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Outubro 2000
Ano III - nº 26

A RESPEITO DOS CORAÇÕES

Na esplêndida exposição organizada pelo nosso brilhante confrade Vítor Peluso Júnior e que foi um dos maiores atrativos do Primeiro Congresso Catarinense de História, em a seção do folclore puderam os visitantes apreciar vários exemplares de Corações que foram recolhidos graças a iniciativa do eminente e douto Presidente do Congresso, o senhor desembargador Henrique da Silva Fontes.

Este nosso digno e ilustre confrade tem sido, em nosso meio, o maior pesquisador no terreno dos Corações, hoje já quase desaparecido em Santa Catarina, pelo menos nos meios urbanos.

Corações, também conhecidos por Pão por Deus, são curiosas mensagens feitas de papel multicor, recortado em caprichosas filigranas e pacientes rendilhados, alguns até demandando paciência e habilidade para abri-los.

No interior, em uma ou duas quadrinhas, o remetente solicita ao destinatário um Pão por Deus, uma dádiva qualquer.

Segundo opinião unânime dos que ainda se recordam dos tempos em que a circulação de tais mensagens era grande, as mesmas eram enviadas nos meses de outubro e novembro, ficando o destinatário na obrigação de enviar até o Natal uma oferta ao remetente.

No Mercado Público de Florianópolis, há muitos anos, em alguns tabuleiros, eu mesmo vi, expostos à venda, numerosos Pão por Deus, recordados pelas mãos hábeis das nossas caboclinhas dos sítios próximos ou pelas velhas senhoras que pacientemente se davam, na sua humildade, ao trabalho de confeccioná-los, vendendo-o por alguns níqueis aos namorados que andavam a cubiçar lembranças das suas eleitas.

Depois, com o passar do tempo, tornando-se desnecessários, à vista da ação direta, mais eficiente, estes meios epistolares usados pela gente humilde da nossa terra foram desaparecendo.

Mas, havia naqueles modestos escrínios de papel colorido, muita quadrinha bonita e sentimental, muito verso bem feito e muito perfume da alma popular, que constitui a preocupação do professor Henrique Fontes recolher, para perpetuar num estudo completo esta modalidade da nossa poesia folclórica. E, em colecionando-as, também vai recolhendo estes corações de papel que já fizeram pulsar tantos corações de verdade, em palpitações de amor e esperança, exemplares que ainda não foram destruídos pelo tempo nem pelos que julgam que aquilo... coisa sem importância.

Com aquela minúcia e com aquela exatidão que costuma colocar em todos os seus trabalhos intelectuais, no dia em que surgir a sua monografia sobre os Corações em que eles serão estudados na sua morfologia e no seu conteúdo, estarão os mesmos definitivamente incorporados ao nosso folclore.

A nós, entretanto, importa aqui apresentar ao eminente amigo e mestre, como achegas ao seu estudo, alguns dados que buscamos colher sobre as origens dos Corações e dos Pão por Deus.

Dois açorianos estiveram em Santa Catarina por ocasião dos festejos bicentenários do seu povoamento: - o engenheiro Euclides Rosa, faialense, expondo as suas magníficas miniaturas executadas em polpa de figueira, e o senhor Luiz Leal do Amaral, terceirense, que, com o seu irmão Alexandre Amaral acompanharam com grande carinho as manifestações que aqui se realizavam em honra dos nossos comuns antepassados.

Nenhum dos dois conhecia os corações. Não tinham conhecimento de que no arquipélago se fizessem tais pedidos de brindes, de dádivas, de esportulas ou de beijos, em retalhos de papel colorido, através de quadrinhas.

Será que no arquipélago açoriano desapareceu o costume, ou nunca existiu , tal como em Santa Catarina ?

Permanece a incógnita. Porque, se os corações não vieram dos Açores, o Pão por Deus veio de lá, com a mais absoluta certeza. Não só de lá como também do arquipélago da Madeira...

Levamos à afirmativa esta referência curiosa, feita pelo padre Antônio Cordeiro, na sua História insulana, em tratando do padre doutor Gaspar Frutuoso:

"Em dia que o vulgo chama de finados veio da sua igreja tanto pão de ofertas para a casa de seu pároco doutor, que é fama concorre o grande número de pobres, e maior ainda de meninos, dizendo (como costumam) pão por Deus, etc.... e pondo-se o doutor por si mesmo a repartir-lhes o pão, chegou a dar-lhes o próprio que tinha para jantar, e a ficar sem pão à mesa, e casa; o que vendo um seu cunhado, nobre hóspede, enfadado disse, que muitos daqueles o enganavam e não eram pobres; e responde o doutor: Pedem por amor de Deus, se me engano, deixai-me enganar por amor de Deus…"

É bem verdade que nenhum dos modernos autores açorianos que tenho compulsado faz referência ao Pão por Deus, muito menos a Corações - o que leva a crer que o antigo costume entrou em desuso e desapareceu totalmente das ilhas, o que vem confirmar o depoimento oral dos dois ilustres ilhéus que nos visitaram.

