Noutro quadrante surgem no Brasil fantasmas que constituem tradições da Europa fidalga,
figuras com nobres pergaminhos testificadores da ancianidade crédula. Espectros já
velhos quando São Luís, Rei da França, vivia. Viajaram mais nas mentes que nos olhos.
Denunciam finalidade benéfica pela ausência de aspectos monstruosos, impressões
terríficas, conseqüências dolorosas. São "almas em pena" há mais de sete
séculos, pertencentes às imaginações aristocráticas da Idade Média. Agora participam
do humilde patrimônio anônimo do povo brasileiro, fielmente transmitidos: (Coisas que
o Povo Diz, 20, Rio de Janeiro, 1968).O velho
João Tibau, que muito bem conheci na Praia de Areia Preta, baixo e robusto, de força
agigantada, lenhador, pescador quando nada tinha a fazer, bebedor emérito, contou-me essa
estória. Acordou pensando ser madrugada e saiu para fazer lenha e, como andasse depressa,
chegou ao mato verificando ser noite alta, tudo escuro de meter o dedo no olho. Nem mesmo
enxergava os paus, vale dizer árvores. Foi indo, bangolando, fazendo tempo, quando ouviu
uma música muito bonita e foi indo na direção do som. Era, com certeza, algum baile nas
redondezas. Andou e andou e foi parar perto da Praia do Flamengo, além de Ponta Negra,
rumo de Pirangi, avistando, da ribanceira que descortina o mar, um clarão. Desceu a
barreira e empurrou-se para lá. Encontrou um grupo de cavaleiros, com grandes capas
compridas, muito bem vestidos, nuns cavalos de raça, lustrosos e gordos, mas João Tibau
não identificou ninguém. Quis acompanhar o grupo e acabou correndo quanto podia, mas
tinha a impressão de apenas andar, pois não vencia terreno. O grupo desapareceu adiante,
como se fosse fumaça. A praia estava clara pelas estrelas e o mar muito calmo. Tibau
chegou perto da última curva e viu um palácio que era uma Babilônia, várias carreiras
de janelas, todas iluminadas com uma luz azul que doía na vista. Chegando mais para
perto, ouviu as rabecas e as sanfonas, o vozerio do povo se divertindo, e mesmo a bulha
compassada dos dançarinos. Apressou o passo e ficou diante do palácio deslumbrante, todo
cheio de luzes e música, de vozes e de cantigas, mas não via vivalma. Aí arrepiou-se
todo, pensando que fosse coisa encantada, e benzeu-se. Deu-lhe um passamento pelo corpo,
escureceu-lhe a vista e deu cobro de si pela madrugada, já o céu todo claro, as barras
do sol no mar. Viu então que estava diante das Barreiras Roxas.
Paulo Martins da Silva, do Banco do Brasil, narrou-me em
abril de 1938 esse episódio. Entre Pititinga e Rio do Fogo, na barreira do Zumbi, existe
um palácio encantado. Há anos passados, um pescador, chegando ao Tourinho, barreiras que
estão entre a cidade de Touros e o Rio do Fogo, encontrou outro palácio, iluminado, e
ali um homem lhe entregou uma carta para a barreira do Zumbi, a duas léguas e meia de
distância. O pescador foi entregar a carta e encontrou o palácio em festa, com muita
gente, música, rumores de dança. Deu a carta. Deram-lhe de comer e beber. Pela manhã
encontrou-se na praia nua. Tudo tinha desaparecido.
No Morro Branco, arredores de Natal, na encosta leste, os
lenhadores e caçadores viam outrora uma casa branca, brilhante de luzes e sonora de vozes
festivas, orquestra tocando, gente bebendo e cantando. Quem tinha coragem de aproximar-se,
via o edifício sumir-se no ar e ficar apenas o mato bruto, cheio de sombras, com o
murmúrio do vento na folhagem. Hoje o Morro Branco é quase residencial.
No Rio Potengi, entre Natal e Guarapes, há uma camboa
que, nas enchentes, forma uma ilha, coberta de mangues. Essa ilha é mal-assombrada.
