Letras
de Músicas



QUE TERREIRO É ESSE?
(Xavantinho)
Boa noite meu pai
Salve a sua banda
Que terreiro é esse?
Bota fogo na fundanga
Minha casa é uma tenda
Sou filho de mãe Maria
Saravá meu preto velho
Salve a senhora da guia
Rainha mãe Iemanjá
Abençoe o meu cantar
E me tire dessa agonia
São Jorge é bom cavaleiro
E guerreiro do espaço
Não deixe este soldado
Pensar em triste fracasso
O céu mistura com a terra
E o mundo se acaba em guerra
E a viola não sai dos meus braços
Mais quem é filho de tenda
Não se sente fracassado
Ao contrário meu amigo
Eu sô bastante estimado
Junta feitiço e pagode
E comigo ninguém pode
O meu santo é batizado


RANCHO TRISTE
(Xavantinho)
Seu moço, lá na roça ainda existe
Um ranchinho muito triste
Porque não tem morador
Um dia o lavrador cheio de filhos
Deixou a roça de milho
E pra cidade se mudou
Pensando ser feliz mais que na roça
Deixou a sua palhoça
Pra morar no arranha-céu
Mas tudo não passou de um sonho antigo
Hoje sem lar, sem abrigo
Desempenha o seu papel
E a morena tem saudade da viola
E o caboclo tem saudade do sertão
E hoje, sem terra e sem moradia
Vive na periferia
Solitário e sem razão
Agora nem João, nem Maria
Só revoltas todo o dia
Na procura do seu chão
E aquele rancho triste lá no mato
Espera seu filho nato
Pra de novo ser feliz
A volta pro sertão de um sertanejo
É maior que um desejo
É viver e ser feliz
E a morena tem saudade da viola
E o caboclo tem saudade do sertão


ORAÇÃO DE CAMPONÊS
(Xavantinho)
Meu lugar é um recanto de beleza
A Natureza que me deu como presente.
Finquei meu rancho lá na beira do caminho
Junto a um corguinho de água limpinha e corrente
Tirei o mato e acariciei a terra,
Boa semente eu plantei naquele chão,
E fiz pedido a minha Santa Padroeira,
Prá não deixar faltar a chuva no sertão.
O tempo passa e a luta não termina,
A chuva fina continua com seu véu.
Igual a eu, outro roceiro agradece
Deus nas alturas, e os milagres do céu
Um manto verde
Tomou conta do roçado
Formou-se um quadro, no azul da imensidão.
E na certeza de uma colheita farta,
De tudo aquilo que plantei com minhas mãos,
E para o ano a labuta continua,
Lavrando a terra com carinho e devoção.
Eu agradeço a minha Santa Padroeira,
Que não deixou faltar a chuva no sertão.
O tempo passa e a luta não termina,
A chuva fina continua com seu véu.
Igual a eu, outro roceiro agradece
Deus nas alturas, e os milagres do céu


CARREIRO VELHO
(Xavantinho)
Carreiro velho olha a canga do seu boi
Chora a saudade do tempo que já se foi
Naquela estrada
Já não passa mais boiada
Ficou triste abandonada
Que nem eu, tão infeliz
E o velho carro corroído pelos anos,
Vai aos poucos definhando
Qual o canto da perdiz.
Carreiro velho olha a canga do seu boi
Chora a saudade do tempo que já se foi
Carreiro velho vai cantando uma toada
De olho na invernada
Percorre tempos atrás
Vai ruminando as mágoas que tem no peito
Mas sabe que não tem jeito,
Seu tempo não volta mais
Carreiro velho olha a canga do seu boi
Chora a saudade do tempo que já se foi.


BEIRA-MAR
(folclore do Jequitinho, adaptado por frei Chico)
Beira-mar novo
Foi só eu que cantei
Ô beira-mar, adeus dona
Adeus riacho de Areia
Vou remando minha canoa
Lá pro poço do pesqueiro
Ô beira-mar, adeus dona
Adeus riacho de Areia
Eu não moro mais aqui
Nem aqui quero morar
Ô beira-mar, adeus dona
Adeus riacho de Areia
Adeus, adeus, adeus
Eu já vou-me embora
Eu morava no fundo dágua
Não sei quando voltarei
Eu sou canoeiro
Moro na casca da lima
No caroço do juá
Ô beira-mar, adeus dona
Adeus riacho de Areia
Rio abaixo, rio acima
Tudo isso já cantei
Ô beira-mar, adeus dona
Adeus riacho de Areia
Procurando amor de longe
Que o de perto já deixei
Ô beira-mar, adeus dona
Adeus riacho de Areia


UIRAPURU
(Jacobina e Murilo Latini)
Uirapuru, uirapuru
Seresteiro, cantador do meu sertão
Uirapuru, uirapuru
Ele canta as mágoas do meu coração
A mata inteira fica muda ao teu cantar
Tudo se cala para ouvir tua canção
Que vai ao céu numa sentida melodia
Vai a Deus em forma triste de oração
Uirapuru, uirapuru
Ele canta as mágoas do meu coração
Se Deus ouvisse o que te sai do coração
Entenderia que é de dor tua canção
Que daria para salvar o meu sertão
Uirapuru, uirapuru
Seresteiro, cantador do meu sertão
Uirapuru, uirapuru
Ele canta as mágoas do meu coração


