
Fui à lousa e desenhei um
esqueleto
- Algum de vocês sabe o que isto?
- Eu sei! Gritou um menino de olhar vivo.
- Que é?
- Sombração.

O genro de Zé Ponciano agonizava a três léguas de distância da cidade. Eram três
horas de madrugada de julho, fria que não tinha altura, quando Ponciano, trazendo um
animal a destro, bateu na janela da casa do vigário que apareceu envolto num cobertor
tremendo de frio.
O que é que há?
- Ih, seu vigário, eu vim ligêro buscá vassuncê pra ajudá meu genro a morrê.
Qual é a distância que tem daqui lá?
- Três légua das boa eu acho que tem!
- Mas você quando saiu, o doente não estava muito mal?
- Tava, seu vigário. Tava quase na última suspiração. Tava inté com sororoca.
Então não adianta nada a minha ida. Quando eu lá chegar, já acho o homem morto.
Num tem perigo, seu padre. Eu deixei uns home entretendo ele lá, até vassuncê
chegá.

Quem se mete a debochar do caipira, quase sempre sai perdendo. Pois ele com aquele seu
jeitão de bobo, é fino como ele só, e traz sempre a resposta pronta na ponta da
língua.
Foi o que aconteceu a um chofer que me conduzia de Tietê a Porto Feliz.
Numa subida íngreme, alcançamos um caipira que seguia com o seu trole, puxado por uma
parelha de burros. Ao passarmos pelo caboclo, o chofer quis debochar-lhe, gritando-lhe:
- Ô, como é que você com os dois burros ficou pra trás, homem?
- Lá que sei é que os meus burros anda no vará do trole, o burro do automóve anda na
boléia
Dias depois, na fronteira do Paraná, indo a cavalo, encontrei um viajante de casa
comercial, que viajava com tropa. Visitava praças não servidas por estradas de ferro.
Emparelhamos os matungos e seguíamos conversando, quando avistamos ao longe o caipira,
que vinha a pé, com o seu sapiquá ao ombro. O viajante, ao avistar o caipira, disse-me
logo:
- Lá vem o caipira. Vou arreliá-lo.
Mas o senhor conhece-o? O senhor já é vaqueiro dessas paragens?
- É a primeira viagem que faço pelo interior do Brasil.
Ah! Então é melhor o senhor não mexer com o caipira. Pode ser que o senhor leve
uma resposta meio atravessada
- Esses campônios são umas bestas! O senhor vai ver.
Quando o caipira, sempre cortês, como todos os caipiras, passava por nós, gritou-lhe o
viajante:
- Pra onde vai indo, homem?
- Eu, pra falar a verdade, vô indo no Buri
- Tu queres ganhar cinco mil réis?
- Uai, eu sô fio do ganha-dinheiro.
Tu sabes onde é o Grande Hotel?
- Sei, nhô sim! É uma casa grande que fica no pátio da igreja
perto da casa do
coroné
- Pois eu te pago cinco mil réis.
Pra mode o que?
- Eu te pago cinco mil réis pra veres se eu estou lá no hotel. Tu vê se eu estou lá, e
eu te pago cinco mil réis.
O caipira coçou a cabeça, pensou, pensou, e:
- Homi, intão é bom vassuncê me dá o cabresto, que se tivé lá, eu já proveito pra
vê.

Entrei na sala de aulas da escola sertaneja. Os alunos, barrigudinhos, de pernas finas
como sabiás, de cabelos compridos como beiradas de rancho de sapé, levantaram-se e
ficaram firmes como estátuas. Mandei-os que se sentassem, e a professora fez uma
demonstração de aula, dizendo que há apenas três meses organizara a sua classe.
Formação de frases! Seu Joãozinho, organize uma frase terminando com a palavra
rico.
A professora é rico!
- Ora, o senhor está me envergonhando. Lá o senhor, seu Salatiel.
O boticário é rico.
Muito bem! Agora outra frase terminando em cera.
Toda a clase pôs-se a pensar, até que um ruivinho, dos olhos azuis, deu sinal de que
sabia.
Diga o senhor, seu Joanim. Uma frase terminando em cera.
Buona cera.
Rimo-nos, e a professora continuou:
- Seu Chiquinho, quantos sentidos nós temos?
- Cinco sentidos.
Seu Rafael, para que serve a boca?
- A boca? Pra gostá.
Seu Maneco, para que serve o nariz?
- O nariz? Pra cheirá.
Seu Julinho, para que servem os olhos?
- Os óio pra oiá.
Seu Mingote, um sentido que temos bem pronunciado nas palmas das mãos? Para que
serve?
- Pra aparpá.
- Agora o senhor, seu Salvador, para que é que serve a orelha?
- A oreia? A oreia
pra ponhá toco de cigarro.
É como o senhor vê. A classe está nesse atraso, mas daqui a um ano será outra,
pois as crianças brasileiras são inteligentíssimas. O senhor está estranhando este
monte de livros em cima da mesa? Vou mostrar-lhe a utilidade que têm.