Entretanto, no arquipélago madeirense ainda subsiste o costume, tal como o descreveu, nas poucas linhas atrás reproduzidas, o padre Cordeiro.

Assim é que, Maria de Lourdes de Oliveira Monteiro, em seu excelente trabalho intitulado Porto Santo; monografia lingüística, etnográfica e folclórica, Revista Portuguesa de Filologia, v. II, t. I e II, p. 76, 1948, faz referência ao Pão por Deus:

"No primeiro de novembro, acorda o Porto Santo sobressaltado, ouvindo ao longe uma toada lenta:

Pão por Deus,
Fiel de Deus,
Bolinho no saco,
Andai com Deus.

Manhã cedo, ainda o sol não rompeu, e já a preguiçosa ilha é obrigada a abrir os olhos e a saltar da cama, atenta ao

Pão por Deus,
Fiel de Deus,
Bolinho no saco,
Andai com Deus.

Um bando de crianças de ambos os sexos, garotos de meio palmo, de todos os cantos da ilha, vem de porta em porta, cantando nas suas vozitas friorentas e ensonadas:

Pão por Deus,
Fiel de Deus,…

às vezes precisas para acordar o dono da casa. E só seguem quando alguma fruta, passas ou tremoços lhe caiu no saquitel de trapos."

Ora, pontos de contato entre este costume e o que existiu até bem pouco tempo em Santa Catarina, e que ainda existe em alguns recantos da nossa ilha, segundo estou informado, estão a indicar que foi de lá, dos dois arquipélagos, que ele nos veio, sofrendo aqui modificações, alterava intenção, sem destruir, entretanto, o fio que o liga a sua origem.

Crispim Mira (Terra catarinense, p. 15) informa que o "o Coração obriga a um presente, de 1 de novembro em diante, e esse presente tem o nome de Pão por Deus."

Plácido Gomes, em recente artigo sobre o Pão por Deus(A Notícia, transcrito neste número do nosso Boletim) diz que "foi costume de muitos anos em Joinville dirigir-se a alguém uma missiva, solicitando presente de festas. Cumpria-se esse ato em Novembro."

Lucas Boiteux diz-nos que "o Pão por Deus é uma herança açoriana" e que "o pedido do Pão por Deus começa geralmente no dia do Corpo de Deus para terminar no dia de Finados (2 de novembro)". Achegas para o folclore catarinense - Tese ao 1o Congresso Catarinense de História.

É evidente que o Pão por Deus sofreu, com a viagem através do Atlântico e dos séculos que passaram, modificações que poderão ser assim resumidas:

1. quanto à época: lá, quer nas ilhas açorianas, quer no arquipélago da Madeira, o dia do peditório é o 1º de novembro, ou, então, o mais tarde, o dia 2, dia de Finados; aqui estas datas marcam o fim da temporada do peditório.

2. quanto às pessoas: lá são os meninos que pedem pão, guloseimas, etc.; aqui o costume foi modificado, passando os pedintes a ter qualquer idade e o objeto do pedido qualquer outra coisa, até mesmo amor...

3. quanto ao modo de fazer o pedido: lá as cantorias infantis ou as solicitações amorosas. Em outras palavras: lá, a solicitação oral; aqui escrita, e, com esta, a invenção da missiva simbólica.

Não obstante a transformação por que veio a passar o costume, conservou, entretanto: o nome e a época do pedido.

A adoção do coração, assim, teria sido verificada em época posterior, numa nova fase evolutiva por que veio a passar o costume, conservou, entretanto: o nome e a época do pedido.

A adoção do coração, assim, teria sido verificada em época posterior, numa nova fase evolutiva por que veio a passar o costume. Dependeu do estado d’alma do missivista enamorado e do acanhamento frente a eleita que o incapacitava de obter diretamente a resposta almejada.

Daí a missiva curta, numa quadrinha ingênua, pedindo a dádiva do seu amor. Um coração, recortado de papel de cor acetinado, um escrínio não menos ingênuo mas com um certo cunho artístico, rudimentar, embora. Não dizia tudo?

Além do mais há a referir que estas missivas foram conhecidas exclusivamente nas zonas de influência açoriana e madeirense. São Francisco e Joinville sofreram influência da vizinhança. Mas, o uso nunca subiu a serra, ao que nos conste, nem foi adotado nas zonas de colonização alienígena.

Com estas notas queremos trazer a nossa modesta contribuição ao estudo deste sedutor tema folclórico em que se empenha o nosso consagrado mestre Henrique Fontes, a quem a oferecemos, neste mês de novembro, como um desataviado Pão por Deus, pedindo-lhe a dádiva da sua benevolência...


(CABRAL, Osvaldo R. A respeito dos corações e dos pão por deus. Em Boletim da …)

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