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OS CONTOS DE KIBUNGO 
O Kibungo e o homem
(versão de Nina Rodrigues)
ibungo é um bicho
meio homem, meio animal, tendo uma cabeça muito grande e também um grande buraco no meio
das costas, que se abre, quando ele abaixa a cabeça, e fecha, quando levanta. Come os
meninos, abaixando a cabeça, abrindo o buraco e jogando dentro as crianças.
Foi um dia, um homem que tinha três filhos, saiu de casa para o trabalho, deixando os
três filhos e a mulher. Então apareceu o kibungo que, chegando na porta,
perguntou, cantando:
De que é esta casa,
auê
como gérê, como gérê,
como érá?
A mulher respondeu:
A casa é de meu marido,
auê
como gérê, como gérê,
com érá.
Fez a mesma pergunta em relação aos filhos e ela respondeu que eram dela. Ele então
disse:
Então, quero comê-los
auê
como gérê, como gérê,
como érá?
Ela respondeu:
Pode comê-los, embora,
auê
como gérê, como gérê,
como érá.
E ele comeu todos os três, jogando-os no buraco das costas.
Depois, perguntou de quem era a mulher, e a mulher respondeu que era de seu marido. O kibungo
resolveu-se comê-la também, mas quando ia jogá-la no buraco, entrou o marido armado de
uma espingarda de que o kibungo tem muito medo. Aterrado, kibungo corre para
o centro da casa para sair pela porta do fundo, mas não achando, porque as casas dos
negros só tem uma porta, cantou:
Arrenego desta casa,
auê
Que tem uma porta só,
auê
Como gérê, como gérê,
como érá.
O homem entrou, atirou no kibungo, matou-o e tirou os filhos pelo buraco das
costas. Entrou por uma porta, saiu por um canivete, el-rei meu senhor, que me conte sete.
O kibungo e a cachorra
(versão de Nina Rodrigues)
oi um dia uma cachorra
cujos filhos, todas as vezes que ela paria, eram comidos pelo kibungo.
Então, para poder livrar os novos filhos do kibungo que queria comê-los, meteu-os
num buraco e ficou sentada em cima, vestida com uma saia e um colar no pescoço. Chegando
o kibungo e vendo a cachorra assim vestida, a desconheceu e teve medo de
aproximar-se. Então, passando o cágado, ele perguntou-lhe:
Otavi, ôtavi, longôzôê
ilá ponô êfan
i vê pondêrêmun
hôtô rômen i cós
ssenta ni ananá ogan
nê sô arôrô ale nuxá.
O Cágado resondeu: "Não sei, kibungo".
Passou a raposa. Kibungo fez a mesma pergunta cantando, e a raposa respondeu que
não sabia. Passou, então, o coelho e o kibungo fez-lhe a mesma pergunta; foi
quando este disse:
- Ora, kibungo, você não conhece a cachorra vestida de saia e colar no pescoço?
Aí, o kibungo correu atrás da cachorra para matá-la, e esta atrás do coelho.
Nesta carreira entraram pela cidade. Os homens mataram o kibungo e a cachorra matou
o coelho. Entrou por uma porta saiu pela outra, rei meu senhor, que me conte outra.
O kibungo e o filho Janjão
ra uma vez um kibungo
que casou com uma negra, da qual teve uma porção de filhos. Mas ele comia todos os
filhos. O último, que nasceu, a mulher escondeu num buraco, para que o kibungo
não o comesse. Tinha o nome de Janjão, e a mãe recomendou muito a ele que, quando o pai
chegasse do mato e chamasse por ele, falando em voz muito grossa, ele não saisse do
buraco. Que ela quando o chamava para lhe dar comidas, sempre falava com a sua voz fina de
mulher, que ele conhecia. Ora, um dia, em que o kibungo não achou bicho nenhum
para comer no mato, nem menino para papar na cidade, onde também, às vezes, andava de
noite, voltou muito fraco para casa, onde não havia outra carne senão a do filho, que
estava escondido. Então, falando com voz fina, pela fraqueza, cantou:
Toma lá curiá, meu filho!
