Embora arranjadas para uso personalíssimo, existem parlendas que, às vezes, se popularizam à insistência com que os autores das mesmas as proferem: Em Parnaíba, no Piauí, um tipo popular apregoava ter sido levado à pia com nome de: "Feliciano Jerumenha de Carvalho Zamburetado, Nasceu Em Pé e Corre Deitado; Guariba Sobe O Macaco Desce, e Seu Água de Bom Poço, Logra Amores de Bom Gosto, Desprezado das Velhas e Querido das Moças, Tome Nota Quem Me Ouça!" Um preto velho cachaceiro, residente em Afonso Pena (Ceará) e de nome Pedro Celestino, não ingere a "água que-passarinho-não-bebe", sem que bravateie: "Eu me chamo é Cilistrino, corto grosso e aparo fino; siri de coco mancá, entrecasco de braúna, miolo de jatobá; estando em sala de home, bicho feroz não come; subo na torre mais alta, balanço a corda do sino, sou home, não sou menino; não ando com qué-qué-qué, não remo contra a maré, sou home, não sou muié!" Aqui mesmo, em Fortaleza, espevitado molecote, quando se lhe pergunta como se chama, retruca, de olho aceso e sem pestanejar: "Meu nome é Miguel Dia de Medeiro, Casimiro Coco, Manso Cordeiro da Paz, Alexandre da Capuba, comedor de mandioca puba, morador na Serra do Araripe, Papim Pareré, Timtim Blabu, negro danado, Desembargador de Oliveira, trás-zás nó grosso; brigador tombou, caiu trajou, vestiu; deitado é um porco e em pé um troco, comeu e engoliu o olho da pitomba!" Tem o nome de "Relaxos" essas parlapatices com que tipos populares costumam fazer sua espaventosa apresentação. E não há jeito de tais indivíduos se atrapalhaREm, quando desembestam na veloz dicção de semelhantes amontoados de disparates... (MOTA, Leonardo. Adagiário brasileiro.) **** CAMISETAS
Criança: De criar
PREGÕES DE MINHA TERRA
Se ferradura desse sorte, burro não puxava
carroça
Cair de cavalo magro (MOTA, Leonardo. Adagiário brasileiro.)
Quem não tem... NO MUNDO:
O guarda-chuva do padre Severiano |
OS CATIREIROS A venda do Severo, bem na entrada da ponte do córrego da Lage, era o ponto obrigatório das catiradas. Trocavam de tudo: arreio velho por galinha choca, dia de serviço por lata de banha, porco por cavalo e assim por diante. Qualquer um desencravava de qualquer coisa. Uns sempre mais espertinhos que os outros. Tucão e sô Zeca Clemente eram os mais respeitados e velhacos. Ninguém viu ou ouviu dizer que os dois cruzassem uma catira. Diziam que se respeitavam muito entre si. Os dois tinham medo de levar manta um do outro e ficarem mal afamados, pois aí um ia sair esparramando pra todo mundo que o outro havia levado a pior... Certa quadra o Tucão comprou a preço de galinha morta uma égua baia troteira, velha e cheia de pisaduras. O animal já era conhecido de todos. O catireiro não tinha como passar o animal pra frente. Ninguém queria. Foi então à cidade, comprou tinta preta e barro de cerâmica e arranjou um pouco de óleo queimado na oficina. Chegando em casa, colocou os ingredientes no pilão e socou até ficarem bem misturados. Buscou a égua, pegou um baita pincel e pintou o animal. Ficou pretinha, pretinha. Amarrou a criação no poste do curral e deixou-a passar o dia exposta ao sol. Quando o dia ia acabando, montou no seu cavalo de estimação e foi puxando pelo cabresto a égua pintada rumo à venda do Severo. Era noite quando chegou. Apeou do cavalo, cumprimentou a todos e foi logo dizendo: - Hoje eu tenho esta égua pra breganhá numa outra coisa qualquer. Este animal é de boa procedência, neta do cavalo pampa do Zé Maricota. Boa de cela, marchadeira, só teve uma muda e é mansa de coçar! O Ocride do Cornélio, catireiro principiante, interessou-se pelo negócio e foi fazendo uma oferta: - Tucão, te dou dois garrotes da mesma era pela égua! - Qual é a era? - Dois e meio! Tucão matutou, matutou e catimbou: - Quero treis garrote. Se não, num tem negócio! - Não! Só dou dois e pronto! Ora, a égua não valia nem um garrote. O iniciado estava levando uma manta medonha. Tucão não perdeu tempo. Calou a boca, coçou o bigode e perguntou: - Cadê os garrotes? - Tão aqui, amarrados no pau de aroeira! Levaram um lampião a querosene. Tucão olhou, agradou e disse: - Ocride, tá feito o negócio! Leve a égua que eu levo os garrotes! Daí a pouco o céu estrelado foi desaparecendo e São Pedro foi avisando: relâmpagos e trovoadas. Ocride montou no seu cavalo, pegou a égua pelo