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A Prosperidade de Salgadinho

Certa vez, em trânsito de Campina Branca para Patos, ao chegar à povoação de Salgadinho, deparou-se Leonardo Mota, no frostispício de uma casa de comércio, com esta inscrição:

A PROSPERIDADE DE SALGADINHO

Filiar de Aggeu Farias & Companhia
Vende-se gazolina e oleo e etc
Bom, bonito e barato
Ver para crer
Emporio da barateza
Agrado e Sinceridade
Toudos àa Fogosa!

(MOTA, Leonardo. Violeiros do norte)

Santidade e hipocrisia

Adido à coluna do general da expedição a Canudos, Euclides da Cunha assistia, horrorizado, a selvageria com que um dos assessores do comandante tratava os jagunços. A sua alma de civilizado confrangia-se ante aqueles espetáculos de barbaria ordenados pelo carrasco.

Uma tarde em que marchavam juntos por uma encosta, pareceu a Euclides ter visto sob a farda do Torquemada o ouro de um crucifixo.

– Que é isto? – indaga, surpreso.

– Jesus! – responde-lhe o oficial.

– Pois, olha – diz-lhe o escritor, revoltado com aquela hipocrisia. E batendo no peito: - Eu tenho aqui dentro um coração!

Licença para furtar

Havia no Rio de Janeiro uma padaria cujo proprietário era freqüentemente condenado a multas pelo juiz Petra de Bittencourt, pelo furto, que fazia ao pouco, no peso e na qualidade do pão. Apadrinhando-se com um fidalgo prestigioso esse comerciante desonesto conseguiu que o ministro assinasse um aviso, ordenando ao magistrado que não mais perseguisse o fabricante do pão pequeno.

Portador do aviso, o comerciante entregou ao juiz Petra, o documento, e esperou a resposta.

– Vá descansado, - declarou o magistrado, ao terminar a leitura do documento. – Vá descansado.

E nos seus modos abridos:

- Vá descansado, e pode furtar à sua vontade, porque o ministro o autorizou; e tolo será o senhor se não furtar dez vezes mais do que até agora tem feito!

(CAMPOS, Humberto. O Brasil anedótico)

Arrependido

- Me arresponda, Jeremia,
Vacê que sabe bastante:
Quem foi Nero?
– Vacê, Dante,
Num cunhece jografia?

Nero foi um reis que, dante,
Exestiu. O tar vivia
Só pra fazê judiaria.
Era pió que protestante!

- Num fale isso! Que azá!
Cumo é (meu Deus!) que eu fui dá,
Pro meu paquêro estimado

O nome desse bandido?!
Chi! Cumo tô rependido!
Que vergonha pro coitado!

*********

Suverteu

- Vim, aqui, dá uma prosa
Co fim de se adistraí
Mais, veno mecê, nhô Rosa
Eu logo se rependi

Que feição mais pavorosa!
O que é que mecê tem? Chi!…
- Num é nada. É um-a nervosa
Que, ar-vêiz, eu garro sinti

- Ara! Largue de reserva!
Adonde tá, que eu num vejo
Vossa muié – nhá Minerva?

Me diga: a povre morreu?
– Morrê, num morreu, nhô Bejo…
Fez pió que isso: Suverteu!

(COSTA, Fontoura. Matutices)

********

 

O animal na fala do povo: Cabra

Mestiço de mulato e negro.
Cangaceiro.
Número 6 no jogo de bicho.
Mulher mau gênio.

Cabra laranja: mestiço alourado.
Cabra-macho: homem valente.
Cabrão: homem que tolera ser enganado pela mulher.
Cabras às direita: sujeito decente.
Cabra de peia: sujeito sem compostura.
Cabra velho: mestiço velho; expressão de cordialidade.
Cabra da peste: homem aventureira; maneira de anunciar o número 6 no jogo de víspora.
Cabra do colhão roxo: homem muito destemido, que enfrenta qualquer situação.
Cabra safado: homem desprezível.
Cabra frouxo: pusilânime.
Cabra que comeu manipueira: bêbado.
Cabra bom: amigo.
Cabra ruim: indivíduo ordinário, perverso.
Acabralhado: mestiço.
Cabra besta: gabola, orgulhoso sem motivo.
Cabra burro: sujeito ignorante.
Cabra escovado: sabido, experiente.
Cabra mofino: covarde.
Cabrocha: mestiço.
Olhos de cabra bêbado: olhos de amoroso.
Rabo de cabra: coisa vulgar; ordinária, sem valor.
Escabriado: desconfiado, surpreendido.
Cabra-da-rede-rasgada: indivíduo capaz de todas as peripécias.
Bêbado como uma cabra: muito embriagado.
Está feito cabra que só caga à prestação: está produzindo pouco e ruim.
Cabra-cega: jogo infantil com diversas crianças, uma delas com os olhos vendados.
Cabrismo: conduta de cabra safado.
Chifre de cabra: coisa ou pessoa da pior espécie.
Oração de cabra preta: reza forte, amuleto.
Metido a rabo de cabra: metido a "coisa".
Mulher cabreira: mulher ordinária.
Cabrinha: jogo popular com dados.
Pé de cabra: instrumento usados pelos arrombadores.
Olho de cabra morta: olhar terno.
Olho de cabra: segundo selo postal emitido no Brasil, em 1845.
Cabroeira: grupo de cabra ruins.
Bebeu leite de cabra: diz-se de quem é forte, disposto, viril.