Toma lá curiá, meu filho!
Janjão, pensando que era a mãe, que voltava da cidade e lhe trazia a comida de que ele
tanto gostava, saiu do buraco e o kibungo o agarrou, para comê-lo.
O pobrezinho do Janjão, chorando, cantava:
Minha mãe sempre me dizia
Que o kibungo me comeria
Minha mãe sempre me dizia
Que o kibungo me comeria..
E o kibungo comeu o último filho e a mulher morreu de desgosto. E por isso é que
o kibungo não tem mais mulher nem filhos.
A aranha caranguejeira e o
quibungo
(J. da Silva Campos)
aranha caranguejeira
tinha que atravessar um rio muito largo, a fim de alcançar uma árvore carregada de
frutos doces e maduros. Para isso, a aranha procurou o auxílio de vários animais, o
urubu, o jacaré, enganando-os depois. Por fim, encontrou o quibungo, "macacão todo
peludo, que come crianças", que pegava os peixes no rio, e atirava-os para trás das
costas. A aranha chegou devagarinho e comeu os peixes um a um. Quando o quibungo procurou
os peixes e não os encontrou, pegou uma discussão danada com a aranha.
Afinal saíram andando e a aranha conseguiu enganar o quibungo, amarrando-o num toco de
árvore com cipó grosso. O quibungo ficou ali preso uma porção de tempo e quando
conseguiu se soltar, jurou vingar-se da aranha. Escondeu-se próximo do bebedouro aonde
todos os bichos iam beber água, à espera da aranha. Mas esta meteu-se num couro de
veado, foi à fonte, bebeu água sem ser reconhecida pelo quibungo .
O quibungo e o menino do saco das
penas
(J. da Silva Campos)
m menino começou a juntar penas de vários animais, que ia
guardando num saco. Um dia, a família toda foi pescar num lugar onde diziam haver
quibungo. De fato, ao começarem a pescaria ouviram um ronco enorme dentro do mato.
"É o quibungo!"- gritaram. Mas o menino não se importou. Distribuiu todos em
fila, entregando a cada um uma pena da asa e outra do rabo de passarinho. Quando o
quibungo chegou, que estendeu a mão para o primeiro da fila, o menino cantou:
- Esse é meu pai,
Auê
Gangaruê, tu cai,
Não cai.
O quibungo deu um urro exê! encolheu a mão e procurou agarrar o segundo da
fila. O menino cantou:
Essa é a minha mãe,
Auê
Gangaruê, tu cai,
Não cai.
E assim por diante, sem que o quibungo pudesse alcançar ninguém. Quando chegou junto do
menino, este prendeu as penas de modo que todos criaram asas e saíram voando até a casa.
Lá fizeram um grande buraco e ficaram à espera do quibungo. Quando este chegou, caiu
dentro do buraco e lá o mataram.
A menina e o quibungo
(J. da Silva Campos)
ma menina gostava muito
de sair de noite. A mãe ralhava com ela, chamando-lhe a atenção para o quibungo que
pega os meninos de noite. A menina não se importou e uma noite, o quibungo agarrou-a e ia
levando-a para comer. A menina começou a cantar:
Minha mãezinha
Quibungo tererê,
Do meu coração
Quibungo tererê
Acudi-me depressa,
Quibungo tererê,
Quibungo quer me comer
Ao que a mãe da menina respondeu:
Eu bem te dizia
Quibungo tererê
Que não andasse de noite
Quibungo tererê
A menina continuou gritando, mas ninguém quis acudi-la. Mas a avó preparou um tacho com
água fervente e quando o quibungo ia passando, sacudiu-lhe a água em cima. O quibungo
deu um pulo e a velha acabou matando-o com um espeto em brasa, e salvando a neta.
(Ramos, Arthur. O folclore
negro do Brasil.) |
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