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As impressões de Raul Pompéia na festa da
Penha, em 1888:
Danças e
cantos na Penha
No domingo, a gentinha miúda da cidade moveu-se em romaria ao outeiro da Penha,
distante algumas léguas daqui para as bandas do norte.
É de ver-se a massa de humanidade que anualmente se transporta em terrível caminhada de
sol e de pó, obediente ao costume tradicional ou às obrigações contraídas pelas
promessas beatas, ou ávidas simplesmente da orgia campestre que o rendez-vous
religioso ocasiona.
Já de madrugada, enchem-se as ruas de romeiros, cujos chapéus de copa
branca e rodaques claros de brim
apressam-se, no lusco-fusco que vão deixando os profetas, apagados os lampiões.
Nos cais de embarque dos bondes marítimos, nas estações da estrada de
ferro de Pedro II, comprimem-se eles, esmagam-se, no esforço de embarcar primeiro, ou
tomar logo o bilhete de ida e volta. Pelo porto extremo do Pedregulho, donde parte a
estrada de rodagem que vai à Penha, desfilam infinitamente os veículos de festa,
extravagantes, fantásticos cobertos de esteiras em arcos, de lona, de couro, descobertos,
andorinhas, caminhões, bugue-bugues, carros, carroças, puxados a dois, a quatro, a cinco
cavalos, puxados lentamente a bois, que viajam a noite inteira, e os audazes romeiros
pedestres, da melhor marca, que desafiam a fadiga e o sol que vai nascer fogoso,
mostrando, à ilharga, o corno animador e suavizante do bom
vinho.
Nos carros, nos trens, nas lanchas, suando, sufocando, do aperto e do calor que começa,
amontoam-se os homens, as mulheres por cima como trouxas, as crianças, nos vãos
possíveis.
E partem os romeiros, os da estrada de ferro sofrendo ainda a baldeação, em São
Francisco Xavier, para a estrada de ferro do Norte.
Encontra-se no arraial uma população, chegada de véspera ou pela noite.
A Penha é um povoado miserável de alguns casebres que se desmancham em pé, situada em
uma várzea arenosa de beira-mar. Um semi-círculo de morros volteia sobre o horizonte,
por um lado, oferecendo a espaços, através da vegetação, nodosidades redondas de
pedras ásperas cor de cimento, como cachoeiras enormes sem água. Em frente, devassa-se a
Guanabara azul.
Mais perto, do lado oriental, eleva-se em rampa vagarosa um outeiro de uma
só rocha bruscamente concluído por um precipício. No sítio mais alto, a olhar para
leste, fica a igrejinha caiada de Nossa Senhora da Penha, de seis janelas de outão e uma torre.
Na várzea, beirando a longa estrada que comunica a estação da linha
férrea com o outeiro, acampa o exército de fornecedores. Sob folhagens e bandeiras,
armam-se barracas em linha onde estão à venda roscas e doces, bebidas e todas as
iguarias sólidas, exibidas sobre balcões e tabuleiros, pelo vivo reclame dos que vendem.
Os mais atrevidos tomam o caminho e pegam quem passa; negras-minas de camisa de crivo, que fazem valer o seu
pão-de-ló; sujeitos de avental e barrete de cozinha, que recomendam
a fama das galinhas assadas e dos leitões de forno; um que deseja que se prove e mostra
uma grande pipa, sobre rodas, coberta de ramos, com o melhor refresco de abacaxi, gelado
de véspera; outro que mete à cara grossos rosários de pau lavrado; outro que apresenta
charutos de meio metro; todos gritando, atordoando como possessos.
Os romeiros chegam e passam. Os veículos agrupam-se em lugar retirado,
formando uma confusão pitoresca com o capricho das armações e dos enfeites de morim
barato e ganga encarnada, com os ramos e
palmas pregados, com o desmantelo geral do cansaço dos solavancos da jornada e o
revestimento de poeira. Os bois dormitam, os cavalos abatidos espicham a cabeça babando a
fadiga de três léguas de galope. Passam os romeiros e sobem.
