Retornar para Principal



(Catulo da Paixão Cearense)

Oh! Que saudades
Do luar da minha terra
Lá na serra branquejando
Folhas secas pelo chão!
Este luar cá da cidade
Tão escuro não tem aquela saudade
Do luar lá do sertão!

Não há, ó gente, oh! Não,
Luar como esse do sertão

Se a lua nasce
Por trás da verde mata
Mais parece um sol de prata
Prateando a solidão
E a gente pega na viola que ponteia
E a canção é a lua cheia,
A nos nascer no coração

Não há, ó gente, oh! Não,
Luar como esse do sertão

Coisa mais bela
Neste mundo não existe
Do que ouvir um galo triste
Num sertão que faz luar
Parece até que a alma da lua
Que descansa escondida na garganta
Deste galo a soluçar

Não há, ó gente, oh! Não,
Luar como esse do sertão

Ai quem me dera
Se eu morresse lá na serra
Abraçado a minha terra
No milho onde eu plantei
Ser enterrado numa cova pequenina
Onde a tarde sururina
Chora a sua viuvez

Não há, ó gente, oh! Não,
Luar como esse do sertão.


(Catulo da Paixão Cearense / Mário Alvares)

Quando ela passa
A caminho da choça do monte
Lá no horizonte
A ascensão do luar
Pela aldeia vem se derramar
Geme a fonte
E as minhas mágoas vêm vê-la passar
Passar cantando
Com a flor brincando
De quando em quando a suspirar

Vai bandoleira
A faceira que de mim se esquece
Até parece uma flor
Que ao luar, ao luar
Irrorada de orvalho
Do galho se desprendesse
E lá fosse a ondular
E ondulando fosse voando
De quando em quando a suspirar

Deixa em seu rastro o odor
Do rescendente sassafrás em flor
Deixa onde passa o olvido
O aroma de um coração ferido
Geme a viola então
Em meio da solidão do sertão calado
Um canto apaixonado, aveludado
De suspiros do coração

Se ao longe um lacrimal
Desliza sobre a areia de cristal
Descalça o pé dengoso
E o riozinho estremece airoso
E todo dia a se arrufar
Não quer mais deslizar
No planger fluente
Quer essa flor virente
Nas madeixas da corrente
Leva, levar

Quando amanhece
E à porta da choça aparece
Acorda a flor que umedece
O frescor que é tão grato
Acorda o regato e no mato
Acorda a rola em seu ninho de amor
Acorda a fonte, o horizonte
E lá no monte o trovador



(Catulo da Paixão Cearense / Pedro de Alcântara)

Ontem ao luar
Nós dois em plena solidão
Tu me perguntaste
O que era a dor de uma paixão
Nada respondi, calmo assim fiquei
Mas fitando o azul do céu
A lua azul eu te mostrei
Mostrando-a a ti
Dos olhos meus correr senti
Uma nívea lágrima e assim te respondi
Fiquei a sorrir por ter o prazer
De ver a lágrima nos olhos a sofrer

A dor da paixão não tem explicação
Como definir o que só sei sentir
É mister sofrer para se saber
O que no peito o coração não quer dizer

Pergunta ao luar, travesso e tão taful
De noite a chorar na onda toda azul
Pergunta ao luar, do mar à canção
Qual o mistério que há na dor de uma paixão

Se tu desejas
Saber o que é o amor
E sentir o seu calor
O amaríssimo travor do seu dulçor
Sobe um monte à beira-mar ao luar
Ouve a onda sobre a areia a lacrimar
Ouve o silêncio
A falar na solidão do calado coração
A penar, a derramar os prantos seus
Ouve o choro perenal
A dor silente universal
E a dor maior que a dor de Deus

Se tu queres mais
Saber a fonte dos meus ais
Põe o ouvido aqui na rósea flor do coração
Ouve a inquietação
Da merencória pulsação
Busca saber qual a razão
Por que ele vive assim tão triste
A suspirar, a palpitar em desesperação
A teimar de amar um insensível coração
Que ninguém dirá
No peito ingrato em que ele está
Mas que ao sepulcro fatalmente o levará



(Catulo da Paixão Cearense)

Si chora o pinho
Im desafio gemedô
Não hai poeta cumo os fio
Du sertão sem sê doutô
Us óio quente
Da caboca faz a gente
Sê poeta di repente
Que a puisia vem do amor

Não há poeta, não há
Cumo os fio do Ceará!

