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Ano I - novembro 1998 - nº 03

Sua revista com a cara e a alma brasileira


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SUMÁRIO - EDIÇÃO 03
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO

A visita da comadre morte. O estranho acordo feito por um fazendeiro com a morte.

Conheça também o lobisomem e sua variação feminina, a cumacanga.

A missa dos mortos. No meio da noite, ele ouviu barulho na igreja e levantou-se para olhar, então...

OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

IMAGINÁRIO - Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

A VISITA DA COMADRE MORTE

Alfred Russell Wallace

Ilustração de Marcos JardimUm homem e sua mulher estavam a conversar, lamentando com profundo desgosto, senão com terror, a fatalidade da morte.

– Se eu pudesse arranjar um meio de fazer-me amigo da Morte, - dizia o marido, - talvez assim eu não tivesse tanto temor dela.

– Isso você consegue facilmente, - replicou-lhe a mulher. – Basta, para tanto, que você a convide para madrinha de nosso filho, que deve ser batizado na próxima semana. Nessa ocasião, você poderá falar-lhe a respeito desse assunto, e, certamente, ela não se recusará a prestar-lhe um pequeno favor, qualquer que seja.

De acordo com esse alvitre, a Morte foi convidada e veio.

Após a cerimônia e acabada a festa, já se ia ela retirando, quando o homem se lhe aproximou, e assim lhe disse:

- Comadre Morte, como há muita gente no mundo para você levar embora, eu espero e desejo que você nunca venha buscar-me, chegada que seja a minha vez de pagar o seu tributo.

– É muito certo, compadre, o que você acaba de dizer, - replicou-lhe a Morte; - mas a isso que você me está pedindo, eu, entretanto, decididamente, não posso atender. De Deus eu sou mandada para o mister que exerço, e quando recebo ordens para vir cá buscar alguém, não tenho remédio senão obedecer. Em todo caso, farei por você tudo que estiver ao meu alcance; e em qualquer circunstância, eu me comprometo, desde já, a dar-lhe um aviso, com oito dias de antecedência, a fim de que você assim disponha de algum tempo para se preparar.

Vários anos se passaram, até que chegou, por fim, a vez de vir fazer-lhe a Morte a visita fatal.

– Boa noite, compadre! – disse ela, assim que foi chegando. – Aqui venho hoje para um negócio bem desagradável. Já recebi ordem para vir buscá-lo daqui a oito dias; mas, conforme eu antes lhe havia prometido, hoje aqui venho somente para lhe fazer este aviso.

– Ah, comadre! – exclamou o homem, - você voltou muito depressa! Agora, justamente, que eu vou indo tão bem em meus negócios, acho isto muito inconveniente. Se você consentisse em deixar-me em paz, por aqui mesmo, dentro de poucos anos eu ficaria um homem bastante rico. Seja mais complacente para comigo, comadre! Em meu lugar, você poderá levar qualquer outro homem. Estou certo de que, sem nenhuma dificuldade, você, por essa forma, ainda poderá dar-me um arranjo.

– Sinto deveras, - replicou-lhe a Morte; - mas, agora, já não é possível, de jeito algum, em virtude de já ter recebido a ordem e ter que cumpri-la. De resto, uma vez assim decretado, ninguém escapa de pagar este tributo, e poucos são os que obtém um aviso com prazo tão longo, como o que eu acabo de conceder a você. Vou tentar, contudo, o que ainda for possível fazer em seu favor, e, mesmo no caso de ser bem sucedida em tal propósito, você só me verá daqui a oito dias. Desde já, porém, posso assegurar-lhe que nenhuma esperança tenho de conseguir bom resultado. Até a volta!

Chegou finalmente o dia aprazado.

O homem, coitado, andava em grande sobressalto, contando certo que, daquela vez, não escaparia.

A sua mulher, no entanto, lembrou-se de um estratagema, que decidiram logo pôr em prática.

