Para reanimar um tresnoitado não há como o
madrugar tranqüilo dos campos!
O clarão marasmado no horizonte; o esfumado
da paisagem; a imobilidade das árvores à beira dos caminhos, cheios de sombras, e o
silêncio envolvente que desce vagaroso dos cimos iluminados,
produzem o bem-estar triste e a paz íntima que induzem aos pensamentos estranhos ao
cansaço da vida
Talvez por isso já me não lembrava de uma noite passada ao lado da febre, ouvindo tosses
e gemidos, e regressava, ao passo animado de "Espada", entregue aos frívolos pensamentos matinais que nos compensam, por instantes,
dos sofrimentos do corpo.
***
E pensava, sugestionado pelo silêncio umbroso da alvorada: não há, decerto, nos matos, a quantidade
fantástica de pássaros que consta das narrativas, dos versos e das descrições que
fazem os sonhadores de selvas encantadas. Os pássaros que moram nas árvores, numerosos e
variadíssimos, só se mostram aos poucos, de um em um, espalhados por toda a parte, em
vôo inesperado e fugaz
Cantam isoladamente um aqui, outro ali jamais
na lírica orquestração dos poetas que celebram a natureza, de pena em punho, a poder de
cigarros, no recolhimento astucioso dos gabinetes. Se eles se quedassem
ao silêncio das auroras, ouviriam somente um pio lá, outro além, suave, repetido,
contínuo, em surdina com a luz nascente
***
Mas voltemos à vida, à estrada e ao cansaço, coisas
que andam sempre juntas, e pensemos, enquanto o cavalo regressa contente ao seu curral, no
que se deve fazer a uma pobre moça que se ficou a morrer de pouco em pouco.
Talvez, naquele instante, outros pássaros cantassem nos bosques afastados e outros
pensamentos frívolos me voltassem, por que o silêncio da manhã era cada vez maior
Subitamente se fez imenso, quando ouvi, na monotonia das cantigas matinais da paisagem, um
berro melancólico, um berro de alarma e piedade, saído de garganta rouca:
- Ó das almas! Ó das almas!
E passou por mim um cortejo sinistro, vindo das sombras da encruzilhada. Dois homens
conduziam, a trote rápido, uma rede de defunto e, acompanhados por um outro, no mesmo
andar, lá se iam em direção à vila.
Quando passaram por mim, perguntei:
- Quem vai aí?
- O Zé Faustino.
Que Zé Faustino?
- O peão.
De que morreu?
- De faca
E lá se foram, estrada a for a, mais rápidos que o meu cavalo, a trotar, conduzindo o
fardo tão lúgubre como o clamor no silêncio da madrugada:
- Ó das almas! Ó das almas!
É assim que eles costumam conduzir os seus mortos
Quando morre alguém, nos bairros
afastados, passam os vizinhos a velar e jogar, animados pela fervida,
enquanto o defunto enrija entre duas velas. Antes de romper o
dia, amarram o cadáver com um lençol atado nas extremidades da vara. Terminada assim a
rede, viram num golpe a última tijela de pinga, sublevam o
fardo e partem para a vila a passo acelerado. De caminho, quando avistam, ao longe, alguma
casa, à beira da estrada, chamam em altas vozes:
- Ó das almas! Ó das almas!
Então saem das casas outros homens, vestindo à pressa o paletó, alcançam o cortejo que
vai passando e, sem detê-lo, tomam a rede nos ombros e prosseguem no mesmo andar. Os que
vêm, retrocedem, enquanto os moradores da estrada, despertados ao clamor plangente, vão-se rendendo e, assim, rapidamente, dão com o justo
na cova
***
Quando voltei à casa, já me aguardava o estilo
autoritário do delegado de polícia, numa intimação para o auto de corpo de delito. Em
obediência ao estilo e à minha contingência, fui a ele.
No corpo da guarda da cadeia, sobre uma mesa de pinho, jazia descoberto o cadáver de Zé
Faustino. Várias exclamações eram ouvidas, vários quesitos foram propostos, mas havia
uma facada só, profunda, na região da clavícula esquerda. Com a rijeza
da morte, a epiderme do cadáver contraiu-se e a ferida
transformou-se numa boca lívida
- Este foi bem alinhavado disse o escrivão, alinhavando, por sua vez, o auto.
Daí passamos à sala onde nos aguardavam as exigências da lei, na pessoa de um alferes mulato. Satisfeitos, a lei e o mulato, ia eu a sair, quando
o meu companheiro de intimação e auto, querendo que também o acompanhasse em sua
curiosidade, me induziu a ficar, farejando um drama ensangüentado no auto de perguntas a
que se ia proceder.
O homem pronto a responder à lei mestiça e empertigada
tinha aspecto simpático, uns ares tímidos, e mais parecia covarde que assassino
sanguinário.
Como se chama? perguntou-lhe o delegado.
Pedro Barbosa.
Que idade tem?