LUAR DO SERTÃO
(Catulo da Paixão Cearense)
Oh! Que saudades
Do luar da minha terra
Lá na serra branquejando
Folhas secas pelo chão!
Este luar cá da cidade
Tão escuro não tem aquela saudade
Do luar lá do sertão!
Não há, ó gente, oh! Não,
Luar como esse do sertão
Se a lua nasce
Por trás da verde mata
Mais parece um sol de prata
Prateando a solidão
E a gente pega na viola que ponteia
E a canção é a lua cheia,
A nos nascer no coração
Não há, ó gente, oh! Não,
Luar como esse do sertão
Coisa mais bela
Neste mundo não existe
Do que ouvir um galo triste
Num sertão que faz luar
Parece até que a alma da lua
Que descansa escondida na garganta
Deste galo a soluçar
Não há, ó gente, oh! Não,
Luar como esse do sertão
Ai quem me dera
Se eu morresse lá na serra
Abraçado a minha terra
No milho onde eu plantei
Ser enterrado numa cova pequenina
Onde a tarde sururina
Chora a sua viuvez
Não há, ó gente, oh! Não,
Luar como esse do sertão.


VACA ESTRELA E BOI FUBÁ
(Patativa do Assaré)
Seu doutor, me dê licença
Da minha história contar
Hoje eu tô em terra estranha
É bem triste o meu penar
Eu já fui muito feliz
Vivendo no meu lugar
Eu tinha cavalo bom
Gostava de campear
Todo dia eu aboiava
Na porteira do curral
Eeeeeiaaa, êeeeeee vaca Estrela
Ôooooo boi Fubá
Eu sou filho do nordeste
Não nego meu naturá
Mas uma seca medonha
Me tangeu de lá pra cá
Lá eu tinha o meu gadinho
Não é bom nem imaginar
Minha linda vaca Estrela
Meu belo boi Fubá
Quando era de tardinha
Eu começa a aboiar
Eeeeeiaaa, êeeeeee vaca Estrela
Ôooooo boi Fubá
Aquela seca medonha
Fez tudo se atrapalhar
Não nasceu capim no campo
Para o gado sustentar
O sertão se estorricou
Fez o açude secar
Morreu minha vaca Estrela
Se acabou meu boi Fubá
Perdi tudo quanto eu tinha
Nunca mais pude aboiar
Eeeeeiaaa, êeeeeee vaca Estrela
Ôooooo boi Fubá
Hoje nas terras do sul
Longe do torrão natal
Quando vejo em minha frente
Uma boiada a passar
As água corre nos óio
Começo logo a chorar
Lembro a linda vaca Estrela
E o meu belo boi Fubá
Com sôdade do nordeste
Dá vontade de aboiar
Eeeeeiaaa, êeeeeee vaca Estrela
Ôooooo boi Fubá |
CALIX BENTO
(folclore mineiro, recolhida e
adaptada por Tavinho Moura)
Ó Deus salve o oratório
Ó Deus salve o oratório
Onde Deus fez a morada, oi, ai , meu Deus
Onde Deus fez a morada, oi, ai
Onde mora o Calix Bento
Onde mora o Calix Bento
E a hóstia consagrada, oi, ai, meu Deus
E a hóstia consagrada, oi, ai
De Jessé nasceu a vara
De Jessé nasceu a vara
Da vara nasceu a flor, oi, ai, meu Deus
Da vara nasceu a flor, oi, ai
E da flor nasceu Maria
E da flor nasceu Maria
De Maria o Salvador, oi, ai, meu Deus
De Maria o Salvador, oi, ai


O CIO DA TERRA
(Milton Nascimento e Chico Buarque de Hollanda)
Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar do trigo o milagre do pão
E se fartar de pão
Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel
Se lambuzar de mel
Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, propícia estação
E fecundar o chão


CIÚME
(Caetano Veloso)
Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia
Tudo esbarra embriagado no seu lume
Dorme poente, Pernambuco, Rio, Bahia
Só vigia um ponto negro: o meu ciúme
O ciúme lançou sua flecha preta
E se viu ferido logo na garganta
Que nem alegre, nem triste, nem poeta
Entre Petrolina e Juazeiro canta
Velho Chico vem de Minas
De onde o oculto mistério
Se escondeu
Sei que o levas todo em ti
Não me ensinas
E eu sou só, eu sou só, só eu
Juazeiro nem te lembras desta tarde
Petrolina nem chegaste a perceber
Mas na voz que canta tudo ainda arde
Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê
Tanta gente canta, tanta gente cala
Tantas almas esticadas no curtume
Sobre toda estrada, sobre toda sala
Praia, monstruosa, a sombra do ciúme