Aparece uma grande residência, habitada, com vozes humanas que cantam, gritos de alegria,
som de vidros entrechocados, rumores dentro e ao redor da morada. Pela madrugada
desaparece e fica o mangue verde como habitante único da ilhota misteriosa.
O Coronel Quincó (Joaquim Anselmo Pinheiro Filho,
1869-1950), que tantos anos comandou a Polícia Militar, narrou esse
"acontecido" em dias de sua mocidade na cidade do Natal, nos primeiros anos da
República. Vinha da Ribeira para a Cidade Alta pela Subida da Ladeira (avenida Junqueira
Aires) quando ouviu para o lado da Rua de São Tomé, paralela, uma valsa linda.
Apressou-se, e logo no começo da São Tomé, com raros e espaçados moradores, havia um
grupo maciço de árvores. A música cessara e Quincó encontrou apenas uma mulher alta,
magra, com um xale na cabeça. "Onde é a festa?" perguntou. A mulher
indicou o bosque com um estender de lábio, sem palavra. Quincó deu alguns passos e, nada
vendo, voltou-se. A mulher desapareceu. Música, luzes, vozes, dissiparam-se para sempre.
O Coronel Quincó mostrou-me o local.
Filadelfo Tomás Marinho, Mestre Filó, pescador famoso
que foi ao Rio de Janeiro comandando três botes de pesca em 1922, deu-me esse depoimento.
Voltava de Jenipabu na noite de lua embaçada e ao confrontar com a Limpa, já no Potengi,
viu um trecho da Praia da Redinha muito claro e cheio de gente animada. Como o outro dia
era domingo e ele não ia pras iscas (pescar), resolveu ver a função e rumou a
canoa para lá. A praia estava tão clara que os mangues, as árvores, tudo se destacava
como de dia. Quando ia virando o leme para encostar, escapuliu-lhe da mão a escota e a
retranca virou, cobrindo a vista com o pano da vela. Levantou-a e reparou que a praia
estava escura e silenciosa, sem um pé de pessoa, porque a lua abria nesse momento. Estava
mesmo no Cemitério dos Ingleses. Era uma assombração. Tocou-se para o outro lado sem
mais demora. A casa de alpendre que ele vira, distintamente, também não estava e sim um
cajueiro.
O pescador Antônio Alves, de Areia Preta, meu
colaborador no Contos Tradicionais do Brasil (Rio de Janeiro, 1946), vinha vindo
boca de noite da Ponta Negra a pé pela praia. Perto de Areia Preta reparou num sobrado,
alto, todo branco, iluminado, que nunca vira embora por ali passasse freqüentemente.
Avistou uma varanda muito larga onde havia gente dançando, indo e vindo. Aproximou-se e
não ouviu música, mas a festa estava tão bonita que Antônio Alves "chegou-se pra
perto". O pessoal estava todo vestido de branco e com uma espécie de capuz, cobrindo
o rosto. O pescador pensou que fosse ensaio de algum grupo carnavalesco, sem maldar. O
povo que estava dançando virou de costas, como uma quadrilha e nesse momento levantou-se
um pé-de-vento com areia que o cegou. Limpou os olhos mas a casa desaparecera, com os
dançadores e só estava ali a Barreira da Muxila, muda e aterradora. Antônio Alves botou
o pé e só parou em casa, mais morto do que vivo.
Gustavo Barroso (As Colunas do Templo, Rio de
Janeiro, 1932) recorda que em agosto de 1918 um vespertino carioca divulgara surpreendente
episódio narrado por um chauffer de Ipanema. Diante do Cemitério de São João
Batista tomara seu carro um homem alto, encapotado, mandando tocar para o Caju em rapidez
máxima. Na Avenida Oswaldo Cruz o motorista, assombrado, verificara o desaparecimento do
passageiro, apesar da excessiva velocidade do automóvel. Seria possível a proeza a um
fantasma. No ano seguinte, estudando Medicina, ouvi comentar-se ter o chauffer
identificado o passageiro do São João Batista vendo uma fotografia do famoso atleta e
acrobata Anquises Peri, falecido na epidemia da gripe.