Dotô fromado, home aletrado
Lá da Côrte
Se quisé mexê comigo
Muito intoncê tem qui vê
Us livro da intiligença
I dá sabença
Mas porém u mato virge
Tem puisia como quê!

Poeta eu sô sem sê dotô
Sou sertanejo
Eu sô fio lá dus brejo
Du sertão do Aracati
As minha trova
Nasce d’arma sem trabaio
Cumo nasce na coresma
Nu seu gaio a frô de Abri



(Catulo da Paixão Cearense / Anacleto de Medeiros)

Se um riso vem
Teus lábios colorir de almo rubor
As almas a teus pés
Vêm prosternar-se com ardor
A luz transluz nos céus
Nos céus dos olhos teus
Saudosos como o luar
No mar a cintilar

Tua alma cheira mais
Que um alvo jasmineiro todo em flor
Onde tu passas fica um aroma a soluçar
Tu és de Deus a obra-prima
Não tens par!
És uma rima singular

Tu és a pérola ideal
Que o mar gerou
Tu és a flor mais aromal
Que Deus sonhou
A mais plangente e meiga lira sons não tira
Como as notas desse teu falar

Teus seios têm o sacro
E doce aroma de um missal
Teus lábios têm a eterna
Sensação da extrema-unção
Tu fazes sem pensar os astros palpitar
Tu fazes sem querer as almas padecer

Tuas tranças cheiram mais
Que as rosas trescalantes de um rosal
Que a madrugada vem de orvalho perolar
És uma flor da fonte à margem
De cristal
És um poema divinal!

És a mais sonora estrofe do Senhor
És a irradiação mais branca do luar
És a luz solar
Um hino sideral!
Nos olhos tens os raios
De uma estrela vesperal

Nos lábios tens a graça
Inebriante de hidromel
Da imagem do perdão
Tu és a cópia mais fiel
Tu és um coração de orvalho lá do céu
Que um anjo a chorar verteu



(Catulo da Paixão Cearense / Irineu de Almeida)

Eu sou capaz de confessar
Aos pés de Deus
Que eu nunca vi em mundo algum
Uns olhos como os teus!
Eu não sei mesmo
Como os hei de comparar, não sei
Eu já tentei cantar
O teu divino olhar

Depois de tanto versejar
Debalde em vão
Depois de tanto apoquentar
A minha inspiração
Cheguei à triste conclusão
De que eu só sei sofrer
E o que teus olhos são
Não sei dizer

Deixa-te estar que quando eu morrer
Irei verter os prantos meus nos céus
Hei de contar em segredo a Deus
As travessuras desses olhos teus
Hei de mostrar ao Senhor Jesus
Ao Pai nos céus, apiedado
Meu coração crucificado
Nos braços teus de luz

Os olhos teus são lágrimas do amor
Os olhos teus são dois suspiros de uma flor
São dois soluços d’alma
São dois cupidos de poesia
Que sinfonia tem o teu olhar
Que até às vezes já nos faz chorar!
Ai, quem me dera me apagar assim
À luz do teu olhar!

Os olhos teus
Quando nos querem castigar
Parecem dois astros de gelo
Que nos vêm gelar
Mas quando querem nos ferir
Direito o coração
Eu não te digo não
O que os teus olhos são

Pois quando o mundo quiser
De vez findar
Basta acendê-lo com um raio
Desse teu olhar
Que os olhos todos das mulheres
Que mais lindas são
Dos olhos teus
Não têm a irradiação



(Catulo da Paixão Cearense)

Ó ri, meu doce amor!
Sorri, lágrima da flor
Teu sorriso inspira
A lira que afinei por teu falar
E quer de amor vibrar
Ao sol de teu olhar
Ri, meu doce amor!
Sorri, pérola da flor
Abre em teu lábio um sorriso
Onde um coração diviso
De algum anjo que desceu do azul

Num teu sorriso, luz de poesia
Vem dar a melodia
E musicar os versos meus
Que eu mostrarei a Deus
Como eu te amo, alma dileta
E eu sem ser poeta
Irei fazer o Eterno
Te aclamar dos céus

Irei estrelas lá no céu roubar
Trarei da lua um raio de luar
Depois dos céus eu descerei ao mar
E a pérola mais bela irei buscar
Sem recear as iras do Senhor, irei
Roubar os cofres do Senhor
Trarei a essência do divino amor
Se tu, velada no mais casto véu
Concederes-me a vitória
A suprema glória de um só beijo teu



