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Ano I - novembro 1998 - nº 03

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 03
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA

Conheça também uma descrição da típica casa brasileira de meados do século XIX, pelos reverendos Kidder e Fletcher.

O francês Jean Baptiste Debret descreve o cerimonial da extrema-unção e os diversos tipos de esquifes, no Rio de Janeiro da primeira metade do século passado.

Às portas da morte. Costumes da Bahia antiga.

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


A CASA BRASILEIRA NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX

Kidder e Fletcher


Ilustração in KIDDER, D. P.; FLETCHER, J. C. O Brasil e os brasileiros; esboço histórico e descritivoA casa da cidade não é um lugar atraente: as cocheiras e as cavalariças ficam no primeiro andar, enquanto que a sala de visitas, as alcovas e a cozinha ficam no segundo. Não é raro existir uma pequena área ou pátio ocupando o espaço entre a cocheira e a cavalariça, e esse espaço separa, no segundo andar, a cozinha da sala de jantar.

A gravura junto representa uma das mais velhas residências de cidade no Rio, o acesso à escada se dá por uma grande porta pela qual a carruagem entra barulhentamente, nos dias de festa e dias santos. À noite é fechada com grades de ferro, das dimensões das que são usadas nas prisões. Todos os seus ferrolhos, trancas, fechaduras, ou outro qualquer gênero de ferragem, parecem ter sido trazidos da seção pompeana do museu Bourbônico de Nápoles. As paredes, compostas de blocos de pedras, cimentados por argamassa comum, são tão espessas como as de uma fortaleza.

Durante o dia, entra-se pela grande porta e para-se no começo da escada; nenhuma aldraba ou sineta anuncia a presença do visitante. É preciso que a gente bata com as mãos juntas, rapidamente e, a não ser quando a família pertence à mais alta classe, pode-se estar certo de ser saudado por um escravo, do alto da escada, com um "Quem é?". Se acontece ver-se um amigo no balcão da janela, deve-se, havendo intimidade, cumprimentar-se o mesmo tirando-lhe o chapéu, e também movendo-se rapidamente os dedos da mão, como se se estivesse acenando para alguém.

O mobiliário da sala de visitas varia em preço, de acordo com o estilo adotado; mas, o que se pode sempre esperar encontrar é um sofá forrado de palhinha, a um canto da sala e três ou quatro cadeiras arrumadas em filas rigorosamente paralelas, estendendo-se de cada uma das pontas do sofá até o meio da sala. Em sociedade, é próprio as senhoras ocuparem o sofá, e os cavalheiros as cadeiras.

As residências urbanas, nas velhas cidades, pareceram-me excessivamente tristes, porém o mesmo não pode ser dito das novas residências urbanas, das lindas "vilas" suburbanas, cercadas por jardins, cobertos de folhagens, muitas flores e frutos pendentes. Alguns trechos de Santa Teresa, Laranjeiras, Botafogo, Catumbi, Engenho Velho, Praia Grande e São Domingos, não podem ser ultrapassados na beleza e pitoresco de suas casas. Cito, em particular, as casas do senhor Máximo de Souza e do senhor Ginty.

Há diferentes classes sociais no Brasil, como em qualquer outro país, a descrição de uma não podendo servir para as outras; mas, tendo esboçado a descrição da casa, devo agora tentar descrever os moradores desde as crianças até os adultos.

A mãe brasileira quase invariavelmente entrega o seu filho a uma preta para ser criado. Assim que as crianças se tornam muito incômodas ao conforto da senhora, são despachadas para a escola; e coitado do pobre professor que tem que impôr-se a esse espécime irrequieto do gênero humano! Acostumado a dominar suas amas pretas, e com a ilimitada indulgência de seus pais, mete-se na cabeça tudo poder e dever fazer para frustar os esforços feitos para discipliná-lo. Não fazem isso por maldade, mas por falta de disciplina paterna. São afetivos e dóceis, embora impacientes e apaixonados, dotados de inteligência, embora extremamente preguiçosos e incapazes de prolongada atenção. Rapidamente adquirem uma tintura de conhecimentos: o francês e o italiano, são fáceis para eles, por serem línguas irmãs da portuguesa. A música, o canto e a dança, adaptam-se bem aos seus temperamentos volúveis; raramente tenho ouvido um amador italiano cantar melhor do que os amadores do Rio de Janeiro e da Bahia. Pianos, vêem-se abundantemente em cada rua, e ambos os sexos se tornam seus executantes consumados. A ópera é mantida pelo governo, como na Europa, e os principais artistas vêm ao Brasil. Thalberg triunfou no Rio de Janeiro antes de visitar Nova Iorque.


(Kidder, D. P.; Fletcher, J. C. O Brasil e os brasileiros; esboço histórico e descritivo. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1941, v.1. Biblioteca Pedagógica Brasileira, Série 5ª, v.205-A)

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