Ulisses Medeiros
Tradução para o português, dos principais nomes de cidades, locais, serras, lagoa e cachoeira do estado do Rio Grande do Sul, com os nomes próprios legados pelos nossos silvícolas, que aqui já viviam por ocasião do descobrimento desse imenso Brasil do qual chamavam de Pindorama — (Que será para as palmeiras), de pindó: palmeiras; rama: que será; entende-se como sendo terras das palmeiras, isto é, Brasil.
Lembro aos nossos prezados leitores, que sou apenas um entusiasta no estudo dos dialetos dos nossos aborígenes, com os quais já convivi em determinada fase da minha vida, vindo daí o pequeno cabedal prático que possuo do linguajar tupi-guarani, no qual por esforço próprio enriqueci com o estudo paciente e pertinaz através da pouca bibliografia existente sobre o assunto.
O objeto de despretencioso trabalho é dar conhecimento do verdadeiro significado dos inúmeros nomes, principalmente de locais, rios, serras, lagoas e cachoeiras, tendo em vista não só a sinonímia, como também as características de cada lugar e de cada região, admitindo entretanto o articulista contestação desde que o contestante seja conhecedor do assunto, e tenha objetivo elevado de uma crítica construtiva. Para atingir o objetivo supramencionado, lancei mãos dos dois principais ramos do tupi-guarani que são: o nheegatu (língua boa) de nheen: falar; e gatu, bem; e, o abanheenga (língua de índio) de abá: indígena; e, nheenga: falar.
A diferença entre esses dois dialetos dos nossos silvícolas é como se fosse do português e o espanhol.
Além de entusiasta dos principais dialetos acima mencionados, sou um grande admirador das velhas tradições, costumes, hábitos e querências do Rio Grande do Sul, quase no dizer do velho e inesquecível gaúcho dr. Antônio Augusto Borges de Medeiros: "O Rio Grande do Sul, pela sua posição geográfica e início de povoamento, saberá manter o equilíbrio da pátria brasileira pelo culto dos costumes e tradição constituindo sempre uma sentinela avançada do Brasil".
Cidades e vilas
Aratiba: (dia em abundância) de ara, dia; tiba, abundância; entende-se como sendo dia nas montanhas, devido a maior profundidade do horizonte.
Bagé: (feiticeiro) provém de pajé.
Catuípe: (água baixa e boa) de í, água; pé, baixa; catú, boa.
Cacequi: (água do feijão) de cumandá, feijão; í, água.
Chuí: (ave).
Itá: (pedra) esta palavra também é aplicada em ferro e alguns metais.
Itaqui: (gotas de pedra) de itá, pedra; quí, gotas; entende-se como sendo chuva de pedra de gelo.
Ijuí: (águas das rãs) de í, água; juí, rã.
Itaroquem: (amargura de uma pedra adormecida) de itá, pedra; ro, amargo; quera, dormir.
Itapoã: (pedra arredondada) de itá, pedra; poã, redondo; entende-se como se fosse uma rocha em forma de um prego.
Itacuruvi: (pedregulho) de itá, pedra; curu, cascalho; vi, terra; entende-se como sendo diversos tipos e formas de pedra sobre a terra.
Itaí: (pedra das águas) de itá, pedra; í, água.
Iviruba: (pai da terra) de iví, terra; ruba, pai.
Juruá: (bocado de fruta) de jurú, boca; á, fruta.
Jaguarí (poder do cão) de jaguá, cão; ri, poder.
Nhú-porá: (campo lindo) de nhu, campo; porá, lindo.
Panambi: (borboleta ou mariposa).
Piratini: (tremor de peixe) de pirá, peixe; tini, tremor.
Quaraí: (sol) de coaraci, mãe do dia, de co, este; ara, dia; ci, mãe; entende-se como sendo mãe do mundo, pela lógica deveria de ser pai do mundo, porém, não encontro meios para modificar.
Saicã: (fino transparente) de saí, fino; cã, transparente; entende-se como sendo uma coisa fina, seca e transparente.
Tucunduva: (zumbir do gafanhoto) de tucú, gafanhoto; nduva, zumbir.
Tuparandi: (irmã de Deus) de Tupã, Deus; rendi, irmã.
Tapejara: (dono do caminho) de tapé, caminho; jara, dono.
Taimbé: (dente afiado) de tain, dente; mbé, afiado.
Taquari: (cimo da taquara) de ri, cimo; taquara, planta oca, semelhante ao bambu.
Uruguaiana: (erva dos caracóis) de uruguá, caracol; iana, erva.
Rios
Butuí: (mutuca das águas) de butú, mutuca; i, água.
Caí: (macaco).
Chuí: (ave).
Guaíba: (local agitado) de guá, local; íba, agitado; entende-se como se fosse uma tempestade marinha.
Icamaquá: (água do seio da mama) de í, água; cama, seio; quã, mama.
Ibirapuitã: (madeira vermelha) de ibirá, madeira; puitã, vermelha; entende-se como sendo madeira cor de brasa, isto é pau-brasil.
Ivicuí: (areia) de iví, terra; cuí, moída.
Jacuí: (água do jacu) de jacú, pássaro; í, água.
Potiribu: (irmão do camarão) de
ribu, irmão; poti, camarão.
Cachoeira
Pirapó: (salto de peixe) de pirá, peixe; pó, saltar.
Lagoa
Itapeva: (laje) de itá, pedra; peva, chata.
Serras
Caverá: (cabeça que brilha) de acá, cabeça; verá, brilhar; entende-se como sendo um serro ou uma elevação de píncaro limpo e com alguma coisa brilhante.
Itapevi: (laje entreaberta) de itapé, laje; vi, entreaberta.