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Almanaque: Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...


- Pena Branca e Xavantinho: História; Discografia; Depoimentos; Músicas.

- Causos de Minas por Eurico de Andrade

- Cornélio Pires:  O Truco.

- Etimologia de Finados.

- No Estradão.

- Provérbios.

- Anedotas históricas.

- Pregão.

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O TRUCO
(Cornélio Pires)

Desafio

I

Cheguei agora, moçada;
Já escoí meu companhêro
Quem é bão nûa trucada
Rebusque quarqé parcêro!


Mexa-mexa, cabocrada,
Que eu num respeito truquêro:
Jogo a déstão a parada;
Tô misturano o dinhêro!


- É cum nóis, Juca Morêra…
- Traga as cartas, nho Jusé
Quero lê essa porquêra


- Levante, Chico Macié:
Destranque o banco, tranquêra,
Vô mostrá: num sô quarqué


O Jogo

II

- Tire a sorte – De vancê
– Sérre o baraio, Tónico
– Dexe p’ro pé! – Bamo vê?
Truco in riba desse bico!


- Tóme seis p’ra arrependê…
- É nove, barba de mico!
– Feição de chico-lerê…
Tome doze, nho Totico!


- Aguenta firme, papudo!
– Jogue: meu treis num se arreda!
– Conhece este? – É o bebe tudo…


. . . . . . . . . . . . . . . . . . .

– Cabocro bão num azeda:
Bamo otra, véio barbudo
Dos pinto é a primêra quéda.


(PIRES, Cornélio. Musa caipira / As estrambóticas aventuras do Joaquim Bentinho (o Queima-Campo). Prefeitura Municipal de Tietê, 1985)

Caixão: Em certos casos, aumentativo de caixa; noutros, adaptação do francês caisson

Cemitério: Do grego koimeterion, "lugar para dormir, dormitório, cemitério", pelo latim coemeteriu-, "cemitério"

Defunto: Do latim defunctu-, p. p. do verbo defungor, "livrar-se de, executar, cumprir, livrar-se de dívida, pagar"

Enterrar: De terra

Morte: Do latim morte-

Sepultura: Do latim sepultüra, mesmo sentido

Túmulo: Do latim tümülu-, "eminência, elevação, túmulo de terra amontoada, túmulo", por via culta

(MACHADO, José Pedro. Dicionário etimológico da língua portuguesa. 3ª ed. Lisboa, Livros Horizonte, 1977)

*****

Do Barão de Itararé

O burro é um cavalo que
não quis estudar

O canguru é uma espécie de raposa, ou coisa que o valha,
mas com sidecar

* *** *

• Urubu e mulher feia, comigo é na pedrada
• Quem muito escolhe, pouco come
• Não tenho tudo que amo, mas… dane-se!
• Os últimos serão desclassificados
• Visitas sempre dão prazer. Se não na chegada, na saída
• Se casamento fosse bom, não existiria divórcio
• Dirijo devagar, tenho pressa de chegar
• Dê férias para a língua, trabalhe com a cabeça
• 80ção, 20 buscar
• Pobre só enche a barriga quando morre afogado

• Mão fria, coração quente - amor pra sempre.
• Mão branca, não manca.
• Mão quente, coração frio - amor vadio.
• Mão lavada, sujidade tira.
• Mão posta é ajuda.
• Mão vai, mão vem; a sua se esconde a minha também.

No mundo
• Mãos frias, coração quente

- Manos frias, corazón quente.
- Mains froides, chaudes amours.
- Mano fredda, cuore caldo.
- A cold hand, a warm heart.

O automóvel de Patrocínio

Não obstante o seu temperamento combativo e boêmio, José do Patrocínio era profundamente religioso. De regresso de Paris, trouxe ele um carro a vapor, que seria o avô do automóvel. Desembarcado o monstro, o jornalista montou na boléia, e, tomba aqui, tropeça acolá, foi encravá-lo, inutilizado, num buraco da Tijuca,

- Já sei por que foi! – fez Patrocínio, de repente, batendo na testa – É porque não o batizei; estava pagão, o miserável!

E penalizado:

- Qual! Sem religião e com estas ruas sem calçamento, não há progresso possível!