(Catulo da Paixão Cearense / Alfredo Dutra)

Tu passaste por este jardim!
Sinto aqui certo odor merencório
Desse branco e donoso jasmim
Num dilúvio de aromas pendeu
Os arcanjos choraram por mim
Sobre as folhas pendidas do galho
Que a luz de seus olhos brilhantes verteu

Tu passaste, que de quando em quando
Vejo as rosas no hastil lacrimado
Das corolas de todas as flores
As minhas angústias, abertas em flores
Neste ramo que ainda se agita
Uma roxa saudade palpita
E esse cravo, no ardor dos ciúmes
Derrama os perfumes num poema de amor

De um suspiro deixaste o calor
Neste cálix de neve, estrelado
Neste branco e gentil monsenhor
Vê-se o íris de um beijo esmaltado
Tu deixaste num halo de dor
Nas violetas magoadas, sombrias
A tristeza das ave-marias
Que rezam teus lábios à luz do Senhor

Vejo a imagem da minha ilusão
Nessa rosa prostrada no chão
Meus afetos descansam nos leitos
Destes lindos amores-perfeitos
Como chora o vernal jasmineiro
Que me lembra o candor de teu cheiro!
Este cravo sangüíneo é uma chaga
Que se alaga no rubor da cor

As gentis magnólias em vão
Muito invejam teu rosto odoroso
Rosto que tem a conformação
De um suspiro adejando saudoso
E esses lírios têm a presunção
De imitar em seus níveos brancores
Esses dois ramalhetes de amores
Andores de flores num seio em botão



(Catulo da Paixão Cearense / E. Otávio Ferreira)

Tu podes bem
Guardar os dons da formosura
Que o tempo um dia
Há de implacável trucidar
Tu podes bem
Viver ufana da ventura
Que a natureza
Cegamente quis te dar

Prossegue embora
Em flóreas sendas sempre ovante
De glórias cheia
No teu sólio triunfante
Que antes que a morte
Vibre em ti funéreo golpe seu
A natureza irá roubando
O que te deu

E quanto a mim
Irei cantando o meu ideal de amor
Que é sempre novo
No viçor da primavera
Na lira austera
Em que o Senhor me fez tão destro
Será meu estro
Só do que for imortal

Terei mais glória
Em conquistar com sentimento
Pensantes almas
De varões de alto saber
E com amor
E com pujança de talento
Fazer um bardo
Ternas lágrimas verter

Isto é mais nobre
É mais sublime e edificante
Do que vencer
Um coração ignorante
Porque a beleza é só matéria
E nada mais traduz
Mas o talento é só espírito
E só luz

Descantarei na minha lira
As obras-primas do Criador
O mago olor da flor
Desabrochando à luz do luar
O incenso d’água
Que nos olhos faz
A mágoa rutilar
Nuns olhos onde o amor
Tem seu altar

E o verde mar que se debruça
N’alva areia a espumejar
E a noite que soluça
E faz a lua soluçar
E a Estrela Dalva
E a Estrela Vésper languescente
Bastam somente
Para os bardos inspirar

Mas quando a morte
Conduzir-te à sepultura
O teu supremo orgulho
Em pó reduzirá
E após a morte
Profanar-te a formosura
Dos teus encantos
Mais ninguém se lembrará

Mas quando Deus
Fechar meus olhos sonhadores
Serei lembrado
Pelos bardos trovadores
Que os versos meus hão de na lira
Em magos tons gemer
Eu morto embora
Nas canções hei de viver



(Catulo da Paixão Cearense)

Recorda-te de mim quando de tarde
Gloriosa a morrer na luz do dia
E nos seios da noite a serrania
Em candores de neve se ocultar
Recorda-te de mim nesse momento
As estrelas saudosas do penar

Recorda-te de mim quando alta noite
Escutares um canto de tristeza
Descantado por toda a natureza
Nos formosos harpejos do luar
Recorda-te de mim quando acordares
E sentires no peito do adolescente
Um espírito em mágoa florescente
Uma hora em teu peito a suspirar

Recorda-te de mim quando no templo
Numa prece serena, doce e fina
Sob o altar florescido de Maria
Teus segredos à Virgem confiar
Recorda-te de mim nesse momento
Para que minha dor tenha um alento
E me deixe morrer com o pensamento
De que morro feliz só por te amar