- Trinta e cinco anos.
Qual o seu estado? É casado, solteiro ou viúvo?
- Eu
sou casado.
Qual a sua profissão? Em que cuida, qual o seu meio de vida?
- Faço de tudo. Sou camarada viajante; trabalhador de enxada; trançador de couro cru e
tirador de madeira.
Onde nasceu?
- Aqui mesmo, na vila. Não tenho pai nem mãe e fui criado pelo meu falecido padrinho,
seu capitão Luís Lopes.
- - Sabe por que está preso?
- Sei, sim senhor.
E o que tem a dizer sobre o motivo por que está preso?
- Nada, não senhor.
Pois então não matou o Zé Faustino?
- Matei, sim, senhor.
Diga então o que sabe; esclareça a justiça sobre este fato.
Eu lhe digo, sim senhor
O caso todo mundo já sabe. Eu mesmo vim, de livre
vontade me entregar, porque a gente paga aqui mesmo o mal que faz
Eu até já estou
principiando a ficar arrependido no mal que fiz, mas como não tem mais arranjo para a
morte do outro, eu é que devo pagar
- Não é isso. Conte o caso como foi.
Não vê que esse Zé Faustino e eu fomos sempre amigos, desde o nosso tempo de
moleque, aqui na vila. Quando morreu o meu padrinho, fui trabalhar na fazenda do seu João
Luís irmão dele e depois fiquei morando nela, de agregado, numas terras,
na beira do caminho. Há dois anos eu já era casado o Zé Faustino
empreitou com seu João Luís um terno de mulas para
domar
O Zé Faustino era peão; desde rapazinho ele gostava de animal e, como era
muito corajoso e esperto, num instante fez nome
Mula que ele não quebrava, não tinha arrumação! Mas Deus que tenha a sua
alma em bom lugar era muito trevido e useiro em mexer com mulher dos outros. Em
todo caso, no tempo em que ele esteve na fazenda, amansando as mulas, fomos sempre amigos:
tanto que, todos os domingos caçávamos juntos no mato e, de tarde ele ia jantar na minha
casa comigo e mais a minha companheira. Mas eu não cheguei a ver nada de desconfiar.
Daí, a minha mulher era uma moça séria, duma qualidade de gente boa que tem da outra
banda da serra. Nós casamos por inclinação e, com a benção de Deus, estávamos
vivendo na paz do trabalho da família. Para minha mulher nunca faltou nada em casa, nem
agrado. Mas porém, o Zé Faustino levou tempo amansando os animais e, tantas vezes jantou
comigo que, por fim, desconfiei dele. Daí, era jeitoso para lidar com saia, e minha
mulher, não digo que facilitou nem deu corda, mas era boba -toda a gente boa é
assim e o Zé Faustino aproveitou
Por felicidade nossa, o trato da domação
acabou e ele voltou para a vila. Com o tempo me esqueci do caso que já ia me enfezando;
minha mulher continuou sempre boa para mim e ficamos em paz, graças a Deus!
- Mas o caso de ontem? reclamou a impaciência do alferes.
Há coisa de dez dias, o Zé Faustino voltou para repassar uns cavalos da fazenda.
Procurou outra vez a minha casa; entrou, conversamos os três juntos; tomou café e, daí,
voltou todas as tardes, depois que acabava o nosso serviço. Não gostei nem um pouco
daquelas visitas, porque ele estava agora mais confiado e a minha mulher mais enlevada nas
patranhas dele
Eu não cheguei a ver nada de
comprometer nenhuma honra, mas fiquei de pé atrás e comecei a sentir que já estava me
voltando o mesmo enfezamento que tinha passado
Ontem cedo, fui chamado na vila para
fazer uma viagem de próprio, mas a pessoa não precisava mais do meu serviço porque já
tinha recebido a resposta da carta. Então voltei para casa
Antes Deus me tivesse
matado no meio do caminho! Assim que cheguei em casa, fui entrando sem cuidar do
precipício que estava me esperando lá dentro! Não sei o que entrou no meu corpo quando
esbarrei com o Zé Faustino sentado na canastra, com a minha mulher no colo! O demo tomou
conta de mim duma vez e me empurrou, sem juízo, para o lado deles. Minha mulher se
levantou num repente, tremendo alvoroçada e ele, nem se mexeu da canastra! Aí, eu disse:
"Sai daqui, desgraçada, segue a tua sina
Mas este maldito nunca mais há de
sujar casa de ninguém!
" Então, seu alferes, me cheguei peito a peito, e
mandei o cujo pros quintos!
- Seu escrivão, escreva
(Amadeu de Queiros. Os casos do carimbamba. Rio de
Janeiro, Editora A Noite, p. 93-100. In APOCALYPSE, Mary (org.). Estórias e lendas de Minas Gerais, Espírito Santo
e Rio de Janeiro. 2ª ed. São Paulo, Edigraf, sd.
Antologia Ilustrada do Folclore Brasileiro) |