Antes da ermida, há uma comprida ladeira; depois uma escada de 365 degraus talhados na
rocha. Pelo extenso caminho, distribui-se o povo. Os que sobem levam imensas velas de
promessa, ou formas de cera lembrando enfermidades curadas; os que descem trazem registros
em rolo atados ao chapéu, e vêm condecorados de medalhas e pequenas
cruzes ou corações de papelão dourado com uma imagem da santa no meio detrás de um
vidro. Entre os que sobem, há fanáticos que vão de joelhos; mulheres, amparadas pelas
filhas ou pelo marido; um velho gordo, ou inchado que mal poderia subir de pé, amparado
por duas moças; um rapaz, magriço, de olhos fundos e aspecto
doentio, seguro pelos sovacos por dois outros, resguardando as joelheiras das calças
pretas em um invólucro de papel pardo. Os que prometeram menos sobem apenas
descalços. Um pobre menino de quatro anos, em camisa, quase nu, suando, exposto à viração forte da colina, pisa sem
sapato a pedra ardente, levando uma vela que a mãe ajudava a manter. Uma mulher de
vestido verde de seda e chapéu de plumas, parecendo uma hetaira de terceira ordem, vai
descalça, sorrindo um pouco e fazendo ver os pés brancos, pequenos, de calos amarelos no
dedo mínimo. Olha para os lados para apreciar a compaixão que provoca e carrega,
satisfeita, uma gorda perna de cera com uma feridazinha pintada, empunhando-a como a
dizer: a minha bonita perna que aqui vai
A igreja é simples e asseada. A sua construção data de longe, do passado obscuro da
tradição. Foi reconstruída entre 12 de abril de 1870 e 13 de maio de 1872. Esta última
data do fim das obras tem alguma cousa de coincidência fatídica com a gloriosa data
popular, que contribuiu visivelmente para aumentar a romaria dos pobres neste ano.
À entrada da nave, duas largas bandejas colhem as espórtulas abundantes dos fiéis,
fazendo-se a permuta dos símbolos bentos. Rio admirável de ouro, com a nascente na
crença ingênua e na superstição bem cultivada.
Depois do Te-Deum, a concorrência dos
que sobem decresce. O povo dispersa-se pelos sítios de sombra. É o almoço.
Não se pode facilmente imaginar o espetáculo desse piquenique de vinte mil convivas.
Famílias, magotes de amigos, acomodam-se, através do campo, organizam-se em banquete.
Confundem-se à vista feições, sexos e idades, no agrupamento desordenado das roupas,
sobre a erva, sob o esplendor difuso do sol. Impressionam alguns quadros destacados:
crianças que correm, mulheres que palestram em círculo; pessoas que comem de ventre em
terra, ao redor de mesas de improviso; um que atravessa um frango à boca; outros virados,
mamando vinho na cabaça de dois bojos, no possante chifre retorto, roxos como de soprar
buzinas entupidas, fechando os olhos, sob o reflexo do céu de meio-dia. E um bêbado que
dorme sobre as pilhas de melancias, e outro que sai para a estrada cambaleando, agitando
molemente a bengala, vomitando o viva à Penha! E relutando contra a esposa
envergonhada e o amigo dedicado que o contém.
Depois da refeição, vêm as danças e os cantos. Um delírio de samba e fados, modinhas
portuguesas, tiranas do norte. Uma viola chocalha o compasso, um pandeiro acompanha, geme
a sanfona, um negro esfrega uma faca no fundo de um prato, e sorri, negríssimo, um
sorriso rasgado de dentes brancos e de ventura bestial. A roda fecha. No centro,
requebra-se a mulata e canta, afogada pela curiosidade sensual da roda.
Depois da mulata, dançam outros foliões de dois sexos. Os circunstantes
batem palmas, marcando a cadência e esquecem-se, quase a dançar também, olhando o
saracoteio lento, ou as umbigadas desenfreadas, dos fadinhos de uns ou da caninha-verde de dois pares.
Ai, meu sertão!
grita alguém.
Ai, senhora Maria, suspira outro, lembra-se dos Remédios de Lamego?
As rodas fecham-se por toda parte, na soalheira e na sombra, na estrada e
no campo, sob os tamarineiros.