(Catulo da Paixão Cearense)

Em um jardim à beira-mar
(fazia um luar de níveo albor
E o céu sem véu tinha o fulgor
Da cor do meu primeiro amor)
Estava ali a meditar
A meditar pensando em ti
Quando uma flor estando a sonhar
Do nosso amor falar ouvi

Compaixão! À flor eu disse então:
Ó tu que o coração conheces dela
Dize a mim se é vero o seu amor!
E a flor sonhando ainda
Assim me diz, assim:

"Ó feliz, tu és poeta!
A tua mais dileta flor
A nossa irmã de mais candor
Tem amor a ti ardente
Somente vive por te amar
E morrerá por te adorar!"

E a rosa ouvindo assim falar
Senti minh’alma a Deus voar
E de prazer, cheio de amor
Ia na flor um beijo dar…
E ouvi então a flor dizer:
"Eu quis magoar teu coração
Eu quis zombar da tua dor
A ti não tem, não tem amor!"

Capa do CD Catulo da Paixão Cearense nas vozes de Paulo Tapajós e Vicente Celestino. Revivendo.

Veja também:

- Catulo da Paixão Cearense.

- Os dois repentistas, uma peça de autoria de Catulo da Paixão Cearense.


(Catulo da Paixão Cearense)

Se tu queres ver a imensidão do céu e mar
Refletindo a prismatização da luz solar
Rasga o coração, vem te debruçar
Sobre a vastidão do meu penar

Rasga-o, que hás de ver
Lá dentro a dor a soluçar
Sob o peso de uma cruz
De lágrimas chorar
Anjos a cantar preces divinais
Deus a ritmar seus pobres ais

Sorve todo o olor que anda a recender
Pelas espinhosas florações do meu sofrer
Vê se podes ler nas suas pulsações
As brancas ilusões e o que ele diz no seu gemer
E que não pode a tia dizer nas palpitações
Ouve-o brandamente, docemente a palpitar
Casto e purpural num treno vesperal
Mais puro que uma cândida vestal

Hás de ouvir um hino
Só de flores a cantar
Sobre um mar de pétalas
De dores ondular
Doido a te chamar, anjo tutelar
Na ânsia de te ver ou de morrer

Anjo do perdão! Flor vem me abrir
Este coração na primavera desta dor
Ao reflorir mago sorrir nos rubros lábios teus
Verás minha paixão sorrindo a Deus

Palma lá do Empíreo
Que alentou Jesus na cruz
Lírio do martírio
Coração, hóstia de luz
Ai crepuscular, túmulo estelar
Rubra via-sacra do penar



(Catulo da Paixão Cearense / Anacleto de Medeiros)

Quando um deus cruento
Vem sangrar meu sentimento
E do meu tormento
Põe as cordas a vibrar
Solto o pensamento
Que se perde no infinito
Desse azul bendito
Que te luz no olhar

Se teu nome pulcro
Em devoção desfio em prece
Frio em seu sepulcro
Me estremece o coração
Pedras de cristal sentimental
Correm fugaces
Pelas minhas faces
A brilhar, rolar

Brilhas entre as gemas
Dos poemas dos meus prantos
Choras nos quebrantos
Destas lágrimas supremas
Tu sorris das rosas
Policromas nos aromas
Fulges no cismar
Da minha dor, do meu penar

Cantas nos enleios
Dos gorjeios mais insones
Corres pelos veios
Da campina esmeraldina
Gemes pelos seios
Esteríssimos das fontes
Pelos horizontes
No arrebol ao pôr-so-sol

Em vestes celestes
Nos ciprestes de minh’alma
Ergues uma palma
De martírio a meu penar
Brilhas como um círio
Iluminando sobre flores
Minhas agras dores
Cor do azul do mar



(Catulo da Paixão Cearense / Irineu de Almeida)

Pudesse esta paixão na dor cristalizar
E os ais do coração em pérolas congelar
De tudo o que sofreu na tela deste amor
Faria ao nome teu divino resplendor
Pudesse est’alma assim com a tua entrelaçar
E aos pés de Deus num surto ao fim voar
E as nossas almas transmutar
Numa só alma de um insonte querubim

