Santos Dumont e o primeiro vôo do
14-Bis

"Havia então, narra Edgard de Cerqueira Falcão, dois prêmios para
quem voasse num mecanismo mais pesado que o ar: a) a Taça Archdeacon, no valor de 3.000
francos franceses, para quem primeiro se levantasse do solo, com os próprios meios de
bordo e percorresse a distância mínima de vinte e cinco metros com ângulo de queda
máxima de 25%; b) o prêmio Aero Clube de Paris, para quem voasse com os próprios meios
pelo menos 100 metros, com desnivelamento máximo de 10%; valendo tal recompensa 1.500
francos franceses.
Ambos foram levados por Santos Dumont , no 14-Bis, em 23 de outubro e 12 de novembro de
1906."
Em 13 de setembro, tenta o primeiro vôo mecânico com os próprios meios, conseguindo
"apenas dar um salto de sete metros, no espaço".
Em 23 de setembro, entretanto, o êxito é completo.
Assim descreve o feito imprensa francesa:
"Ontem de manhã, o aparelho foi transportado para a pista de Bagatelle. Ao fim
de duas tentativas para o pôr em marcha, o senhor Santos Dumont parou. Segundo nos disse,
saltaram alguns parafusos da chapa de uma engrenagem. A reparação exige algumas horas, e
os ensaios são adiados para a tarde.
Pelas quatros horas tudo estava terminado. Umas cem pessoas escoltam o aeroplano, que é
rebocado do galpão do Boulevard de la Seine para o campo de Bagatelle, próximo à pista
dos trotadores. O senhor Santos Dumont examina cuidadoso os fios de direção e, muito
desembaraçadamente, entra para a barquinha, enquanto um dos seus ajudantes finca no chão
um mastro, tendo na extremidade uma bandeira , para indicar o ponto de onde o aeronauta
deve elevar-se a fim de que o percurso no ar seja oficialmente marcado, e que, se houverem
sido transpostos pelo menos vinte cinco metros, possa ser atribuída ao valente piloto a
Taça Archdeacon.
Santos Dumont manda afastar o público já numeroso, põe a hélice em movimento e parte.
Por espaço de duzentos metros, as três rodas pneumáticas que suportam o aparelho
deslizam sobre o solo; de repente, Santos Dumont dirige a ponta do leme para o ar, e as
rodas deixam francamente, evidentemente o chão: o aeroplano voa. A emoção é geral.
Santos Dumont parece transportado por um imenso pássaro de conto de fadas. Assim
transpõe cerca de cinquenta metros a uma altura de três metros. Pretendendo fixar-se no
ar, dá menos inclinação a ponta do leme, porém, num movimento demasiado brusco, o
aeroplano desce. Santos Dumont, pressentindo a queda, apaga o motor: o aparelho cai no
chão, ouvindo se um estalido.
Somos dos primeiros a precipitar-nos para o aviador, que retiramos da barquinha são e
salvo. Sorrindo ele examina os estragos, que se resumem em uma roda torcida, dois
balaústres quebrados, assim como um bambu, do leme"
É o próprio Santos Dumont que depõe:
"Este meu primeiro vôo, de 60 metros, foi posto em dúvida por alguns, que o
quiseram considerar apenas um salto. Eu , porém, no íntimo estava convencido de que
voara e, se não me mantive mais tempo no ar, não foi culpa de minha máquina, mas
exclusivamente minha, que perdi a direção."


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Uma carta de Santos
Dumont
Em 1901, tendo ganho o prêmio Deustch instituído para
quem, nos verões de 1900 a 1904, subisse nos ares em balão partindo de Saint-Cloud,
contornasse a Torre Eiffel e voltasse ao ponto de partida, no máximo em meia hora
recebe a missiva de um amigo do Brasil, lembrando-lhes os divertimentos da sua meninice, a
um dos quais acabavam de rebatizar com o nome de "o jogo do homem que voa".
A correspondência
desperta-lhe reminiscências gratas, que ele recorda, narrando como fora atraído para a
navegação aérea:
"Essa carta me transporta aos dias mais felizes da minha vida, quando, à espera de
melhores oportunidades, eu me exercitava construindo aeronaves de bambu, cujos propulsores
eram acionados por tiras de borrachas enroladas, ou fazendo efêmeros, balões de papel de
seda.
Cada ano, no dia 24 de junho, diante das fogueiras de São João, que no
Brasil constituem uma tradição imemorial, eu enchia dúzias destes pequenos montgofiéres e contemplava extasiado a sua ascensão no céu.
Nesse tempo eu confesso, meu autor favorito era Júlio Verne. A sadia imaginação deste
escritor verdadeiramente grande, atuando com magia sobre as imutáveis leis da matéria,
fascinou-me desde a infância. Nas suas concepções audaciosas eu via, sem nunca
embaraçar em qualquer dúvida, a mecânica e a ciência dos tempos do porvir, em que o
homem, unicamente pelo seu gênio, se transformaria num semi-deus.
Com o capitão Nemo e seus convidados, explorei as profundidades do Oceano, nesse
precursor do submarino, o Nautilus. Com Phileas Fogg fiz em oitenta dias a volta ao mundo.
Na Ilha a hélice e na Casa Vapor, minha credulidade de menino saudou com entusiástico
acolhimento o triunfo definitivo do automobilismo, que nessa ocasião não tinha ainda
nome. Com Heitor Servadac naveguei pelo espaço.
Vi pela primeira vez um balão em 1888, com a idade de quinze anos...
...Eu queria, por minha vez, construir balões. Durante as compridas tardes ensolaradas do
Brasil, ninado pelo zumbido dos insetos e pelo grito distante de algum pássaro, deitado
à sombra da varanda, eu me detinha horas e horas a contemplar o céu brasileiro e a
admirar a facilidade com que as aves, com suas longas asas abertas, atingiam as grandes
alturas. E ao ver as nuvens que flutuavam alegremente à luz pura do dia, sentia-me
apaixonado pelo espaço livre.
Assim meditando sobre a exploração do grande oceano celeste, por minha vez eu criava
aeronaves e inventava máquinas.
Tais devaneios eu os guardava comigo.
Nessa época e no Brasil, falar em inventar uma máquina voadora, um balão dirigível,
seria querer passar por desequilibrado ou visionário. Os aeronautas que subiam em balões
esféricos, eram considerados como profissionais habilíssimos, quase semelhantes aos
acrobatas do circo."
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