(Coelho Neto, em discurso na Academia Brasileira de Letras recebendo Mário de Alencar)

(CAMPOS, Humberto de. O Brasil anedótico; frases históricas que resumem a crônica do Brasil-Colônia, do Brasil-Império e do Brasil-República. 3ª ed. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1940)

Tem picolé, seu José
É de juçara, dona Januária
É de murici, dona Lili
É de abacaxi, seu Gigi
É de coco, seu Tinoco
É de caju, dona Juju
É de maracujá, dona sinhá
É um suplício, seu Simplício
É um coquinho, seu Agostinho
É um tremendão, seu Brandão


Recolhido por Raimundo Rocha do sorveteiro Luís Almeida em São Luís, Maranhão.

(CASCUDO, Luís da Câmara. Locuções tradicionais no Brasil. Belo Horizonte / São Paulo, Editora Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo, 1986. Reconquista do Brasil (nova série), 93)

AS MARCAS DA APARÊNCIA

Lá em Tabuí tinha um negão brilhoso, azulado e teimoso. Tão teimoso que ficou rico zunhando daqui e zunhando dali, fazendo umas malandragenzinhas e muito dentro do pãodurismo. No começo todo mundo o conhecia por Pitoco do Rolamoça. Depois, na abastança, virou senhor Epitácio da Silva. Ai de quem o chamasse pelo antigo nome. Era cacete na certa.

Mas o senhor Epitácio da Silva não estava satisfeito com a vida de rico só, não. Enricara e queria mais. Era ambicioso e orgulhoso. Passou a querer caber onde muita gente achava que ele não cabia. Povo racistazinho o de Tabuí!... a coisa começou a entornar o caldo para o lado do Epitácio quando ele resolveu que era hora de entrar para a política. Logo o Epitácio que mal conseguia juntar as letrinhas para escrever seu nome, querendo virar político!...

- Eles tão no bem-bão e eu tamém quero entrá nessa. Quero ajudá a resorvê os pobrema do país...

Como todo político que se preza.

Foi lá no vigário pedir aconselhamento e orientação.

- Sô vigaro, tô com dois pobrema...

- Sim, figlio mio? Qual o segundo?

Padre Anacleto, embora sotaqueando, gostava muito de perdoar atentados gramaticais de qualquer um não. Muito menos do senhor Epitácio da Silva que todo mundo, dentro do confabulamento, sabia qual era seu sonho.

- Sabe, sô padre, quero entrá na política e quero sabê o que qui o senhor acha. Quero ajudá muito o sinhô e a igreja, se Deus quisé!

- Olha, senhor Epitácio, io num acho niente, muito menos pelo contrário.

- O senhor acha que dô para político?

- Io non lo so! Mas digo-lhe que se o signore tem um sonho e pode tentar executá-lo, que tente! E veja no que dá.

- Pois é, sô vigaro. Acho que posso ajudá a resorvê a pobremada do Brasil rapidinho. Já tenho uns projeto...

- Si, signore Epitácio da Silva. Todos pensam assim no começo. Depois é só venha a nós. Mas seja o que Deus quiser!... Fé n'Ele e pé na tábua.

Senhor Epitácio da Silva, todo aperuado, começou sua campanha política com festanças e discursos que poucos entendiam. Dava botinas pra tudo quanto é homem e cortes de chita e de chitão pras mulheres. Tornou-se o maior caridoso da paróquia. Seu negócio era virar deputado estadual de qualquer maneira. Ir pra capital. Ser respeitado... sair no jornal, na televisão... seria a glória.

Para parecer uma pessoa importante candidato Epitácio comprou um carrão último tipo. Naquele tempo o carrão de gente importante era Itamaraty. Foi nesse mesmo que nosso amigo começou a cortar o mundo e a mostrar sua riqueza. Dificuldade danada para aprender a dirigir. Analfabetismo brabo. Mas aos trancos e barrancos Epitácio ia levando seu nome pra todo lado, até nos confins de Tabuí. Todo mundo já conhecia o negão, aquele do carrão. E o pessoal começou a achar que o Epitácio era homem esforçado e que, sendo rico, não ia precisar de roubar quando entrasse na política. Esses baratos todos... voto de muita gente tava garantido, principalmente daqueles que, vendo nele um raro exemplo da raça que se sobressaía na riqueza, despejaria voto no conterrâneo.