Havia na casa um negro velho, o qual era o encarregado dos serviços de cozinha.

Fizeram com que o negro vestisse as roupas do seu senhor e mandaram-no, em seguida, para fora.

Por sua vez, o seu dono, tingindo o rosto de preto, fez-se tão parecido, quanto possível, com o velho escravo.

Na noite fatal, conforme havia prometido, a Morte voltou.

– Ah, comadre! – respondeu-lhe a mulher. – Meu marido não estava mais contando com o seu regresso, hoje, e, em vista disso, foi à cidade tratar de negócios… Decerto, agora, só muito tarde da noite é que voltará para casa.

– Assaz embaraçosa é a situação em que agora me encontro,- disse a Morte, - pois nunca supus que meu compadre viesse um dia a proceder assim comigo… Que descortesia! Deixar-me neste embaraço! Terei que levar comigo outra pessoa. Quem é que está lá nos fundos da casa?

Ante esta pergunta, a mulher mais se alarmou, pois ela supunha, até então, que a Morte logo dali partisse, em direção à cidade, à procura de seu marido.

Dominando porém a emoção, e considerando que seria melhor mostrar-se calma, respondeu, então, muito amavelmente:

- Aqui em casa, encontra-se somente um negro velho, que está lá na cozinha, acabando de preparar o jantar. – Sente-se, comadre! Descanse um bocado. – Talvez, assim, dê tempo de meu marido voltar. Estou muito contrariada pelo incômodo que ele lhe está causando.

– Não, eu não posso demorar-me; não tenho tempo a perder!- retrucou-lhe a Morte. – Tenho ainda que fazer hoje uma grande caminhada. Levarei comigo outra qualquer pessoa. Nesse casso… Deixe-me ver… Quem sabe? Poderá ir o negro velho!

E encaminhando-se pela casa a dentro, em direção à cozinha, lá encontrou aquele homem a fingir que se achava atentamente entregue aos cuidados do fogão.

– Pois bem, já que o compadre não vem, como eu estou presumindo, em seu lugar vai este negro velho, - disse a Morte.

E, antes que a mulher pudesse proferir qualquer palavra, estendeu o braço, e seu marido, caindo logo ao chão, no mesmo instante já era cadáver.
 

O autor
Alfred Russell Wallace. Viagens pelo Amazonas e rio Negro, 499 (A narrative of travels on the Amazon and rio Negro) tradução de Orlando Torres, prefácio de Basílio de Magalhães, Série Brasiliana, v. 156, São Paulo, 1939. Wallace ouviu-a na barra do rio Tocantins, em junho de 1852. É uma das estórias típicas do ciclo da morte, a implacável visita sempre vitoriosa. Gustavo Barroso recolheu no Ceará uma variante (Ao som da viola, 708, Rio de Janeiro, 1921), onde um homem liberta a Morte que caíra numa armadilha e, em recompensa, viveu cento e vinte anos, rijos e sadios. Disfarçou-se, para não ser reconhecido por ela, rapando barbas e bigodes, pondo-se a dançar animadamente. A morte, fiel ao encontro, para não perder a viagem, levou para o outro mundo o pelado dansador.

Há uma variante argentina curiosa por tratar-se da espécie moral aplicada aos animais. A raposa, zorro, o popular don Juan, é avisado pela Morte que a próxima visita será para ele. "Mas este, pretendiendo burlala, pedió a sus allegados que lo pelaran totalmente para evitar ser reconocido. Vino la Muerte, y no hallando al zorro en su pelambre verdadera se llevó al zorro pelado aunque creyendo que era otro animal." Orestes di Lullo, El folklore de Santiago del Estero, 250. Tucumán, Argentina, 1943.


(Em Cascudo, Luís da Câmara. Literatura oral no Brasil. 3ª ed. Belo Horizonte, Editora Itatiaia / São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1984. Reconquista do Brasil (nova série), v.84)

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