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AS VOZES DOS ANIMAIS

A complicada linguagem dos animais sempre foi motivo interessante para os entretenimentos da petizada sertaneja, ou para os gracejos picantes.

Os escravos, nas suas conversas com os "sinhozinhos". ao pé do fogão, procuravam initerpretar as vozes dos animais ou o gorjeio dos pássaros.

Também os avozinhos - inda hoje -, quando esgotavam o repertório das "Carochinhas" ou de "Pedro Malazarte", procuravam distrair os netinhos, interpretando esse linguajar da fauna nordestina.

As vozes dos animais que, segundo a tradição do presépio, assistiram ao nascimento de Jesus Cristo são interpretadas da seguinte forma:

O galo: - Jesus Cristo nasceu!

O boi: - Aonde?...

A ovelha: - Belém!...

O bode: - mata! mata! mata!...

O peru: - Logo! Logo! Logo!...

Se aparecem interpretações ingênuas, como esta do presépio, surgem, também, as interpretações maliciosas, imaginadas pelos humoristas populares.

Damos, a seguir, uma série dessas interpretações. Todas elas com sabor nitidamente popular.



DO JUMENTO

Quando o jumento orneja, está cantando a sua velha lição de ABC no estilo da escola antiga, fazendo uma pausa em cada uma das vogais, repetindo o "Y" em escala decrescente:

A... E... I... O... U.... Ipisilone... ipisilone... i-p-i-s-i-l-o-n-e.


DO CAVALO


O cavalo é o velho "esculápio" que de tal maneira se especializou em doenças renais, que o seu diagnóstico é invariável: - Rim.., rim.., rim!

Descobrem, também, algumas expressões no ruído das patas dos sendeiros. Certa vez, um ladrão de cavalo recolhido à cadeia pública de Simão Dias, disse-nos, cinicamente, que, na gíria dos malandros de sua classe, se conhecia a mensagem dos cascos dos cavalos roubados. Alguns, na cadência do galope, diziam claramente: - Prá cadeia... prá cadeia... pra cadeia... Outros, então, assegurando a impunidade, diziam com os pés: - Cem mil réis... cem mil ....... cem mil réis... (carceragem).


DO PORCO

Cioso de sua capacidade de fecundar, o porco vai, com a paciência de um velho matemático, contando um a um os futuros brotos que aumentarão sua já numerosa prole: - Um... um.. um... um... E parece não ter fim...


DO PERU


Presumido e pedante, o peru passeia de peito empolado, arrastando as asas em torno de uma balzaquiana até que manifesta sua impaciência: - Logo... logo... logo...

 

DA PERUA

Partidária do pessimismo, achando que o mundo está irremediavelmente perdido, cada vez pior, por isso a perua canta esta canção que exprime sua desilusão: - pior... pior... pior... Daí os sertanejos dizerem comumente: vejo tudo isto ficando como a cantiga da perua...


DO BODE


Quando o lúbrico caprino procura seduzir uma velha cabra, ou mesmo uma jovem e inexperiente ‘‘marrã", solta o clássico espirro e promete uma compensação na base do antigo padrão colonial:

- Três patacas... três patacas...


DO CARNEIRO

O carneiro, que não compreende o amor ligado à pecúnia. como é entendido pelo capcioso bode, faz o seu galanteio num misto de moderaçao e paciência: - Que me dá... me dê logo...

O cabritinho. que traz consigo uma pontinha natural de interesse, acha que deve haver patacas em tudo isso, e aconselha
- Não dê não, mamãe!...


DO GATO

A gata, traiçoeira e escandalosa que é, começa a chamar o gato com voz doce e "R" brando: - Romão!... Romão!..

O Romão, cauteloso, inimigo de escândalos, procura despistar, dirigindo-se mansamente, fazendo da cauda leme, e pergunta: - mingau?... mingau?...

Ouve-se então, em contraste com tanta mansidão, um escandaloso grito: - rasga, diabo!...


DA GALINHA

Preocupada porque lhe falta uma preciosa peça no seu enxoval, e já às vésperas de delivrar, a galinha se lamenta repetidamente: Tô pondo, tô pondo... e não tenho sapato!...

O velho galo, assoberbado de compromissos dessa natureza, sendo inúmeros os enxovais prometidos, procura desculpar-se com esta interrogação: - Sou sapateiro?!... Sou sapateiro?!...


DO PINTO

O jovem pinto, preocupado com o asseio geral, desce cedo do poleiro para revistar o terreiro. Ao encontrar os sinais evidentes de uma necessidade fisiológica da avozinha, grita irritadiço: - Quem sujou aqui?!...


DA ARAQUÃ

A araquã, que considera o caçador um reles quebra-faca do dono dos matos, por isso o insulta constantemente: - Quebra-faca!... Quebra-faca!... Quebra-faca!