Lá, lá nos céus então
Contigo ali
Do amor na pura e etérea floração
Lá, junto a Deus então
Cantar uma canção
De adoração a ti
Lá eu diria aos pés do Redentor
Perante os imortais:
Senhor, eu venero muito a ti
Mas confessor sem temor
Que a ela eu amo mais

Minh’alma ascende além, que Deus já te esqueceu
E a terra não contém afeto igual ao teu
Procuras, mas em vão, na térrea solidão
Ouvir a pulsação do coração do amor
Num raio inspirador, no plaustro do luar
Percorre o céu, o inferno, a terra e o mar
Não acharás, não acharás amor igual
Que o teu amor é imortal



(Catulo da Paixão Cearense / Albertino Pimentel)

Olha estes céus, ó anjo, iluminados
De corações sofrentes e magoados
E o teu candor na tela cérula a brilhar
sob um trasflor de madrepérola
De versos consagrados
Com camafeus, opalas e turquesas
E as ametistas que tu exalas no falar
Com o éter da saudade, eterno marmor do sofrer
Um templo ideal eu vou te erguer

A teus pés terás a hiperdúlia da poesia
Ave-Maria dos meus ais!
Consagração do pranto deste santo coração
Virgíneo escrínio da ilusão

Ó, teus pés florei!
Com os meus extremos
Que são fluidos crisântemos
Deste amor com que te amei
Mandei a minha dor soluçar
Num resplendor de diademar

Do coração de essências lacrimosas
Que eu marchetei de rimas dolorosas
Fiz um missal espiritual que adiamantei
Filigranei com os alvos lírios
Destas lágrimas saudosas
O teu altar num pedestal de mágoas
Eu fiz das águas do Jordão do meu penar
Tens uma grinalda em tua fronte constelei

Versos passionais
Meigas violetas, borboletas
Das idéias, orquídeas dos meus ais
Voai, saudosos, primorosos
Dulçorosos beija-flores
Dos tristores que eu lhe fiz dos amargores
Doces hóstias multicores
E um turíbulo de dores
Cujo incenso é a inspiração
Com amor e pura santidade
Guardo o culto da saudade
No meu coração

Eis o teu templo de aurirais fulgores
Que eu perfumei só com o ideal das flores
Arcanjos de ouro tendo às mãos ebúrneas liras
E a teus pés cantando em coro
Sobre um trono de safiras
Nos pedestais dos róseos alabastros
Verás dois astros: Tasso e Dante a soluçar!
Sobre o teu altar e debruçado em áurea cruz
Meu coração numa explosão de luz



(Catulo da Paixão Cearense / José Kallut)

Não há dor que sangre mais
A devoção do coração
Que o negror da crúcia ingratidão
Como a tua que não tem perdão
Eu te juro sem temor
Que tu não me tens amor
Não me tens amor, bem sei
Eu te juro e jurarei

Tu sorris? Por que razão de mim sorris?
No jardim do coração infeliz
Um buquê das minhas lágrimas fiz
Já te dei as rosas que em minh’alma achei
Se são flores lacrimosas
São as rosas d’alma
Que eu por ti chorei

O beijinho da traição
Eu dei em ti, talvez cruel
Só porque cerraste o coração
Transformou-se em um jasmim de fel
Beijo dado sem amor
É o licor de mais travor
Sem perfume, sem calor
Beijo assim não tem odor

Se tu tens
De me esquecer, por que viver?
Dize, ordena como hei de morrer
Que as vontades tuas hei de fazer
Mas um beijo com prazer
Tu tens de dar
Quero após o beijo dado
Nele sepultado e nunca mais beijar

Fui poeta sem querer
Só para te obedecer
Tu não tens, não tens amor de Deus
Pois sorris dos pobres versos meus
Tem um dia compaixão
Dessa genuflexão
Fui poeta sem querer
Fui e sou e hei de ser!



(Catulo da Paixão Cearense)

Quando tu passa nus mato, meu bem
Cantando pulos caminho
Vai seguindo atrás de ti, meu bem
Um bando di passarinho

Ai, caboca bunita
Mi da um beijinho!

Quando tu inda vem de longe, meu bem
Eu já di longe adivinho
Eu sinto istremecê, meu bem
As corda desse meu pinho

Ai, caboca facera
Mi dá um beijinho!

Quando tu samba nus samba, meu bem
Parece um beija-frozinho
Qui avoa di frô in frô, meu bem
Cumo a percura di um ninho

Ai, caboca dengosa
Mi dá um beijinho!