Na manhã de 2 de setembro de 1894 minha mãe disse ter
sonhado com o sogro, abraçando-a e dizendo: - "Adeus, minha filha!" Meu Avô
Antônio Justino de Oliveira tinha apenas 65 anos e era sadio. Meu pai, em Natal, não o
sabia enfermo. Falecera na noite anterior, na Vila do Triunfo, ex-Campo Grande, hoje
Augusto Severo. Nasci mais de quatro anos depois mas ouvi esse sonho durante toda a minha
meninice.
Meu primo Bonifácio Fernandes, paraibano robusto e
sereno, tinha uma pequena mercearia na praça Augusto Severo e morava na avenida Campos
Sales, no Tirol. Preferia regressar, como bom sertanejo, a cavalo, através das avenidas
que se povoavam. Uma noite, atravessando o local onde o doutor Januário Cicco construiria
a Maternidade, encontrou dois cavaleiros à sombra duma árvore. Depois de meu primo ter
passado, deram de rédeas como pretendendo acompanhá-lo. Antes de alcançar a rua Nilo
Peçanha, um dos desconhecidos disse em voz alta e roufenta: - "Vamos juntos!"
Bonifácio voltou-se e não mais avistou os dois homens. Ficou muito impressionado com o
"esquisito" convite e contou a todos o singular encontro. No mesmo mês adoeceu
e morreu. Tifo.
O velho poeta popular Fabião das Queimadas (Fabião
Hemenegildo Ferreira da Rocha, 1848-1928) vindo ver-nos em Natal avisou ao meu pai que a
visita era de despedida porque "vira" o espírito de sua mãe. A velha também
falecera depois de haver-se encontrado com a alma da progenitora. O rejume era
esse. Faleceu em junho.
No Brasil as almas não tiveram o tratamento afetuoso de
"Alminhas" como em Portugal, onde o culto é mais intenso e complexo. Novembro
europeu é final de outono com noites frias, pedindo lareira e conversa familiar ao pé do
lume, avivando tradição. No Brasil o calor do verão dispersa um tanto o aconchego
doméstico. As almas têm poucas oportunidades de intervenção, exceto nas regiões do
interior, com a população em residências espalhadas, zonas agropastoris, onde há
caminho escuro e deserto para alcançar a casa. O cenário é uma provocação invocadora
do complemento sobrenatural.
Tradições. O Tenente-Coronel Antônio José
Leite do Pinho foi assassinado na tarde de 15 de março de 1834 a mando de Dendé
Arcoverde, vingando o tio capitão-mor André dAlbuquerque Maranhão, chefe da
revolução de 1817 no Rio Grande do Norte. Dias depois, o cavalo branco do morto
relinchava e pateava como se visse o antigo senhor, e acabou morrendo na mesma tarde.
Diziam no velho Natal que o tenente-coronel viera buscar a montada por não saber andar a
pé.
Gervásio Guilherme Martins foi morto a 2 de maio de
1863, no caminho de São José de Mipibu para Camorupim. Era muito estimado e assinalaram
o local com uma grande cruz de madeira, denominando-se "Gervásio". Meio século
depois, o defunto rondava o cruzeiro ao anoitecer, descobrindo-se amavelmente aos
espavoridos viajantes.
Pereira da Costa conta a origem do nome "rua do
Encantamento" no Recife. Um frade notívago acompanhou uma mulher bonita até o
primeiro andar em sobrado penumbroso. Veio uma claridade em que se viu caixão de defunto,
e a requestada desapareceu. O frade pendurou um relicário a um prego, rezou e foi embora.
Na manhã seguinte voltou com vários colegas do
Convento. O sobrado era abandonado, vazio, arruinado, e a sala nada recordava o colóquio
amoroso na noite anterior. Exceto, como testemunha, o relicário pendendo da parede suja.
Um dos estudantes nordestinos, médico na Bahia em 1906,
contou-me que um seu companheiro seduzira-se por uma Vênus-vaga, seguindo-a à rua de
Baixo, onde a namorada desculpou-se de não poder atendê-lo, dando-lhe uma
"lembrança" embrulhada em cetim. Voltando à casa, o rapaz verificou haver
recebido um ossinho de falange humana. O meu informante vira o "presente".