Entretanto transitam de permeio grupos carnavalescos dos
mais valentes, romeiros, enroupados à fantasia, zabumbando o zé-pereira, bimbalhando ferrinhos, arranhando
guitarras, guinchando sons impossíveis de requinta e gaita. As praças de
polícia montada circulam caracolando, erguendo turbilhões de pó. O sol, por entre as
cordas de bandeiras e lanternas, vem ferir a terra e eleva-se na poeira fulgente como um
nevoeiro de cal. O ar queima. Passam na multidão gigantescos chapéus de palha, de
reflexos insuportáveis, que parecem tecidos de palha e fogo. Nos paletós suados, a
poeira empasta espáduas de lama preta. Um molecote insinua-se oferecendo água em um
balde de folha, água morna e salobra a dois vinténs o copo.
Em um clima de inferno, dança-se, grita-se, ganha-se.
A alegria colossal da plebe vence as horas. O tempo corre esquecido na
folgança e na embriaguez, até à tarde, quandos os festeiros voltam, repleto o ventre,
tranquila a consciência da promessa cumprida, contratadas novas alianças para a vida da
estalagem, para a proliferação insaciável da pobreza. E, à tarde e à noite, os
carros, os comboios da estrada de ferro, as lanchas de transporte os vão restituir à
cidade, à vida normal do ano e do trabalho, acabrunhados, derreados , vítimas satisfeitas
de um dia imenso e único de felicidade.
(In: BANDEIRA, Manuel; ANDRADE, Carlos Drummond de. Rio de Janeiro em prosa e verso.) |
LENDAS DA FESTA DA PENHA:
I
Vem de muitos anos a festa da Penha. Dos meados do século XIX. O centenário das
comemorações teria passado desapercebido, já porque, efetivamente, não se pode, nunca,
descobrir quando uma festa dessa natureza teve início. Ainda mais quando se origina de
uma história lendária como esta da Penha. De fato, são duas as lendas que explicam a
atração que o povo sente pela festa da Penha e a veneração que dedica à milagrosa
santa.
A primeira lenda refere-se a um cidadão que, vivendo no interior do Brasil, talvez nos
confins de Mato Grosso, viu-se ameaçado por um fabuloso jacaré. Estaria numa região
pantanosa, onde foi parar, numa de suas crises de sonambulismo. De repente acordou. Dando
com o réptil a poucos metros de distância, o pobre homem ficou alguns segundos
imobilizado pelo medo, fixando os olhos do jacaré. Sem ter com que se defender,
passou-lhe pela memória o nome de Nossa Senhora da Penha. E gritou, a plenos pulmões:
- Valha-me, Nossa Senhora da Penha!
Sentiu, nesse momento, que suas forças se multiplicaram misteriosamente. Apareceu-lhe
ainda um pedaço de pau, que segurou. O monstro investiu furiosamente contra si, sendo
logo abatido. Com o porrete, matou o terrível réptil.
II
A segunda lenda é a que conta que, em 1739 um homem subia o monte Cabeça de Alpareba
(antiga denominação do morro da Penha). No meio da viagem, sentou-se para descansar.
Depois, dormiu (ocasião em que se aproxima dele um jacaré). A Virgem acorda-o e lhe dá
forças e coragem para lutar com o animal. Foi feliz, não ficando arranhado, sequer.
Matou o jacaré. Retirou-lhe o casco, dando-o mais tarde de presente à irmandade que
administra a igreja da Penha. Daí em diante, isto é, a partir deste acontecimento,
aumentou a romaria à igreja da Penha. E o casco do jacaré lá ficou por muitos anos,
atestando uma história que se originou em uma lenda.
(A lenda que deu origem às romarias da Penha, reportagem sem assinatura, publicada no
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 24 de outubro de 1954. In: APOCALYPSE, Mary (org.). Estórias e lendas de
Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro.)
***
FESTA DA PENHA
(Cartola / Assobert)
Uma camisa e um terno usado
Alguém me empresta
Hoje é domingo
E eu preciso ir à festa
Não brincarei
Quero fazer uma oração
Pedir à santa padroeira proteção
Entre os amigos
Encontrarei alguém que tenha
Hoje é domingo
E eu preciso ir à Penha
Levarei dinheiro pra comprar
Velas de cera
Quero levar flores
Para a santa padroeira
Só não subirei
A escadaria ajoelhado
Pra não estragar
O terno que tenho emprestado
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