Cirino tinha a fama de ser o maior pé inchado de Tabuí. Bebia para esquecer que bebia. Mas, como era um bom papo, fazia muitos amigos nas suas noites de bebedeira. Dizem que a dupla Cirino e Aruerinha foi a mais famosa na história boêmia da cidade. Os dois conversavam e bebiam muito, cantavam bem e até arranhavam um violão. Numa tarde de sábado, Cirino, como sabia que teria uma noite longa pela frente, passou no açougue Vaca Profana e comprou dois palmos de lingüiça e enfiou aquilo no bolso. Encontrou o Aruerinha e foram encher a cara. Naquela noite ajudaram a fechar vários botecos e biroscas.

Quando não tinham mais onde ir, resolveram fazer serenata. Cantaram Acorda Amor na casa paroquial, o Hino Nacional na prefeitura, O Ébrio na casa do Pandiá e assim por diante. Chega uma certa hora, dá no Cirino uma vontade louca de verter água.

- Ô Aruerinha, segura aí o meu violão!

E Cirino se encosta num poste sem luz e faz os preparativos para o serviço. Só que, detalhe, o bolso, aquele onde ele tinha colocado a lingüiça, estava furado. E Cirino, no lugar de pegar o dito-cujo, pegou a lingüiça e se aliviou demoradamente. Mesmo tonto, notou que a calça ficara toda molhada. Solução foi chamar o amigo e falar com preocupação:

- Corre aqui, Aruerinha. Tem pobrema. Acho que meu saco tá furado!

Aruerinha colocou com dificuldade os dois violões no chão, acendeu com muito custo um isqueiro e foi examinar o documento de Cirino. Olhou, olhou e deu seu veredito:

- Ó, Cirino! Negoço é que tem uma paia amarrada na ponta dele. Como ocê forçô muito pra uriná, a urina vortô e derramô pelo ladrão. Acho que num tem gravidade. Ele só tá é muito vermeio!...

Ele entra no baile. Bitelo dum salão. Gente muita balançando o esqueleto e esfregando coisa com coisa. Mancebo olha pra cá, olha pra lá... Imbica meio cambaleante rumo duma loirinha toda sirigaita.

- Vamo dançá?

- Vô nada!...

- Vamo, sá!...

- Vô nem vê! Tô ca perna dueno, sô!

Loirinha refugou logo o convite. O moço estava bêbado, com bafo espantante. Era gente de fora e mais feio que filhote de urubu cagado. Chama mais uma dama, mais outra e... nada. Nem a neguinha do cabelo alisado com Alisaton e nem a loura oxigenada com uma pintona no queixo e catinga de cecê.

Depois de várias tentativas encontra uma que mais parecia um barril: baixinha, barrigudinha e cinto apertadinho segurando as banhas. Nem precisa falar que era feia. Medonha. Estava num cantinho do salão, olhando pra cá e pra lá, aguardando um corajoso. O nosso herói vendo-a assim, toda largada, diz pra si mesmo: "é com ela que eu vô". Menina atende rapidinho ao piscado do feioso e saem os dois rodopiando pelo salão. Cai aqui, cai ali, equilibra de cá, equilibra de lá, até que se ajeitam e entram num acordo dançante. E o feioso pensando: "tô feito!... É feia, mas dá uma boa meia sola... Depois dum fim de noite cumigo ela pode até ficá apaixonada..."

Aí a feiosa dama, para azar seu, resolve arrumar assunto.

- Ocê num é daqui, num é memo?

O mau hálito represado que saiu da boca da feia foi tanto que deixou o bêbado meio desorientado, já que era só acostumado com o bafo da canjebrina. E sem entender de onde vinha tanta fedentina, abaixou-se e cochichou no ouvido da sua paixão baixinha:

- Arguém peidaro!...

- Mas num fui'eu!

Respondeu precipitada a gordinha meio desorientada.

- Ih!!! Sujô!... Peidaro de novo!...

(Eurico de Andrade é autor do livro Nós Sofre Mais Goza - Causos de Minas, e colabora com a Jangada Brasil)

• Sapo tem olho grande, por isso vive na lama
• Alegria de porre dura pouco
• Não existe mulher feia. Você é que bebe pouco
• Ser motorista é fácil. Difícil é ser responsável
• Se fio de cabelo fosse dólar, pobre nascia careca
• Não deixe que a pressa o atrase
• Nunca é demais um acidente a menos
• Difícil é passar manteiga no pão de açúcar
• Não temo cavalo na pista, mas burro ao volante
• Scania é como sutiã. Para dirigir um é preciso ter peito

• As boas ações enriquecem a alma
• Bom pagador herda o alheio
• De bago em bago, macaco enche o papo
• Em terra onde não há carne, urubu é frango
• Juiz piedoso faz o povo cruel
• Má chaga sara, má fama mata
• Lugar de pesado é o chão
• Não se usa remendo velho em roupa nova
• O melhor da festa é esperar por ela
• Os homens sobem por ambição, e por ela vão ao chão

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