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VELHOS SOBRADOS ADORMECIDOS Gosto imensamente destes velhos sobradões adormecidos que me olham do alto, pelas órbitas escancaradas de tanta varanda deserta, nas velhas ruas destes cantos do sul da Bahia. Sobrados de Valença, de Nilo Peçanha, de Taperoá, do Cairu, com as suas janelas de guilhotina, paredes de meio metro de espessura, argamassa de óleo de baleia, e oito e dez salões que eram os quartos do tempo antigo, dormindo um grande sono, do qual mal os desperta uma voz de criança vindo de suas profundezas, um canto de mulher entregue à labuta diária. Lembro outros, do Ceará e do Salvador, dominando pedaços de rua com a sua gorda corpulência, como o famoso sobrado da relação, da rua Major Facundo, em Fortaleza, construído por meu bisavô, o primeiro doutor José Lourenço de Castro e Silva, e cuja imponente fachada, coberta de azulejos amarelos, de alto a baixo, impressionava sempre os meus reparos de menino, às evocações dos grandes dias do passado, quando a cidade do Forte era um simples arraial de casinhas de telha vã e ruas de areia branca. Toda vez que o via, recordava as histórias que minha tia Amélia, perto dos noventa anos, contava com tanto gosto, principalmente a de certas novenas de maio a que ela e as irmãs haviam comparecido, cada um dos trinta e um dias com um vestido de seda novo, o que era para mim qualquer coisa dum requinte de corte européia. Lembro o imenso casarão dos Pachecos, na rua do Comércio, no Aracati, onde morei dois anos, quando andei de feitor na Inspetoria de Obras contra as Secas, aí por volta de 1920, penando as primeiras penas de amor e cavando fundo as primeiras sementes de sonhos fracassados. Como também me voltam à memória todas aquelas babilônias das queridas ruas da Bahia, onde se alojavam de preferência as "repúblicas" de estudantes do meu tempo, do Pelourinho ao Jogo do Lourenço, de certa fase da vida baiana, cuja crônica está ainda por escrever e celebrar. São, pois, de há muito, meus conhecidos, de antigas afeições, estes solenes sobrados que dão à paisagem sertaneja da Bahia uma de suas marcas mais características. Um dos mais belos, talvez mesmo o mais belo, que me aparece por aqui, velha construção erguida para desafiar o tempo, como uma fortaleza, é o do conselheiro Cunha, a meio quilômetro de Valença, na estrada de Cajaíba. No topo de uma pequena elevação, dominando todo o vale do rio Una, como um solar inglês, tem ainda hoje a grandeza que a arquitetura moderna nem de longe arremeda. Cinco janelões de perto de dois metros de largo abrindo ao correr de cada pavimento, em face do sol, a fachada dum leve azul, o beiral de peito de andorinha, um truculento flamboyant pondo-lhe em frente uma fogueira de flores de sangue, a contrastar com a serenidade geral, lianas bravas enredando-se às belas grades do terraço, e a última de suas estátuas de louça branca do Porto, uma Palas Atenéia ou uma Europa, de longe não se sabe, resplendendo em meio à fúria da vegetação, com uma pureza de imagem de santa que faz muito roceiro que passa na estrada tirar o chapéu, ao defrontá-la, é dessas casas que valem por uma crônica de fartura, dignidade e ciência da vida. O enorme salão da frente, de paredes nuas e deserto de móveis, recorda claramente o que seria, com os seus consoles de talhe sutil, as suas cadeiras de alto espaldar, as suas marquesas de volutuoso recorte, em jacarandá do mais negro ao cor de rosa, os seus graves retratos de avós pendendo dos muros, o grande lustre de Baccarat ao meio da sala, enquanto pelo resto do casarão se rasgam as altas portas dos quartos da família, a colossal sala de jantar no andar térreo, com a mesa que podia ter à roda duas dúzias de comensais o que era comum o pomar ao fundo, com laranjas das mais saborosas, os abios, as jacas do peso de arroba, o cajueiral, a plantação de cana e arroz da baixada e tudo florindo, tudo oferecendo a fartura da terra e a glória dos tempos idos para sempre. Quantos mais, também, do mesmo porte, embora nenhum o iguale em imponência e jeito de domínio, pelas ruas de Valença. O do canto da praça Nova, por exemplo, onde nasceu há mais de um século o áspero Zacarias de Góis e Vasconcelos, velho sobrado amigo, pegado à casa da minha gente, onde floriu, há quatro lustros, o capítulo mais doce da minha vida. O sobradão da Prefeitura, comprado em 1878, ao comendador Bernardino de Sena Madureira, pela soma então respeitável de quarenta contos. O curioso grupo de arranha-céus de três andares, da praça Quinze, todos unidos num bloco da mesma linha, gigantescos caixões de paredes lisas, com os recortes das janelas em nível igual e qualquer coisa de parentesco no conjunto a que eu gosto de chamar a Broadway valenciana, e um dos quais foi vendido, há um quarto de século, com todas as serventias, pela cifra de novecentos mil réis. Vasto campo de delapidação foi este, dos graves casarões do passado, para os espertalhões da capital que vinham buscar a troco de nada peças tão lindas de jacarandá, jarrões de Sèvres e louça de Macau, lampadários de cristal e litografias raras e os santos portugueses, as estupendas imagens de madeira policromada que não se acha hoje nem a peso de ouro, tanta coisa que se dava com satisfação por ser mesmo antiqualha e estorvo. Sabe-se de camas de jacarandá trocadas por camas-patentes muito mais cômodas! Consoles de "pés de bicho", vendidos a cinco e dez mil réis, velhas imagens que saiam das igrejas para reencarnar e nunca mais voltavam, deixando o altar deserto de padroeiro. O que se foi, todavia, em riqueza artística, de dentro das casas, viça hoje de novo, em potencial, nas terras de volta da cidade, onde se enumera facilmente, dentre a mata, à espera de quem venha fazer outra vez o que a cidade já foi, tanta madeira de lei, tudo isso sem levar em conta que a zona dá coqueirais de léguas e há quem seja chamado Rei de piassava, colhendo por ano um milhão de cruzeiros da palma humilde que não servia até há puco senão para vassouras, antes de lhe descobrirem vistudes de guerra. E há, o que alegra o forasteiro, a sua fartura de comida das águas do rio e do mar, que é a mesma dos tempos de Zacarias, do seu general Galvão de Queiroz, pacificador do Rio Grande, do seu barão de Uruguaiana: há o camarão que, seco em espeto e vendido em "mãos", é dum sabor específico; siris e caranguejos, que é só meter a mão na lama dos mangues e pôr na panela, para as frigideiras que feitas iguais só é possível no céu; lagostas do morro de São Paulo, de carne que nem de anjinho, para antropófago, e mais polvo e tudo quanto é peixe do bom e do melhor para moqueca e vatapá. E, como tenho dito e redito, as laranjas dum paladar sem segundo, o azeite de dendê que é ver ouro líquido. E, mais, o que é tão doce e tão sem preço e tão baiano, o jeito da gente, a mansidão do povo, a cortesia, o modo de agradar de todos. (LIMA, Herman. Roteiro da Bahia) |
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