CASA DE BARRO
(Xavantinho e Claudio Balestro)
Aquela casa
De parede barreada
Lá na beira da estrada
Já não tem mais morador
Há quanto tempo
Ela está abandonada
Uma tapera largada
Poucos sabem seu valor
Sabe, seu moço
Quem morava dentro dela
Levando a vida singela
Era o roceiro feliz
Saindo cedo
Pros caminhos do roçado
Hoje conto seu passado
Assim o destino quis
Faz muito tempo
O dia certo eu não me lembro
Mas foi no mês de setembro
Em uma tarde de sol
A codorninha
Piava lá na pataiada
E a poeira avermelhada
Rodava em caracol
Lá na baixada
As batidas da porteira
Na estrada boiadeira
Ecoava o chapadão
Aquele moço
Começava uma viagem
Levando a fé e coragem
Em cima de um caminhão
Trocando a vida
Do sertão por uma cidade
Obrigando a vontade
O matuto despediu
Deixou no rancho
Seus costumes de caboclo
Pensando ter muito pouco
Naquela beira de rio
Tem certas coisas
Que se passa com a gente
Quando muda de repente
Na sorte que Deus nos deu
Sabe, seu moço
Esse mundo é uma escola
A enxada é uma viola
E o roceiro sou eu


EU, A VIOLA E DEUS
(Rolando Boldrin)
Eu vim me embora
E na hora cantou um passarinho
Porque eu vim sozinho
Eu, a viola, e Deus
Vim parando assustado, espantado
Com as pedras do caminho
Cheguei bem cedinho
Eu, a viola, e Deus
Esperando encontrar o amor
Que é das velhas toadas canções
Feito as modas pra gente cantar
Nas quebradas dos grandes sertões
A poeira do velho estradão
Deixou marcas no meu coração
E nas palmas da mão e do pé
Os catiras de uma mulher, ei
Essa hora da gente ir-se embora
É doída
Como é dolorida
Eu, a viola, e Deus
Eu vou-me embora
E na hora vai cantar um passarinho
Porque eu vou sozinho
Eu, a viola, e Deus
Vou parando assustado, espantado
Com as pedras do caminho
Vou chegar cedinho
Eu, a viola, e Deus


ENCONTRO DE BANDEIRAS
(Xavantinho e Tavinho Moura)
Ai, que bandeira é essa, ai
Na porta de sua morada
Aonde mora o calix bento
E a hóstia consagrada
Que encontro tão bonito
Que fizemo aqui agora
Os três reis do Oriente
São José e Nossa Senhora
A bandeira vai se embora
As fitas vão avoando
Se despede do festeiro
Pra vortá no outro ano


VIOLA
MARVADA (Chora Viola)
(Renato Teixeira)
Chora viola marvada
No punho da minha mão
Que a lua tá desgarrada
Tá perdida no sertão
Lua nova, cara inchada
Pinta tudo de azulão


SERTÃO
E VIOLA
(Xavantinho)
Hei, sertão
Sertão que me viu nascer
Hei sertão
Sertão que me viu nascer
Sertão do carro de boi
Da viola e do cateretê
Hei viola
Viola de Santos Reis
Hei viola
Viola de Santos Reis
Viola traz alegria
Pra cantoria mais uma vez
Eu tenho um calo
Na pontinha do meu dedo
É de viola, é de viola
Essa viola sabe todo o meu segredo
Que é de viola, é de viola


MORRO
VELHO
(Milton Nascimento)
No sertão da minha terra
Fazenda é o camarada que ao chão se deu
Fez a obrigação com força
Parece até que tudo aquilo ali é seu
Só poder sentar no morro
E ver tudo verdinho
Lindo a crescer
Orgulhoso camarada
De viola em vez de enxada
Filho do branco e do preto
Correndo pela estrada atrás de passarinho
Pela plantação adentro
Crescendo os dois meninos sempre pequeninos
Peixe bom dá no riacho
De água tão limpinha
Dá pro fundo ver
Orgulhoso camarada
Conta histórias pra moçada
Filho do Sinhô vai embora
Tempo de estudos
Na cidade grande
Parte tem olhos tristes
Deixando o companheiro
Na estação distante
"Não me esqueça amigo
Eu vou voltar"
Some longe o trenzinho
Ao Deus dará
Quando volta já é outro
Trouxe até sinhá mocinha
Para apresentar
Linda como a luz da lua
Que em qualquer lugar nenhum rebrilha como lá
Já tem nome de doutor
E agora na fazenda é quem vai mandar
E seu velho camarada
Já não brinca, mas trabalha


ENGENHO DE FLORES
(Josias Sobrinho)
Ê alumiou
Toda terra e mar
Ê alumiou
Toda terra e mar
Eu vi Fortaleza falar
Eu vi Fortaleza falar
Agora que eu quero ver
Se coro de gente é pra queimar
Vou pedir pra São João
Cosme e Damião
Pra nos ajudar
Quero um apito do engenho de flores
Chamando pra trabalhar |