Ano V - junho  2003 - nº 58

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 58
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA

setaquad.gif (95 bytes)Programa de um dia comum

setaquad.gif (95 bytes)Barbeiro! por Luís da Câmara Cascudo.

setaquad.gif (95 bytes)Quereis encontrar marido? - Aprendei!..., uma crônica de Lima Barreto.

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


O PROGRAMA DE UM DIA COMUM

Marcel Jules Thiéblot


Toda a família trabalha. É difícil empregar o pessoal de fora. Se acontece, é a de Cr$ 10,00 por dia mais a comida, e o horário de trabalho se estende das 6 horas da manhã às 4 da tarde. O trabalhador tem tempo de chegar a seu rancho antes de escurecer.

Em casa, todos se levantam logo que começa a clarear. A mulher põe no fogo a água para fazer café e o feijão. O homem toma uma xícara de café e segue para a roça. Filho menino vai junto. Aos 12 anos, o menino já faz tudo o que o pai faz, menos a derrubada. Enquanto isso, a mulher trata das criações: para os porcos, dá milho, ramos de mandioca, raízes. Para as galinhas, milho. Leva as louças para lavar perto do monjolo, e aproveita para trocar o arroz do monjolo.

Se não tem monjolo, depois de lavar a louça, trabalha no pilão perto de uma hora. Então corta lenha e prepara o almoço. Por volta das 9 horas sai o almoço. Se o pai está longe, uma criança leva o almoço para ele. Às três horas da tarde é a janta. Esse horário não é generalizado porque também vi algumas famílias que antigamente viviam na cidade, e que almoçam ao redor do meio dia e jantam de noite.

Duas vezes por semana, de manhã, a mulher lava a roupa no córrego; o lugar se chama "porto". As crianças pequenas brincam na água. Se o sol ajuda, ao meio dia a roupa já está seca. Passa com ferro de carvão. Nos outros dias, depois de fazer o almoço, ela também vai para a roça, deixando a casa aos cuidados da menina mais velha. É o caso de Jerônima, de 7 anos, que já sabe fazer o almoço, lavar a louça, dar banho nas irmazinhas etc.

Quando estavámos, José Basílio e eu, a caminho da casa do Laurentino, vimos mulheres cortando os primeiros cachos de arroz ainda verdes, para "torrar", isto é, fazer amadurecer à força do fogo. Usam esse processo quando já acabaram com a reserva da colheita anterior. "Arroz para torrar é comida de abade", comentou José Basílio, querendo dizer com isso que esse arroz é mais gostoso. Vimos outras mulheres arrancar amendoin, aproveitando uma boa chuva que amolecera a terra.

Depois da janta, conforme a hora, trabalha-se ainda até escurecer, tempo de tomar banho e ir dormir.

O parceleiro é dono de organizar seu horário, de programar seu trabalho; mas o seu patrão é o tempo. Sabe que deve aproveitar cada instante do dia como também cada dia de sol ou de chuva se não quiser ser tomado de surpresa ou se atrapalhar na hora da colheita. Isso faz com que viva sempre tenso e atarefado. Mas uma visita que chega em casa é motivo suficiente para alterar o programa. Vimos isto quando paramos em frente à casa de Milton, o cearense. Estávamos, como já falei, a caminho da casa de Laurentino. Já devia ser perto das 6 das tarde e não conseguíamos achar sequer a "linha", isto é, a rua. Tínhamos o número do lote mas nos faltava o número da "linha".

À mão direita, avistamos uma casa de palha e justamente lá vem vindo um moço, jovem, branco, com o machado ao ombro. José Basílio explica a situação, a minha presença, solicitando um lugar para pousar. Não há problema nenhum e o dono até parece encantado de nos receber. Encosta o machado num pau e nos faz entrar em casa. É um quarto de 3 por 3 sem porta. Sentamo-nos em bancos toscos, tomando o cuidado de não enfiar os pés nos bancos entre as tábuas do chão. De fato, o chão é feito de umas tábuas meios soltas, mas que evitam de se sujar de barro quando chove, porque a casa não tem baldrame e fica no nível mesmo do terreiro. Atrás desta sala onde estamos, fica a cozinha à direita, o quarto de dormir à esquerda. A cozinha se resume no fogão de barro e o quarto de dormir numa cama de casal onde agora dorme duas criancinhas. Sentamos e conversamos: cada um explica onde mora e o que faz. A esposa e a sogra estão ocupadas na cozinha. Só vão aparecer para oferecer um cafezinho servido em bule, canequinhas esmaltadas e um prato como bandeja. A mulher de Milton é muito discreta mas nada acanhada e responde sem constrangimentos às nossas perguntas. Enquanto continuamos conversando, Milton pega de novo no machado para cortar um pouco de lenha. Na volta, convida-nos para tomar um banho no córrego atrás da casa, o que aceitamos com prazer depois deste dia de cansaço, de calor...e de piuns! Quando voltamos, já é noite e a janta está pronta. Em cima do fogão, há três panelas: uma de arroz, uma de feijão e uma de carne de veado. Há também pratos de alumínio e colheres, de forma que cada um vai preparar seu prato na cozinha e volta à sala para comer, quer sentado, quer de pé. Alguns repetem. No canto há uma moringa com água e cada um se serve. Enquanto acabamos de comer, dois vizinhos chegam, decididos a ganhar a revanche da partida de baralho do domingo passado. Não que costumem jogar todas as noites, como faz questão de explicar o Milton. Hoje é excepcional!.

Alguns conversam, outros fazem seu jogo; as mulheres ficam de pé na divisa da cozinha. A água está no fogo para mais um cafezinho. Por fim nos ajeitamos para dormir, eu na minha barraca porque emprestei minha redes, às outras visitas no paiol... No dia seguinte, almoçamos antes de seguir caminho. São 8 e meia da manhã. Mas desde cedo fomos passear pelo arrozal com o Milton e outros vizinhos, gravamos várias conversações...

O parceleiro dá com todo gosto o pouso, a comida, o seu tempo. Tomara que quem o visita saiba lhe dar pelo menos uma amizade sincera!

Esse fato de a mulher sempre ficar de pé me chamou a atenção. Mesmo para comer, ela pega no seu prato e come de pé. As crianças sentam na porta ou numa cama, se existe alguma por perto, ou no chão. O marido, quando volta para casa, está cansado, não se discute. Mas não quer saber se os outros também estão. Ele é o chefe, ele manda, sem pedir "por favor", manda porque é normal que os outros estejam a seu serviço. A mulher faz tudo para ele, sem reclamar.

Quando as crianças vão dormir, elas pedem a bênção aos pais. Não vi ninguém beijar ninguém.



(Thiéblot, Marcel Jules. Rondônia: Um folclore de luta. São Paulo, Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia / Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas, 1977. Coleção Folclore, nº 6, p.83-86)

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