Encurvou a palma da mão esquerda, e começou:
- Meninos, um grão de milho e mais um grão de milho, quantos são?
- Dois!
- Muito bem! Dois grãos de milho, mais um?
- Três!
- Perfeitamente! Agora três grãos de milho e mais dois?
- Sete!
- Não! Pensem bem. Tenho fechado na palma da mão três grãos de milho e mais dois.
Quantos são?
- Um punhadinho.
Como o senhor vê, isto até me faz rir sozinha algumas vezes. Vai o senhor ouvir o
mais atrasadinho da classe. Seu Salvador, quem de cinco tira três, quanto é que fica?
- Oito!
- Não é aumentar, menino! É diminuir! Tirar. Preste bem atenção. Quem de cinco dedos
tira três dedos tira três dedos, o que é que fica?
- Fica aleijado!
(Transcritos do cd Som da Terra; Cornélio Pires. Warner Music Brasi, 995048-2)
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Negro Velho é águia como ele só. Estava a roda em animada palestra na porta da botica
do major Modesto, em Itapema, quando chegou Negro Velho de chapéu na mão e foi logo
perguntando:
- Suncês num são capais di mi dizê quem é que é o home de mais de bem daqui da
cidade?
- É o padre João, o vigário. Um homem muito sério
- Num vê qui eu tô cum quinhento mil réis aqui nalgibeira. Eu vou viajar, são
capais di robá eu... ladrão tá cheio aí. Intão vô dá os quinhento mil réis pro
padre guardá pra mim.
Logo na esquina estava formado outro grupo a conversar. O Negro Velho fez a mesma pergunta
e obteve a mesma resposta.
Vô de viagê, e agora eu vô pedi pra seu vigário guardá a nota de quinhento.
Uma nota nova
que tá estralando no dobrar.
Repetiu a cena em diversos pontos da cidade. E desapareceu.
Daí um mês, surgiu na casa do vigário.
Sô vigário, eu vim buscá os quinhento mil réis que dei pra vassuncê guardá
pra mim.
Que quinhentos mil réis, homem? Você está maluco? Eu nunca te vi mais gordo,
seu
- Ah, seu padre! Num faça isso cum Negro Véio. Cidade inteira sabe que eu dei quinhento
mil réis pra vassuncê guardá pra mim. Testemunha tá cheio. Tá bulindo de testemunha
aí que sabe.
Puxa daqui, seu velhaco! Seu tratante!
Negro Velho saiu. Justou o rábula e acionou o vigário.
Na primeira audiência, compareceram as partes e as testemunhas. Perguntou o juiz:
- Senhor vigário, este homem alega que lhe deu quinhentos mil réis para guardar. É
falso?
- Num é mentira não, sô dotô. Era uma nova nova, cum aqueles oião grande, grande!
Um fazendeiro, amigo do vigário, a fim de poupar-lhe incômodos, interveio, dirigindo-se
ao preto:
- Onde é que você está com a cabeça, homem? Você não deu os quinhentos mil réis pro
padre guardar. Você deu os quinhentos mil réis foi pra mim guardar.
Não sinhô! Esses foi outros quinhento mil réis. Depois num vá querê negá
também, uai!
Bibliografia
Autor de vários livros colaborador em diversos jornais, tem contos adaptados para o
cinema além de ele mesmo ter realizado filmes. Cornélio Pires afora os livros fez um
pouco de tudo. A relação de seus livros é a seguinte:
Musa caipira editado em São Paulo, em 1910 pela
livraria Magalhães. Com 95 páginas este primeiro livro de Cornélio contém algumas
produções em dialeto paulista e um glossário com a significação de algumas palavras
deste dialeto.
O monturo - editado em São Paulo em 1911 por Pocai &
Weiss. Este poema de 22 páginas com ilustrações de Oswaldo Pinheiro e caricaturas de
Voltolino foi considerado fraco pelos críticos.
Versos - de 1912, e editado pela Empresa Gráfica Moderna. Esse
livro, na realidade era, em parte, reedição de Musa caipira, tendo de material
inédito Versos velhos e Cenas e paisagens da minha terra.
Tragédia cabocla - existem controvérsias sobre a data e local
de publicação deste livro. Entretanto tudo parece indicar que Tragédia cabocla
foi publicado em 1914 na cidade de Piracicaba, SP, e republicado com o título Risos e
lágrimas no livro Só rindo, de 1934.
Quem conta um conto São Paulo, 1916, impresso na
Seção de Obras de O Estado de São Paulo. Ao que tudo indica esta edição foi
custeada pelo próprio Cornélio. Livro de contos, poucas pessoas tinham apesar de terem
saídos apenas seis edições desse livro. Interessante que nele, Cornélio narra em um
conto autobiográfico Um pedaço da vida do poeta Tibúrcio, os seus amores com
Belinha, mulher por quem se apaixonou.