(Catulo da Paixão Cearense)

Foi um sonho te querer com doido amor
Foi loucura penhorar-te o coração
Dá-me mesmo assim ferido esse penhor
Não te peço nem te imploro gratidão
Guardo dentro deste peito por te amar
Uma dor que sempre e sempre cresce mais
Nem a tua ingratidão me vem matar
Nem a tua ingratidão me abranda os ais

Ai de mim! Ai de mim!
Por que matar-me assim?
Por que matar-me assim?

Este amor, ó este amor, me foi fatal
Nunca mais o meu sossego encontrarei
Tu, travessa, sorridente e jovial
Eu, em busca de minh’alma que te dei
Mas não posso te dizer por que razão
É mais doce o azedume desta dor
Serei teu e teu será meu coração
Não te posso, ó não, negar tão santo amor!



(Catulo da Paixão Cearense)

Vê que amenidade
Que serenidade
Tem a noite em meio
Quando em brando enleio
Vem lenir o seio
De algum trovador!
O luar albente
Que do bardo a mente
No silêncio exalta
Chora tua falta
Rutilante estrela
De eteral candor

Vem meu anjo agora
Recordar nest’hora
Nosso amor fanado
Quando eu a teu lado
Mais que aventurado
Por te amar vivi!
Quero a fronte tua
Ver à luz da lua
Resplendente e bela
Descerra a janela
Que eu não durmo as noites
Só pensando em ti!



(Catulo da Paixão Cearense / Irineu de Almeida)

Tu, tu não queres crer como eu te quero!
Venero o teu amor, que é minha vida
Tudo nesta dor do mundo espero
Sou poeta e sou cantador, ó alma infinda!
Sobre o coração que me consome
A rutilar luz diamante do teu nome
Sei que o meu penar será infindo
Irei cumprindo o que Deus determinar

Hás de chorar a minha desventura
Quando eu repousar na gelidez da sepultura
Hás de lamentar os sofrimentos
Tantos tormentos que sofri
Enquanto vivo aqui por ti

Vai, vai ó meu amor ao campo santo
Verás a minha cruz lá num recanto!
Vai, que lá verás cheias de odores
Numa genuflexão algumas flores
Vai e uma por uma sem ter medo
Colhe essas flores – a meiguice de um segredo
São os versos d’alma que eu não disse
E enfim dizer, dizê-los só, quando eu morrer



(Catulo da Paixão Cearense / Luiz de Souza)

Clélia adeus!
Adeus, minha doce Clélia adeus!
Desce à praia e vem calmar o verde mar
Que em breve irei sulcar além
Clélia, ó vem!
Adeus, vou me separar de ti
Vem. Ó vem meu bem!
Vem ouvir-me aqui

Vou singrar a vastidão do mar
A imensidão do mar, do mar
Vou cantar a minha dor
Sob este céu primaveril
Clélia, adeus!
Que o céu é todo puro anil, gentil
Beija a lua o verde mar
Na areia a se enrolar

Ai, que lancinante é o meu sofrer!
Ai, pensar em nunca mais te ver!
Ó, são horas de partir meus ais!
A vela a desfraldar
Pede um sorrir, um teu olhar
Ó vem, ó minha Clélia, adeus!
Vai meu coração em chaga
De vaga em vaga
À solidão do mar clamar

Clélia adeus!
Adeus, vem dizer-me o eterno adeus!
Desce à praia e vem calmar o verde mar
Que em breve irei sulcar além
Vem, ó vem!
Por Deus, vem me dar um beijo aqui
Vem, ó vem, Clélia meu bem!
Vem meu ouvir aqui



(Catulo da Paixão Cearense)

Eu te respondo mesmo assim cantando
Exacerbando os sonhos meus de então:
Lágrimas frias, creias ou não creias
Tantas chorei-as que fiz um Jordão

Tu me perguntas por que, solitário
Inda mais vário sou que um beija-flor
Ai, quantas vezes cumprindo o fadário
Fui ao calvário do falsário amor!