DO SOFRÊ (CURRUPIÃO)

Quando domesticado, o sofrê torna-se resignado com a sorte e aprende, na prisão, com muita facilidade, uma variedade de músicas populares. No mato, porém em liberdade, vive numa eterna lamentação: - Sofrer!... Sofrer!... Sofrer!... Sofrer.. sofre... Sofre... Daí o nome, "sofrê".


DA GALINHA D’ANGOLA (GUINÉ)

A galinha d’angola, conhecida em Sergipe por ‘‘guiné", vive constantemente a propalar sua falta de nutrição: Tô fraco!... tô fraco!... tô fraco...


DA PERDIZ (NAMPUPÉ)

A perdiz, revelando imenso amor materno, preocupada com as batidas dos caçadores cruéis, não se cansa de prevenir ao filhote inexperiente: - Luiz, corre meu filho!...


DO ASSANHAÇO

O assanhaço, que é muito franco e de poucas conversas, resolve logo a "parada", dizendo: - Se quis, quis... se não quis, não quis!.., por isso...


DO BEM-TE-VI

O bem-te-vi, que vive espreitando os outros pássaros nos seus colóquios amorosos, bota a boca no mundo, alarmando: - Bem-te-vi!... Bem te vi!...


DO CABEÇA VERMELHA (CARDEAL)

O cabeça vermelha, sempre irritadiço, grita: - Arre lá... com todos os diabos!... diabos!...


DO DICURI-SEU-CHICO

O dicuri-seu-chico, também conhecido por "Jesus-meu-Deus", eternamente faminto como um flagelado nordestino, faz aos transeuntes esta pergunta pungente: - Traz farinha aí?...

Em outra interpretação, esta exclamação piedosa do mimoso passarinho:

- Jesus meu Deus!... Deus!...

DA LAVANDEIRA

A lavandeira, que é o passarinho sagrado porque lavou a roupa de Nossa Senhora, tem, no nordeste, o nome de "Lavandeira de Nossa Senhora". Até os meninos mais irrequietos respeitam a tradição e não perseguem a sagrada serva de Maria. A lavandeira canta sacudindo as asas e proclamando a sua qualidade de modesta operária da Mãe de Deus: - Lavandeira de Maria... Lavandeira de Maria...

DO TRÊS-POTES (SARACURA)

Preocupada com a falta de água no nordeste, sonhando com a fartura do precioso líquido, a saracura canta: Três potes e um coco!... um coco... um coco...

(Coco - vasilha de beber água, feita do endocarpo do coco)

DA CARRIÇA

A irrequieta carriça, ou "garrincha", no seu fraseado ligeiro, vai criticando a conduta de um seu compadre beberrão, dizendo apressadamente, em semicolcheia: - Meu compadre quando bebe escorrupicha!...


DA VIUVINHA (COLEIRA)

A viuvinha, que vive preocupada com a agulha e a linha, e para não se esquecer da maneira de enfiar, repete a lição que recebera da costureira: - Lamber, lamber... no furo meter...


DA ROLA

Preguiçosa, querendo se desculpar perante o esposo que chegou e não encontrou a refeição pronta, a rola repete melancolicamente: - Fogo apagou!... Fogo apagou!...


DA MÃE-DA-LUA

A "Mãe-da-lua" ou "Vó-da-lua", ave noturna, a despeito de sua avançada idade, de respeitável matrona que é, guarda ainda muita vaidade. Inconformada com a deformação dos seus pés, canta, compassadamente, esta lamentação que cena nas matas, na calada da noite: - Meus pés tão feios!...


DO ZABELÊ

O zabelê traz consigo a alma penada de um fazendeiro mau, que castigou severamente o humilde vaqueiro Estêvão, que não dera conta de uma rês sumida. Daí viver repetindo, na mata, este monótono estribilho: - Estêvão, cadê o boi?...


DO ANUM

O anum vive preocupado com sua abalada saúde: tanto mais porque sem recursos e sem amigos. Por isso, canta: - Um doente.., sem pão... sem dinheiro.., sem amigos... piora!... piora!... Piora!...


DA RÃ

É a alma penada de uma jovem escrava que morreu afogada no charco e, ainda hoje, pede socorro à sua sinhá dona que assistiu a tragédia com indiferentismo: - Sinhá!.. sinhá!... Sinhá!...


DO SAPO

O sapo cururu, maestro diretor de uma orquestra ensurdecedora, é, também, ator de ópera. Sola, em voz de baixo: - Quando eu morrer, quem vai ficar com minha mulher?... e o grande coro, composto de centenas de batráquios solteirões, responde: Eu... eu... eu.


DO URUBU

Também o urubu, por incrível que pareça, tem o seu gosto, tem o seu prato predileto. Gosta de vísceras. E é por isso que, quando se aproxima da carniça, vai logo perguntando, com esforço gutural: - É bucho?!...