Cenas e paisagens da minha terra editado em 1921 por
Monteiro Lobato & Cia. Editores. Contém nas suas 183 páginas tudo o que Cornélio
havia, anteriormente, publicado em versos.
Conversas ao pé do fogo de 1921 pela tipografia
Piratininga, 252 páginas. Subtítulo: Páginas regionais, estudinhos, costumes,
contos, anedotas, cenas de escravidão. Considerado um dos melhore e mais importantes
livros de Cornélio Pires, pois nele, o autor se utiliza de vasto material acumulado em
anos de pesquisa pessoal para estudar e classificar o caipira.
As estrambóticas aventuras do Joaquim Bentinho Imprensa
metodista 1924, 219 páginas ilustradas com tiragm ( 1ª edição) de 3.000
exemplares. Joaquim Bentinho, personagem mentirosa cheia de patacoadas ainda hoje
protagoniza no interior de São Paulo, histórias e causos, principalmente aqueles
contatos pelos mais velhos.
Patacoadas, anedotas, simplicidade e astúcia de caipiras (com
"algumas" de estrangeiros) de 1926, sendo depositária a Livraria Alves, São
Paulo 226 páginas. Este livro apresenta altos e baixos mas tem historietas engraçadas ao
lado de outras roubadas anedotas universal.
Seleta caipira Irmãos Ferraz, São Paulo, 156 páginas.
Seleta é composta de transcrições, recursos que iria utilizar muito o folclorista nas
décadas de 1930 e 1940, um deles: fez este trabalho às pressas, apenas para usufruir a
celebridade da qual então era alvo.
Almanaque dO Sacy editor, Cornélio Pires, 1927,
320 páginas. Impresso em papel jornal na seção de obras de O Estado de São Paulo.
Esse almanaque bem ao gosto do tempo, encerra anedotas caricaturas, charadas, palavras
cruzadas, enigmas, curiosidades, página feminina, seção infantil, informes
demográficos e históricos, seção de arte culinária e várias inscrições de
anúncios.
Mixórdia, anedotas e caipiradas Companhia Editora Nacional,
São Paulo, 1928, 271 páginas, esse livro contém várias anedotas de estrangeiro e
filhos de outros estados do Brasil; anedotas de pessoas de uma cidade ridicularizado
outras de outras cidades; historietas de caipiras; a longa novela Sacrificados e
o conto A assombração do major.
Continuação das estrambóticas aventuras de Joaquim Bentinho (o Queima-Campo)
Companhia Editora Nacional, 1929, 165 páginas. Nesse livro, Cornélio prossegue as
histórias com o personagem Loaquim Bentinho.
Tarrafadas - Companhia Editora Nacional. 1932, 185 p. Apenas um
trabalho desta obra tem mérito reconhecido: Poetas caipiras.
Sambas e cateretês Gráfica Editora Unitas Ltda., São
Paulo, 352 p., com o seguinte subtítulo: Folclore paulista. Modas de viola,
recortados quadrinhas, abeces etc... Considerado um dos mais importantes livros do
autor. É o único com pesquisa folclórica direta, produto de longos anos de observação
da sociedade caipira.
Chorando e rindo - de 1933, Companhia Editora Nacional, 255 p.
Subtítulo: Episódios e anedotas de guerra paulista. Devido a idade de Cornélio
Pires não participou como soldado da revolução de 1932. Colheu entretanto, depoimentos
e diários, anedotas, episódios trágicos ou alegres.
Só rindo Lançado em 1934 pela Editora Civilização
Brasileira, no Rio de Janeiro, 256 p. Livro fraco, quase fora da leitura pois Risos e
lágrimas já havia esgotado o assunto. A rigor salva-se nesse livro o bom adágio
"mulher, livros e cavalo não se empresta"....
Tá no bocó... anedotas colhidas escolhidas catadas e
adaptadas , variedades e curiosidades edição da Companhia Editora Nacional, 1934,
240 p. Livro ruim, praticamente fora da leitura e com o detalhe que as tiragens das
edições de Cornélio sempre altas, por volta dos dez mil exemplares começam a cair,
indicando que o autor, nessa época não tinha mais público para seu trabalho.
Quem conta um conto... e outros contos de 1934, Livraria
Liberdade. Simples reedição de Quem conta um conto... excluindo Implicância
e Um pedaço da vida do poeta Tibúrcio e trechos de Conversas, meu samburá e
Mixórdia.
Coisa doutro mundo - de 1944, edição pobre (a capa era
assinada por Belmonte). Esse livro relata algumas experiências sobrenaturais do autor que
estranhamente havia se tornado espírita. No mesmo esquema, em 1944 publica Onde
estás, ó morte?
Enciclopédias de anedotas e curiosidades 1º volume
(não saiu o segundo). Editora Cornélio Pires, São Paulo. Nessa época, Pires (com
fracasso do Onde estás, ó morte?) havia vendido os direitos autorais de toda
sua obra.
(DEFESA DA CULTURA NACIONAL, nº 3, 1984) |
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