O Doutor Afonso Barata (1862-1934), médico na Bahia de
1889, duas vezes deputado federal pelo Rio Grande do Norte, confidenciou um episódio em
tempo de estudante. Gostava muito de perfumes, morava sozinho, levando a chave ao sair,
temendo a colaboração alheia. O extrato preferido terminou e a loja esperava sortimento
novo. Ficou usando outro, bem diferente, porque jamais encontrara o favorito em parte
alguma. Uma noite adormeceu quando lia na espreguiçadeira. Despertou com a impressão de
alguém acariciar-lhe os cabelos. O odor do perfume predileto recendia, enchendo o
quartinho. Quarenta anos depois ainda o sentia.
O cavalo Peixe-branco ou Exalação, de
Jesuíno Brilhante (1844-1879), o cangaceiro gentil-homem que matava inimigos e nunca
roubou, tinha a propriedade de pressentir emboscadas e ver fantasmas. Estacava, como feito
de bronze, recomeçando a marcha depois do cavaleiro rezar o Padre-Nosso e Ave-Maria a
Nossa Senhora do Carmo ou a São Miguel das Almas. Antes, não havia espora que o
resolvesse a mudar de lugar.
A rua Mermoz em Natal é o antigo sítio Queda do
Brigadeiro, assim denominado por aí haver caído do cavalo o brigadeiro Venceslau de
Oliveira Belo, presidente da província, de julho de 1844 ao seguinte abril, tio materno
do então conde de Caxias. Não há explicação para o seu espectro galopear em certas
noites até a primeira década do século XX. Aparição de "visagem"
relaciona-se com o local da morte, e o brigadeiro, já marechal, faleceu no Rio de Janeiro
em 1852.
No caminho de Natal a Macaíba, antes de Guarapes, há o
local "Peixe-Boi", por haver encalhado, semimorto, um sirenídeo, na segunda
metade do século XIX. Os moradores de Guarapes, no tempo famoso do fundador e rico
Fabrício Velho (Fabrício Gomes Pedroza, 1809-1872), não atravessavam à noite o
Peixe-Boi, mal-assombrado e bulhento, preferindo viajar pelo rio Potengi. As almas
sossegaram depois de muitas missas. Ainda hoje não é passagem de confiança para
pedestres ou jornada a cavalo. Há luzes, gemidos, tropel de gente correndo. Passam o
Peixe-Boi durante o dia. Ali teriam sido massacrados os indígenas quando da truculenta
"Guerra dos Índios".
A velha Bibi (Luísa Freire, 1870-1953) foi empregada em
Guarapes quando administrada por Fabrício Moço (o segundo Fabrício Gomes Pedroza,
1856-1925), últimos faustos, declínio e apagamento do empório econômico senhorial. Da
Volta do Periquito a Carnaubinha era um viveiro de assombrações, avistadas pelos
trabalhadores, morando todos à vista protetora da Casa-Grande, temendo os morros na verde
solidão da mataria. Ouviam as almas dos cabocos fazendo lenha e avistavam os fogos
das aldeias invisíveis. O tráfego Macaíba-Natal era fluvial. A estrada de rodagem em
1915 afugentou os fantasmas.
Meu tio Henrique Torres de Almeida faleceu em Natal a 12
de abril de 1932. Não consentimos meu pai ir ao enterro para não emocionar-se. Henrique
sepultou-se vestindo traje de casimira azul, feito para assistir meu casamento em 1929. Na
noite de 14 para 15, meu pai sonhou com o cunhado, vestido de azul, indicando um homem
baixo, gordo, moreno-claro, com bigode falhado, dizendo: - "pague a este nove mil
réis!" Na tarde de 18, meu pai encontrou na avenida Tavares de Lyra o Sr. Clemente
Pereira da Silva, negociante em Santa Cruz, reconhecendo-o como o que vira no sonho.
Perguntou se Henrique Torres lhe devia algum dinheiro. Devia nove mil réis de uma compra
de queijos. O credor ignorava o falecimento do devedor. Meu pai saldou o débito. Quem
conheceu o coronel Cascudo sabia-o inimigo de sugerir assombros e patranhas.