cabresto e se mandou pra casa. Mal acabara de chegar e soltar os animais, São Pedro abriu as torneiras do alto. Foi quase um dilúvio. No outro dia, manhã beleza, pássaros cantando, céu azul. Ocride e mulher despertam. O entusiasmo era grande, não se conteve mais e disse: - Muié do céu! Só cê vendo a manta medonha que passei no veiaco do Tucão! - Divera? - Divera, sá! Escalavrei o home! Breganhei aqueles dois garrote incroados numa égua neta do pampa do Zé Maricota! Vou fazê a cruza da égua com o dourado e o fiote vai valer uma bufunfa doida. Vô lá no pasto buscar o animal pra ocê vê qui tetéia! Chegando ao pasto chamou: - Cá... cá... cá... vem... vem... vem... Os animais foram se chegando. E para espanto do catireiro, cadê a égua? Sumiu? Roubaram? Quando ele observou direito, viu que tinha no meio da tropa uma égua meio preta e meio baia. A chuva lavara a pintura do animal. Ocride ficou furioso. Arriou um animal e correu pra casa do Tucão. Lá chegando encontra o careca narigudo com um pito grosso de palha, escumando no canto da boca. - Que que foi, Ocride? Apêia! - Não! Só vim desmanchá o negócio! Ocê me enganou! Pintou a égua! E ainda mais ela é véia, pisada e troteira! Vô levá os garrote e ocê busca a égua! - Não senhor! Negócio é negócio! O mundo é dos mais sabidos. Não dizem que dinheiro de trouxa é matula de malandro? O aprendiz de catiras ficou com medo do Tucão. Deu um golpeado na rédea, virou o cavalo e voltou para casa. No caminho foi matutando sobre como se vingar do velhaco catireiro. Lembrou-se do sô Zeca Clemente, o outro catireiro velhaco e espertalhão. Ocride mudou a rota e foi parar na fazenda do velho Zeca. De longe o velho avistou o visitante e foi esperá-lo na sombra do pé de cedro. - Bom dia, sô Zeca! - Bom dia! Pra dentro! - Cumo vão as coisas, seu Zeca? - Vão remando, mais pro lado da perrenguesa!... - Tá doente? - Uai, sô, tô numa remeleira, num toçume e numa catarreira danada! E ainda pru riba meti a pataca do juêio na cadeira. Tá cum inchume danado! Mas deixando de lado a queixança, o que trais ocê na minha casa? - É sobre aquele desgraçado do Tucão! Aí Ocride relatou o acontecido para o velho Zeca. - E antão Ocride? Qui qué qui eu faça? - Quiria quiocê me vingasse passano uma manta nele! - Pelo que vejo, ocê quer que eu repasse a égua nele? - É isso aí, sô Zeca! - Ocê ainda tá muito verde em negócios. Nem pensar em égua. Tenho um plano. Ocê guarda segredo? - Icha! Garanto levá no caixão! - Antão vô te contá a tramóia que vou tentá fazê. Tenho uma porca, comedeira de pinto. Não há galinha que agüenta chocar pintinhos pra diaba comer. Vô tentar passar ela no Tucão. Combinado? - Combinado! No outro dia o Tucão recebe um convite do seu Zeca para ir até à casa dele. Convite aceito teve que cavalgar duas léguas para chegar à casa do velho Zeca. - Vamo apiá, Tucão! - O que quiocê tem pra breganhar? Gaguejando e chupando os beiços, ele respondeu: - Tenho cavalo, tenho bezerros, tenho roda de fiar, tenho monjolo dágua e tenho uma porca criadeira pra fazê inveja em quarqué fio de Deus! - Óia, Zeca, só me interessa a porca se ela não for comedeira de pinto! - Ocê tá ficando doido? Isso eu te garanto! Nas minhas mãos ela nunca comeu pinto! - Verdade? - Pura verdade! - Se eu ti comprar ela ocê garante que nas suas mãos ela nunca comeu pintos? - Garanto! - Quanto quer na porca? - 450 réis. - Não posso! - Quanto ocê dá? - 400 réis! - Negócio feito. Dinheiro pra cá, porca pra lá! Sô Zeca recebeu o dinheiro e se encarregou de entregar a criação na casa do comprador. Alguns dias depois volta o Tucão à casa do velho Zeca. Não quis apear do animal e foi gritando: - Ô Zeca! Vem cá! O velho chegou no alpendre com a cara bem lerda e disse: - Apêia, uai! - Seu velho mentiroso! Ocê me garantiu que a porca nunca tinha comido pinto nas suas mãos! E lá em casa ela fez uma dirriça! - E por acaso eu menti? Sô Zeca fitou o colega, esticou os braços, abriu as mãos e falou: - Óia bem aqui: nestas minhas mãos ela nunca comeu pintinhos! O velho, depois de fingir estar nervoso, voltou à calma e completou: - Dinheiro de trouxa é matula de malandro. Aqui se faz, aqui se paga! (Eurico de Andrade é autor do livro Nós Sofre Mais Goza - Causos de Minas, e colabora com a Jangada Brasil) |
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