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| Página 1 | 2 | 3 | Sumário | Festança | Cancioneiro | Imaginário | Oficina | Palhoça | Colher de Pau | Panacéia | Catavento |
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| Quando o exército romano
invadiu a Península Ibérica, no séc. III AC, trouxe para os povos primitivos que ali
habitavam, além de sua civilização, sua cultura, seus costumes, principalmente a sua
língua. Era o latim que, veículo de uma cultura superior, bem depressa se impôs aos
outros idiomas regionais como língua oficial. O mesmo se deu em todo o vasto império
Romano, Só que a língua latina, falada por povos de costumes e índoles tão diferentes,
modificou-se de acordo com os hábitos fonéticos de cada região. Daí surgiram as
diversas línguas latinas e, dentre elas, o português. Deve-se, pois, dizer que o latim
não morreu, mas continuou a viver em cada uma das línguas novilatinas: português,
francês, italiano, espanhol, romeno e outras mais. O latim, a par de ser a base fundamental do português, forneceu ainda inúmeros adágios, expressões, modismos, que o povo, gente humilde ou erudita, vai repetindo, inconsciente ou conscientemente, pelos tempos em fora. Spalding (1955) dá como causa da permanência dessas frases latinas no meio popular, não só a base latina do português, como também a presença, entre a gente inculta, dos antigos almanaques que o povo lia ou ouvia ler nos serões familiares. Esses anuários, à força de serem lidos ou ouvidos, iam popularizando frases e provérbios ainda não conhecidos. Vejam-se alguns deles, tais quais são hoje conhecidos e como já eram usados na antiga civilização romana: Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. (Abundans cautela non nocet = Demasiada cautela não prejudica). Amor com amor se paga. (Amor amore compensatur = Amor se compensa com amor). Barriga cheia, cara alegre. (Cum satur est venter, cantat quicumque libenter = Quando o estômago está cheio, qualquer um canta com prazer). A cavalo dado não se olham os dentes. (Equi donati dentes non inspiciuntur = Não se examinam os dentes de um cavalo dado). Na terra de cegos, quem tem um olho é rei. (Inter caecos regrnat strabo = O vesgo reina entre os cegos). Muito riso é sinal de pouco siso. (Risus abundat in ore stultorum = O riso é abundante na boca dos tolos). Elogio em boca própria é vitupério. (Laus in ore proprio vilescit = O elogio na própria boca perde o valor). Mas o povo recebeu o latim não apenas através de sua própria língua portuguesa. Entrou diretamente em contato com ele pela igreja, nos ofícios litúrgicos da religião católica. E, como nota curiosa, ficaram as deformações sofridas pelas palavras latinas, na boca do povo, origem do folc-latinismo. Entretanto, com a reforma litúrgica, introduzindo o vernáculo naqueles rituais e afastando o latim que, até então, pontificava soberano, se, de um lado, trouxe maior compreensão dos textos e participação direta dos fiéis, de outro lado, retirou o tom de solenidade e o ar de mistério com que eram envolvidos pela língua latina. Puro engano julgar-se que o povo, por não entender o latim, se distraía durante as orações e leituras. Muito pelo contrário, a língua diferente funcionava como elemento centralizador das atenções, principalmente porque, em meio àquela algaravia, sobrava sempre alguma palavra que era puro português, e o povo a entendia com perfeição - O próprio Camões já havia chamado a atenção para a semelhança entre as duas línguas: "...
língua, na qual, quando imagina, Cessado o uso do latim do ritual eclesiástico, desapareceu. por certo, a maior fonte
geradora de folc-latinismos Para a inventiva popular. |
Para se avaliar a
disseminação, no território nacional, desse latinório arrevesado, basta dizer-se que,
no extremo norte do país, várias dessas frases já foram citadas pelo padre Júlio Maria
de Lombaerde, em artigo publicado no Correio de Macapá, em 30 de agosto de 1916,
sob o título "O capitão Pausecco", original figura local que, naquela região,
puxava a ladainha na hora da reza. Na bênção do Santíssimo Sacramento, o Tantum ergo é um hino litúrgico muito cantado pelo povo e que dá margem a notáveis adaptações populares. Bastos (1980) apresenta um trecho cantado em Viçosa (MG) por gente simples: - Tanto nego, tanta gente (Tantum ergo Sacramentum = Este grande sacramento) Lava o pé da Rita aí. (Veneremur cernui = Humildemente adoremos) Toma dela o documento (Et antíquum documentum = Da antiga lei as figuras) Toma dela e joga aí. (Novo cedat ritui = Cedam ao novo mistério) Na mesma cerimônia, assim respondem ao versículo
do vigário: Nas procissões da Semana
Santa, o povo traduz gaiatamente a sigla SPQR (Senatus populusque Romanus = O
senado e o povo romano), estampada nos estandartes dos legionários romanos: São Pedro
Quer Rapadura. Silva (1918) dá outras versoes da interpretação popular: Sal, pão,
queijo, rapadura; São Pedro quer roscas; Seu Padre quer rapé. Bastos, W. L. O Rio e o homem e mais outras crônicas. Juiz de Fora, Ed. Paraibuna, 1980 Camões, Luís de. Os Lusíadas. Porto (Portugal), Porto Editora Cascudo, Luís da Câmara. Literatura oral; História da literatura brasileira, v.6. Rio de Janeiro, José Olympio, 1952 Coutinho, I. L. Gramática histórica. 7ª ed. Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico, 1976 Lodeiro, J. Pequeno dicionário de frases latinas. Porto Alegre, Tabajara, 1946 Silva, A. V. R. Phrases e curiosidades latinas. Rio de Janeiro, Tip. Baptista de Souza, 1918 Spalding, Valter. Tradições e superstições do Brasil Sul. Rio de Janeiro, Simões, 1955 |
(Weltzel, Antônio
Henrique. Em Boletim da Comissão Mineira de Folclore. p.28-32) |
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