Anfilóquio Câmara (1889-1957), residindo na rua
Voluntários da Pátria, voltava de uma reunião à noite quando viu caminhando, alguns
metros adiante, uma pessoa que lhe pareceu velho companheiro das assembléias do IBGE no
Rio de Janeiro. Não o alcançou em passo e voz, admirando-se vê-lo entrar, muito
naturalmente, na sua residência embora a soubesse de porta fechada. Dias depois soube do
falecimento do misterioso visitante.
O fiscal federal no Ateneu Norte-Rio-Grandense, Lucas
Sigaud, morava numa das primeiras casas na avenida Junqueira Aires. Contou-me ouvir,
distintamente, altas horas, o rumor inconfundível dos talheres desarrumados por mão
inábil e brusca. Verificava depois a ordem irrepreensível no faqueiro, guardado em
móvel na sala de jantar, sob chave.
Dom Joaquim Antônio de Almeida (1868-1947), primeiro
bispo de Natal, resignatário em 1915, depois de uma vida missionária e peregrina,
recolheu-se em 1944 à Macaíba. Um dos amigos humildes e fiéis era o pequeno agricultor
Miguel Marinho Falcão, também septuagenário. Numa das mansas tertúlias vespertinas, o
prelado convidou o familiar para um pacto fraternal. Quem viajasse primeiro havia de vir
buscar o companheiro. Combinado! Dom Joaquim morreu na tarde de 30 de março de 1947.
Falcão acompanhou à sepultura o féretro do bispo na manhã seguinte. Antes de terminar
o enterro faleceu no Cemitério de Macaíba: (Antônio Fagundes, Vida e Apostolado de
Dom Joaquim Antônio de Almeida, Natal, 1955).
Na Bica de São Pedro em Olinda as almas dos antigos
cantequeiros vêm, em certas noites, encher as grandes vasilhas de folhas-de-flandres.
Ouvem o sussurro das vozes e o rumor dos canecões atritando nas pedras.
Ainda em 1918 na cidade do Salvador, dizia-se subir pela
ladeira do Pelourinho meia-noite da Sexta-Feira da Paixão, uma procissão de fantasmas
penitentes, vestindo mortalhas brancas, cada um com uma vela acesa na mão. Davam três
voltas na praça e desapareciam.
Silvestre, Mestre Silivesti, pescador famoso, morreu
afogado, fora da barra de Natal, enleado na poita do tauaçu. Reaparecia resfolegante,
molhado dágua do mar.
Américo Giacomino, o Canhoto, grande violão brasileiro,
e o acompanhador Luís Buono, visitaram Natal em janeiro de 1920, quando eu possuía
automóvel, jornal e 22 anos. Lamentei não haver registrado o nome de um seu amigo morto
cujo fantasma acompanhava, cordialmente, o artista. Rodávamos depois das exibições e
inopinadamente Canhoto interpelava Buono: - "Viu? É ele mesmo! Atravessou a
rua!" Les fantômes ne se mostrent quà ceux qui doivent les voir,
afirmava Alexandre Dumas.
Gastão Penalva (Comte. Sebastião Fernandes de Souza,
1887-1944) dizia não haver oficial de Marinha no seu tempo sem recordações de fantasmas
"embarcados", notadamente visíveis no quarto dalva. O Almirante Huet
Bacelar afirmava: - "Quem disser que oficial morto não volta ao seu navio, está
mentindo!" Penalva pensava escrever todo um volume sobre "Fantasmas
Navais", documentado pelas reminiscências dos companheiros.
O Capitão-de-Corveta Raul Elísio Daltro quando Capitão
dos Portos em Natal narrava esse caso pessoal. Primeiro-tenente servia no Benjamim
Constant no Rio de Janeiro, uma tarde fora a terra, regressando de escaler. Ao subir
a escada de bordo viu descendo sozinho, lento, grave, um oficial desconhecido, grisalho,
de patente superior. Encostou-se para deixá-lo passar, fazendo-lhe continência. Chegando
ao portaló, voltou-se para ver o velho oficial. A escada estava vazia e no escaler
atracado não havia senão os marinheiros da guarnição. Muitos anos depois soube
tratar-se de um falecido comandante do Benjamim com a mania de, vez por outra,
rever o comando.