Depois de conquistar Tabuí, senhor Epitácio da Silva resolveu levar seu nome para o conhecimento da vizinhança. Outras cidades. Pequenas como Tabuí. Primeiro foi Uruburetama. No caminho, deu carona para um abotoadinho de paletó e gravata, todo empertigado, que carregava Bíblia e pastinha. Uma em cada mão. Era um pastor protestante batalhador, testemunha de Jeová, disposto a arrebanhar o velhas pro seu rebanho assim como nosso herói arrebanhava votos. O pastor assentou no banco traseiro do carro e lá se foram os dois papeando. Epitácio na frente, choferando, e o pastor atrás. Chegam ao posto de gasolina na beira da estrada. Poderia ser mais um voto o do rapaz da bomba.

- Compreta o tanque, meu pobre rapaz!

O rapaz ficou meio aziado com o tratamento. Pensou: "pobre é a mãe". Mas fez o serviço.

- É treis mil cruzeiro!

O candidato, mais que depressa, dá uma nota de cinco mil novinha, junto com um santinho da sua campanha e diz:

- Pode guardá o troco!

O rapaz, também analfabeto, satisfeito com tanta bondade, julgando que o do banco traseiro, o do terninho, é que era o dono do carro, foi para a janela traseira e se desmanchou em agradecimentos:

- Deus lhe pague, meu senhor! Hoje minha muié e meus dois fio vão podê jantá!... Deus te dê em drobo, meu patrão!

O pastor, caladinho, não sabia o que dizer, tão cômica a situação. E o Epitácio, tão enfezado que nem olhava para trás, pensava consigo mesmo: "que desaforo, eu sê cunfundido com um pé rapado desses, como se ele fosse o dono do carro e o doadô da gorjeta..."

Disse então ao pastor, depois de muito craniar:

- O senhor sabe dirigir?

- Sei, sim senhor!

- Então passa pra frente. Fica'qui no meu lugá!

Depois de andarem mais um bom pedaço, param noutro posto para botar mais combustível. O empregado, um gorducho bonachão, encheu o tanque, sem tirar um riso zombeteiro e um palito do canto da boca. Epitácio passa cinco mil para o pastor pagar dois mil e quinhentos e repetir a história de antes.

- Pode ficar com o troco, meu amigo!

O gorducho muito satisfeito agradece, cheio de palavras, ao pastor. Depois se dirige ao negão piscando um olho e retirando o palito do canto da boca:

- Aí negão! Pegano carona, heim?

Mal eles somem de vista do posto, o candidato manda parar o carro. Resolve abandonar o pastor e voltar pra sua Tabuí. Desanimado e puto da vida.

- Sô vigaro, quero mais sê político não. Vô pará. Quem nasceu pra sê Pitoco, num consegue chegá a Sua Excelência senhor Epitácio da Silva nunca não!... Inté!

A MULHER QUE QUERIA SER VIÚVA

Prefeito de Tabuí resolve construir um galpão para abrigar a feira da cidade. Contrata dois pedreiros e um servente e manda executarem o empreendimento. Já quase no final da obra, estão lá os três tirando as estacas que seguravam a laje quando o servente, o Raimundo Capeta, tem uma puta dor de barriga e corre pra privada lá no fundo do terreno. Os dois pedreiros continuam sua tarefa mas nem bem terminam de tirar o escoramento, o teto vem abaixo. Morrem os dois amassados pela laje mal feita.

Prefeito fica apertado. Medo de processo, de indenizações, etc. e tal. Resolve agradar às famílias dos mortos. Decreta luto no município por três dias e eleva os pedreiros à condição de heróis da cidade. Uma semana depois manda celebrar missa e convida o povo à Câmara Municipal para as condecorações post mortem. Faz discurso. Promete salário vitalício às viúvas , estudo e material escolar de graça para os filhos e até um tal de plano de saúde.

Povinho todo fica satisfeito com o prefeito e houve mulher que queria estar na pele daquelas viúvas. Até que a mulher do Raimundo Capeta não agüenta tanto sufocamento e solta o verbo enquanto tasca um beliscão na barriga do marido:

- E ocê, heim? Tinha que tá cagano numa hora daquelas?

(Eurico de Andrade é autor do livro Nós Sofre Mais Goza - Causos de Minas, e colabora com a Jangada Brasil)

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