Quando a primeira confessei que amava
E ela jurava eterno afeto a mim
Senti minh’alma tão feliz, vaidosa
Mais orgulhosa que a de um querubim
Para ofertar-lhe desprendi a rosa
A mais formosa do espiritual jardim

Rosas, camélias, dálias, açucenas
Lírios, verbenas, cravos, resedás
Íris, violetas, manacás, mil flores
Tantos primores dispensei em vão
Jardim não teve nenhuma rainha
Como a que eu tinha no meu coração

Vieste tarde! Nem agora existe
Um golvo triste de funéreo dó
De tantas flores que eram meus carinhos
Só vejo espinhos, folhas secas só

O amor-perfeito que eu tinha em meu peito
Perdeu a vida, emurcheceu por fim
Mas essa flor modou-se, emurchecida
Numa ferida que viceja em mim
Eis minha vida, a minha história é esta
Nada mais resta, fecho o meu jardim



(Catulo da Paixão Cearense / Viriato Figueira da Silva)

Senhor
Tréguas a meus ais!
Mata-me esta dor
De não vê-la mais
Volve piedoso o teu olhar
Para o meu sofrer
Vê que a padecer
Venho te implorar

Senhor, faze adormecer
Meu peito a doer
Tu que és todo amor!
Tem compaixão
Da minha dor
Pára o coração
Faze-o descansar
Basta de ansiar

Pensar que nunca mais verei
O anjo que adorei
Por quem choro e chorei
E em cujo altar me ajoelhava
E em que em extremos cultuava
E que era tudo quanto amava
E que era tudo quanto amei

Pensar
Em não mais me orvalhar
Não me sacramentar
Nos olhos que adorei
Naqueles olhos que eu magoado
Sobre um leito debruçado
Num suspiro prolongado
Com as minhas mãos fechei

Tão só
O que hei de fazer?
Mais do que gemer
Mais do que gemer
Até que de mim tenhas dó
Volvas teu amor
Teu sagrado amor
Sobre mim Senhor

Em prece, ajoelhado
A sua sepultura
Que lágrimas transuda
Já tenho interrogado
A sepultura é muda
Não quer me responder
Meus Deus, que hei de fazer?
Senhor, meu Deus, que hei de fazer?

Contrito, ajoelhado
Em lágrimas desfeito
Já tenho interrogado
A pedra de seu lado
A pedra friamente
Silêncio só transuda
E impiedosamente muda
Nada diz ao infeliz

Às horas fulgurantes
Das noites palpitantes
A lua macilenta
Tristonha e sonolenta
O azul do firmamento
E a própria solidão
Entendem minhas queixas
E esta dor do coração

Só Tu, Senhor, em calma
Não ouves meus gemidos
Gritando por sua alma
Cansados, languescidos
Em pleno cemitério
Revela-me o mistério
E vem agora me dizer:
O que é viver, o que é morrer?

Senhor
Tréguas a meus ais!
Mata-me esta dor
De não vê-la mais
Volve piedoso o teu olhar
Sobre o meu penar
Vê que a soluçar
Venho te implorar



(Catulo da Paixão Cearense / Ernesto Nazareth)

Sestrosa, dengosa
Derriçosa, odorosa flor
Maldosa, formosa
Sertaneja, meu lindo amor!
Anjinho, benzinho
Meu carinho, meu beija-flor
Condena sem pena
Que minh’alma te adora o rigor

Quando tu passas na orla do monte
Caminho da fonte, da tarde ao morrer
Meu pranto rola por sobre a viola
Que a noite consola no seu gemer

Provocante, radiante
Fascinante, ondulante
Num teu fado ritmado
Tu nos fazes até chorar
Logo a gente, a gente sente
Uns desejos dos teus beijos
Uns desejos dos teus beijos
Que até nos fazem delirar

Ingrata, ingrata
Volve a mim um teu doce olhar
Teu riso me mata
Me maltrata, me faz banzar
Desata, desata
Esse olhar do meu coração
Ingrata, ingrata
Suspirosa irerê do sertão

Também se passas
Formosa e tirana
Por minha choupana
Da tarde ao cair
Vou te seguindo
Na estrada arenosa
Qual rola saudosa
A carpir, carpir

Na dança deslizas
E assim pisas mil corações
Teu peito é o leito
Doce leito das tentações
Teus olhos, teus olhos
Vaga-lumes de ingratidões
Teus olhos, teus olhos
Os queixumes das nossas paixões

1 2 3 4 | Principal

Folhinha | Festança | Cancioneiro | Imaginário | Oficina | Palhoça | Colher de Pau | Panacéia | Catavento
Candeeiro | Mural | Expediente
|
Busca | Outras Edições