O cônego Pedro Paulino Duarte da Silva (1877-1954) dizia
as velhas igrejas cheias de túmulos residenciais de almas do outro Mundo. Os antigos
vigários Colados amavam visitar as matrizes onde oficiaram e foram sepultados. É o que
ouvira no Assu, Ceará-Mirim, Mossoró.
Em 1906 um aspirante de marinha escreveu no cemitério de
Angra dos Reis: - "Este cemitério é só para cães!" No ano seguinte estava
enterrado "a meio metro da inscrição fatídica", registrou Gastão Penalva,
que pertencia à turma. As almas castigaram a irreverência.
O professor Bartolomeu Fagundes, já residindo em Natal,
encontrou um amigo em Goianinha, onde dirigira o Grupo Escolar. Abraços, frases festivas.
Dias depois soube ter falecido o cordial amigo no ano anterior. Abraçara um defunto,
concluía Bartolomeu.
O Padre Bianor Aranha informou-me que o espírito de
"mulher da vida" era identificado pela voz. Não tomava feição de gente.
A legislação antiga permitia instituir-se a própria
alma por herdeira dos bens patrimoniais, lentamente desprendidos em cerimonial
propiciatório. dona Maria César, viúva de João Fernandes Vieira, falecida a 11 de
agosto de 1689 "Deixou a sua alma por sua herdeira, e uma instituição de
missa quotidiana na dita igreja de sua sepultura" (Nossa Senhora do Desterro em
Olinda). Essa tradição foi extinta em 1766 e radicalmente em 1769 (Marquês de Pombal).
Os cuidados pela "salvação" sabiam iludir a proibição legal, obrigando os
herdeiros naturais a uma sucessão de despesas intermináveis. Por todo século XIX no
Brasil, vários testamentos astuciosos faziam praticamente a alma do defunto co-herdeira
ou usufrutuária. O morto continuava dispondo da fortuna pessoal em benefício de sua
instalação no Paraíso.
A nudez é uma defesa mágica contra os espectros. É
isolante e os feitiços por contato serão ineficazes. Ver "Nudez" no Dicionário
do Folclore Brasileiro. Todo canto, interseção de duas paredes, é "cama das
almas", fiscalizando a normalidade do lar em que viveram. As orações percorrendo
"os quatro cantos da casa" eram poderosas e já populares no século XVI. Não
devemos jogar sobejos nos cantos para não ofender aos espíritos.
Alma não interrompe quem vem cantando pela estrada
escura. O canto é uma companhia sagrada. Donde hay música no puede haber cosa mala,
afirmava Sancho Panza.
Cruz das Almas são altos cruzeiros de madeira ou
pedra, erguidos nas encruzilhadas. Nas cidades, coletavam esmolas em caixinhas facilmente
arrombáveis pelos sócios das Santas Almas Benditas. Pelo interior do Brasil valiam
símbolos de Fé, afastando as entidades malévolas e fantásticas, marcando "caminho
certo". Existiam em quase todos os territórios povoados no século XVIII. No Rio
Grande do Norte mencionam "Cruz das Almas" em 1784 em Currais Novos, ao redor
dos futuros limites municipais de Lagoa Nova, e povoação antiga no Martins. Denomina
município na Bahia. Sinal de posse, Cruz das Posses, Distrito de Sertãozinho em São
Paulo. Com os nomes de Cruz, Santa Cruz, Cruzeiro, batizam 46 municípios e distritos no
Brasil de 1965. Simples topônimos são incontáveis. Há peculiaridades: - Cruz da
Esperança (SP); das Graças (SE); das Moças , dos Padres, no Recife; Cruz de Pedra, no
Ceará; Cruzeiro dos Peixotos, em Minas Gerais, os Cruzeiros do Sul. Em São Gonçalo do
Amarante, RN, havia velha devoção à "Santa Cruz do Caboco". Substituíram na
Europa medieval aos Lares Compitales e Lares Viales, protetores dos viajantes
pagãos. Ao pé dos cruzeiros há sempre uma alma.
(CASCUDO, Luís da Câmara. Superstição
no Brasil. Belo Horizonte / São Paulo, Editora Itatiaia / Editora da
Universidade de São Paulo, 1985) |