DO ESPANTA-BOIADA

O espanta-boiada, também chamado de tem-tem ou quero-quero, a maior encarnação do queremismo sertanejo. Vive aos bandos nas malhadas das fazendas. Não dorme. Está sempre vigilante, pronto para dar o alarme quando, a qualquer hora da noite, se aproxima alguém da fazenda. O seu canto estridente: - Quero-quero!... quero-quero!...


DA SAITICA

Pássaro agoirento, diurno. O seu canto triste parece mesmo que anuncia uma morte, uma sepultura nova: - Buraco feito!... buraco feito!... ou então: - Defunto fresco!... Defunto fresco!... ou ainda: tá frito!... tá frito!...


DA RASGA-MORTALHA

Ave noturna, agoirenta. A sua voz lembra, perfeitamente, o ruído de uma tesoura cortando pano. Termina o canto com um estridente som que faz lembrar o rasgar de uma mortalha lutuosa. Daí a denominação popular adequada.


DA CAUÃ

Compenetrada de sua segurança, trepada no mais alto galho da floresta, a cauã se identifica, sem nenhum temor, gaguejando, alto e bom som, o seu nome - can-cauan... can-cauan... can-cauan...


DO FEITOR

O feitor é um pássaro madrugador. É o primeiro da passarada a se acordar. Cuida logo de despertar, com seu grito estridente, não apenas a passarada como também os trabalhadores do campo. Daí vem a sua denominação adequada: feitor. O seu canto e assim Feitor!... Feitor!... Feitor!...


(DEDA, Carvalho. Brefaias e burundangas do folclore sergipano)

 

VOZES DOS ANIMAIS,
VOZES PARA OS ANIMAIS

Chamamos vozes dos animais a imitação onomatopaica que fazemos de suas formas de expressão. Assim imita-se o mugido do boi, o ladrar do cão, etc. Vozes para os animais são as diversas maneiras tradicionais e regionais de os chamar, tocar ou tanger.

Ligada à cena bucólica que os presépios nos dão no ciclo natalino, é comum ouvir-se alguém arremedar onomatopaicamente as vozes dos animais aí colocados pelo tradicionalismo que o caipira paulista mantém, fazendo coro, sem o saber, com uma tradição universal.

Em Cunha registramos estas vozes dos animais: - O galo do céu cantou e o da terra que estava sobre a manjedoura também cantou: - Jesus nasceu! O boi, que pascia, perguntou com seu mugido: - Aoonde?! Um carneiro branco, com fitinha vermelha porque era do redil de São João Batista, respondeu: Em Belém! Um cabrito que pastava por ali, não acreditou e, zombando, berrou dizendo uma blasfêmia: ...

Há as vozes de animais ligadas aos contos geralmente bem imitadas pelos narradores de estórias. E em anedotas também. Conhecidíssima é do bem-te-vi que cantou justamente quando um português achou uma pataca logo que aqui desembarcou. Por ser honesto, o homem não a apanhou porque lá do galho mais alto de uma árvore, um turdus cantava: bem-te-vi...

Na área pastoril brasileira, nas suas regiões do campeiro, do boiadeiro ou do vaqueiro, há maneiras diferentes do homem dar vozes para os animais, principalmente para o gado bovino, ora tangendo, ora chamando. Não trataremos aqui do aboio porque é canto, apenas das vozes. Animais e aves, cada qual entende a "voz do dono". Às vezes essa voz é assobio.

Na região campeira paulista que não deixa de ter muita influência gaúcha por causa do tempo das tropas, estas vozes são as mais comuns.

- Passa! para cachorro sair; boca-boca ou um assobio rápido e entrecortado para vir. Quando é pequeno um estalido apenas dos lábios, o cãozinho atende.

- Pijuite, pijuite! para chamar o bichano e sair chite ou chispa!

- Prrruuu-qui-te-qui-te, para chamar as galinhas e chó... chô para despachá-las.

- Quióuuuu, quiduuu!! balançando o embornal com milho para chamar o cavalo no pasto e âra, â~ra para tocá-lo.

- Chicóuu, chicôuu para chamar o porco e isquê, isquâ para espantá-lo.

- Acôôôuuu, acôôôuuu! para chamar a vaca batendo-se no cocho onde se vai dar o sal.

E é com o papagaio que maior número de vozes damos e até conversamos: Dá cá o pé louro... Purrupaco-papaco... Louro?

Há várias interpretações dos cantos das aves: "Mariquinha, tiu, tiu", dizem que o tico-tico assim fala. Outros dizem que é: Maria, Maria já é dia, dia". E lá no mato, o sem-fim ou, saci para outros, assobia: sem-fim, sem-fim. O bicudo do norte: "pinte o cará, olhe o grigoite, panaciom, panaciom."


(Araújo, Alceu Maynard. Folclore nacional)

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