O termo burica vem da
infância, foi assim que conheci e conheço até hoje as tais bolinhas de gude.
Pra falar a verdade, no popular do dia a dia era burca, uma abreviação rápida.
Era comum os amigos chegarem em casa e convidarem para jogar burca. Lembro-me das
modalidades:
Jogar lóca: se faz um buraco pequeno no chão, toma-se
distância de mais ou menos 3 metros, escolhe meia dúzia de buricas cada jogador,
preferencialmente diferentes umas das outras. A partir disso, atira-se as buricas em
direção ao buraco, o objetivo é enlocar. Começa quem conseguiu ficar mais
próximo do buraco, cada vez que isto acontece (acertar o buraco), o dono da burica tem
direito a retirar uma peça de cada jogador e torna-se o proprietário dela. Por isso que
se dizia, "vamos jogar a ganhe [valendo] ou a brinques [não
valendo]?" Quando os jogadores não eram tão bons em acertar a lóca,
fazia-se um buraco maior e aí era comum alguém da roda dizer: - nossa, você fez um cu
de boi... desse jeito qualquer um acerta.
Jogar triângulo: desenha-se um triângulo no chão e cada jogador
põe 3 buricas dentro do desenho, pode ser nos vértices ou dentro do espaço das 3
linhas. Tomada a distância novamente, atira-se as buricas em direção ao triângulo. Se
acertar uma burica de um adversário e tirar ela para fora do triângulo, ela passa a ser
sua. Na jogada, a sua burica tem que bater na outra e sair junto do espaço do desenho,
senão perde a vez.
Esse jogo tinha ainda outras curiosidades quanto ao nome das diferentes buricas, vamos
lá:
Batatão: era a burica em tamanho maior que as outras,
geralmente utilizada como apelo para retirar mais peças do jogo de triângulo ou para
afastar o inimigo que se aproximava da lóca. Tinha que ser combinado antes se poderia ser
usado ou não.
Pioim : ao contrário do batatão, era uma burica menor
que as demais. Também usada para defesas estratégicas durante o jogo, como proteção do
ataque do batatão.
São-paulina : tamanho menor que o padrão, colorida em
vermelho, branco e preto, era a figurinha carimbada dos jogos de burica. Ter uma
dessas no bornal era distinguir-se entre os demais. "Voce viu a sãopaulina do fulano
?"... é demais.
Burica sortera: uma espécie de talismã que todos possuíam,
utilizada sempre que o jogador estava na pior e perdendo muito no jogo. Apelava-se para a
sortera (derivado de sorte/azar) e, em caso de peder-se o jogo, a consolação era não
tirar do adversário a tal burica.
Olho-de-cabra: as buricas mais comuns eram verdes e
transparentes. Na coleção, o importante era ter peças mais diferentes do que o comum.
De vez em quando, no bazar chegava uma ou outra olho-de-cabra. Era da mesma linha das
verdes mas vinham com uma lista branca dentro, e de longe, olhando-se bem, parecia um olho
de cabra. Só meninos do interior sabem fazer esta comparação.
Copo-de-leite: era opaca, na cor branca puxando um pouco para o
esverdeado. Eram raras também e consideradas mais fortes que as demais. Digo
forte porque numa jogada bem feita, um bom jogador era capaz de estilhaçar a burica do
adversário tamanha a força que punha nos dedos para dar impulso. Daí surgir mais uma
regra que era combinada antes do jogo: - vai ter troques ou nada troques. No
momento em que se sentia ameaçado em ter uma das suas preferidas rachada ao meio, o
jogador grita: Troques! Substitui-se por uma comum e o jogo
segue.
Outra regra bem interessante deste jogo: - vai ter corras ou nada corras. O corras
corresponde a dois passos largos dados em direção desejada que o favoreça no momento de
fazer a jogada. É como num jogo de sinuca, que aliás o de buricas lembra muito em todos
os aspectos. Se você se via sinucado podia pedir corras e achar uma posição mais
confortável para a jogada.
No jogo da lóca, o objetivo era
acertar o buraco e, para isso, você podia atacar as bolinhas dos adversários. Mas a
regra dizia que você deveria acertar a que mais próxima estivesse do tal buraco e o palmo
de mão era a medida utilizada.
As brigas eram constantes, cada garoto tinha um tamanho de mão e lá vem discussão sobre
quem vai levar a chumbada que poderia significar a perda de mais uma burca. Quando a coisa
não chegava a um final comum usávamos como medidor a haste de um capim muito comum no
interior, o margoso, que chega a medir 40 centímetros de comprimento.
JOGOS DE
BURICA, uma tradição interiorana que mantinha os garotos nos quintais/terreiros das
casas, bem perto das vistas de suas mães.
(Ivan Evangelista Júnior, em colaboração com a Jangada Brasil) |