa e até as
toalhas de rosto apresentavam barras de renda. Qualquer família tradicional de nossa
terra ainda conserva alguma toalha adornada de renda, crochê ou crivo. E talvez pessoas
ainda existam que se recordem de vê-las, alvas como neve, admiravelmente bem engomadas,
postas no porta-toalhas dos quartos de dormir, junto à bacia e ao jarro de porcelana
colorida.
Quando cheguei a Guarapari e entrei em contato com a vida da cidade, logo observei que ali
ainda havia muitas rendeiras. Como quase todas as casas são térreas e sem jardim à
frente, não é necessário ser indiscreto para que se tenha visão perfeita do interior
da sala de visitas. Aliás, quase todas as rendeiras preferem trabalhar junto à janela ou
à porta, provavelmente por motivo de melhor iluminação.
Segundo nos informaram as mais antigas rendeiras do lugar, desde épocas remotas esse
gênero de indústria doméstica é executado em Guarapari. Expressou-se assim uma delas
sobre o assunto:
- Parece que a renda, aqui, nasceu com a localidade. Na minha família, por exemplo, até
a geração de que tenho notícia todas as mulheres faziam renda. Desde os seis anos de
idade começam as meninas a aprender esta arte.
Em 1949, faleceu em Guarapari uma rendeira com 120 anos de idade. Tinha três irmãs e
trabalharam todas até morrerem, cada qual com mais de 100 anos. Chamavam-se "as
Tijorge". Diziam elas que sua mãe fora exímia rendeira.
Guarapari foi outrora conhecida como o lugar das rendas. De fato não havia casa onde não
fossem vistas uma ou mais rendeiras trabalhando, não raro até a noite, à escassa luz de
lampião, quando não havia eletricidade. Contam que pessoas se tornavam corcundas à
força de fazerem renda. Fabricavam-nas para adorno das próprias roupas e para venderem.
Aliás, foi talvez a renda, no Brasil, um dos primeiros trabalhos com que as mulheres
procuraram auferir algum proveito. Feita quase sempre em localidades afastadas dos grandes
centros ou zonas litorâneas onde as profissões dos maridos não eram bastante
lucrativas, constituía fonte para formação de um pecúlio destinado à aquisição de
roupas e objetos de uso doméstico, para o que raramente era bastante o incerto ganho
oriundo das atividades dos maridos.
Em geral são rendeiras as mulheres de pescadores, o mesmo não se verificando com
relação às esposas dos lavradores e trabalhadores rurais.
Outrora, quando o município não mantinha contato fácil e freqüente com outras
localidades do estado, pessoas havia que obtinham meios de subsistência comprando e
revendendo rendas. Hoje, toda a produção é diretamente vendida pelas rendeiras, até
por meio de reembolso postal.
Segundo afirmam os moradores, o número de rendeiras no município decresceu 90%. As
meninas não querem mais trabalhar com os bilros. Preferem colher búzios e conchas nas
praias, fazerem crochê e tricô, pois é mais fácil colocar o novelo de lã sob o braço
e mover as agulhas passeando pelas ruas ou assentadas à sombra das amendoeiras do
litoral.
Em Meaípe, entretanto, naquele distrito próximo à sede, a indústria rendeira não
sofreu modificação. Todas as mulheres, desde meninas, trabalham em rendas. Quando um
automóvel se detém naquela localidade, o turista é imediatamente cercado por mulheres e
crianças que procuram vender-lhe as rendas por elas fabricadas. E o viajante é empolgado
por uma estranha sensação de paz e de sossego, naquela pequenina vila, onde ainda não
chegaram a poeira, o ruído e a inquietude da cidade moderna. As casa, quase todas
construídas de frente para a maravilhosa baía que parece imensa bacia azul-turquês, a
igrejinha de Santana, muito pequenina e branca, no alto de um cômodo verde sem qualquer
construção em torno, tudo aquilo e aquela gente pacífica e simples trabalhando como
formiguinhas, os homens fazendo e consertando as suas redes de pescar, estendidas no
chão, as mulheres assentadas às janelas ou às soleiras das portas, trocando os bilros
sobre as almofadas, tudo aquilo aparece aos olhos do turista como se fora uma visão de
sonho.
A almofada para a confecção de rendas é cheia com folhas secas de bananeira ou capim
seco. Os bilros são fabricados pelas próprias rendeiras ou por homens que os vendem. A
haste é de madeira, trabalhada a canivete e as esferas das extremidades com o chamado
coco de ari, coco de uma espécie de palmeira que se desenvolve perto dos brejos. Para
abrirem no coco a cavidade onde se introduz a haste, aquecem ao fogo a extremidade de um
ferro e quando esta fica em brasa aplicam-na contra o coco, geralmente seguro na junta de
uma janela.
O encosto dos bilros é feito por algumas rendeiras, com um arame grosso apontado na
extremidade, sendo presa na extremidade oposta a semente de uma planta denominada
piripiri. Tais sementes são brilhantes como o esporão de alguns peixes, arraia, robalo,
garoupa, etc.
As rendeiras gostam de conservar os bilros que pertenceram à família ou com os quais
aprenderam a trabalhar. Outrora criavam modelos próprios para o desenho das rendas,
porém hoje não mais fazem assim devido à grande facilidade de obterem novos padrões.
Muitos pontos de renda têm nomenclatura especial: matachim, aranha, pano aberto, pano
fechado, pano baiano, trancinha e trocadinho.
Algumas rendeiras trabalham silenciosamente: outras, pelo contrário, gostam de cantar e
recitar versos enquanto manejam os bilros.
Disseram-me algumas que produzem muito mais quando encontram com quem conversar.
Ao se percorrer a cidade durante o dia, em horas de pouco movimento, ouve-se de onde em
onde, o som dos bilros entrebatendo-se. Na tranqüilidade das ruazinhas bucólicas, há
qualquer coisa de profundamente acolhedor naquele som. E, à semelhança do ruído da
máquina de costura ou das notas do piano tocado pela criança que inicia as escalas,
vem-nos logo a lembrança do lar e da família, despertando saudades de épocas distantes
no tempo e que se afastam cada vez mais de nós.
Ao escutá-lo, recordo-me de minha avozinha, cabelos brancos, óculos um pouco afastados
dos olhos, assentada numa cadeirinha baixa, junto à janela envidraçada, na velha casa da
fazenda, cantarolando a meia voz, o seu canto misturando-se ao estalidar dos bilros que se
chocavam ligeiros, movidos pelas mãos que tantas vezes me abençoaram, nos belos dias da
minha infância.
(Para Todos. Rio de Janeiro, fevereiro de 1958,
nº 23) |
|