Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Abril 2005 - nº 77 - Ano VII


Sumário

Festança

Procissão de São Jorge
Thomas Ewbank

Dança de guerra dos tupinambás
Jean de Léry

A hospitalidade
José de Alencar

Cancioneiro

Peleja de Vicente Sabiá com Antônio Coqueiro
José Pacheco

A Rita Medeiros
Leonardo Mota

O folclore do papagaio
Zé Pingado

Imaginário

O roubo das flechas

A boiúna e o irapuru
Raimundo Morais

O castigo da ambição
Figueiredo Pimentel

Colher de Pau

Geribita
Getúlio César

Batizar o vinho e o leite...
Guilherme Santos Neves

As saúdes de mesa
José Calasans

Oficina

Melhoramento dos gados
Miguel Calmon du Pin e Almeida

Calendário mandioqueiro
Carlos Borges Schmidt

Os homens da massa e do pão
Hildegardes Viana

Palhoça

Engenho Velho
Daniel Parish Kidder

Cerâmica marajoara
L. de Castro Faria

Os tupinambás conheciam os astros e as estrelas
frei Claude d’Abbeville

Panacéia

Superstições e o cuco papa-lagartas
Eurico Santos

Os curandeiros indígenas
Otto Willi Ulrich

Doença produzida pelo ar
José Pimentel de Amorim

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Oficina
Textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

Melhoramento dos gados

Miguel Calmon du Pin e Almeida

O gado, diz varrão, é a base mais sólida da riqueza humana. E nada é mais exato. Do gado serve-se o homem, como de um instrumento eficaz para a conservação da sua vida; para o aumento dos seus cômodos; para a fruição dos seus prazeres; para a acumulação dos seus capitais; para a satisfação de suas paixões vaidosas; e até para a destruição dos outros homens, como na guerra! Tão escusado seria mostrar a necessidade que temos de bois, cavalos, carneiros, e outros gados; como se dissertássemos sobre a da luz, e do ar para quem vê e respira. Mas para que esta necessidade seja melhor satisfeita, menos dispendiosa e precária do que vai sendo entre nós; cumpre velar não só na conservação destes agentes vivos do trabalho do campo, senão no melhoramento das suas espécies e raças. E porque escrevo principalmente para os lavradores de canas, e senhores de engenhos, onde o serviço do gado vacum é mais usado e por ventura mais econômico, do que o do cavalar; falarei menos deste e tratarei mais daquele.

O cavalo é com efeito o mais nobre e generoso dos animais, que servem ao homem; mas por isso mesmo talvez , ele não se presta sem relutância a trabalhos mais pesados, e secundários. Parece que a historia gloriosa dos bucáfalos, dos babiecas, dos celias, e outros tem chegado ao seu conhecinento; pois sente-se visivelmente humilhado, quando em vez de carregar um Alexandre, é condenado a puxar um carro. E daí vem, que é sempre da raça mais abastardada e grosseira o cavalo que na Europa se destina ao serviço do campo e transporte das mercadorias. Tanto assim, que os cavalos de carro na Inglaterra, Alemanha, e França parecem-se com os de sela, como as pinturas de Rafael com as de um artista comum.

Oferecendo ainda as circunstâncias do nosso país e o estado presente da nossa agricultura, grandes e insuperáveis obstáculos, para que possamos com estes animais fazer o mesmo serviço que com os bois; deixarei a quem viver em melhores tempos a tarefa de aconselhar o uso de cavalos para os trabalhos agrícolas entre nós. Para o o que é mister que, além do emprego de muitas máquinas que nos faltam, boas estradas se ramifiquem pelo nosso campo; e sejão mais roteadas as nossas terras; e mais se desenvolva e acrescente a nossa indústria geral. Não se conclua porém disso, que desaprovo a criação do gado cavalar: ao contrário, estou que fará bom negócio o proprietário que, tendo comodidade, não só trabalhar no melhoramento da raça tacanha dos nossos cavalos, pelo cruzamento da Europa, já aperfeiçoada; como também promover o aumento da raça híbrida, ou muar, que se tem diminuído consideravelmente nesta província. Para aquele melhoramento deve ser preferido o cavalo de sangue inglês, a mais subida raça que existe; e o proprietário que o quiser, sem expor-se à grande despesa (e mesmo embaraço legal) que exigiria o transporte de um garanhão da Inglaterra, poderá havê-lo no Rio de Janeiro, nos Estados Unidos, e no Cabo da Boa Esperança, onde há a mesma raça. E para este aumento, em falta de mulo espanbol, ou maltês, deve procurar-se algum de Buenos Aires, que é decididamente melhor do que o jumento panela de Portugal. Esta última especulação pôde ser tanto mais lucrativa, quanto não é de esperar, que tornem a vir bestas, como d’antes, das paragens do sul. O comércio entre Minas e São Paulo, e o Rio de Janeiro, feito por tropas de muares e elevado a um ponto colossal, há de necessariamente continuar a empregar toda a quantidade destes animais, que os sertões de São Paulo e Vacaria produzirem do futuro.

O boi, o mais sofredor e dócil dos animais, é também o mais necessário e útil ao homem do campo, senão ao homem em geral. Vantajoso para o serviço da lavoura e para o sustento humano, é prestante em vida e ainda depois de morto. Todo o desvelo empregado em melhorar a sua raça e torná-lo mais apto para o trabalho, mais vividor, e até mais volumoso e gordo, será pois amplamente retribuído pelo infalível ganho que dará ao lavrador. Duas raças mui distintas devemos melhorar — a de trabalho e a de leite. Chamo de trabalho, a malabar; e de leite a turina.

A malabar é sem dúvida alguma a raça que deve ser propagada no Brasil de preferência à européia, de que nos servimos ainda. Indígena da zona tórrida, afeito a um clima abrasador e úmido, o boi malabar dá-se melhor em nosso país que o de origem diversa. A experiência assim o tem provado. Além de ser mais forte e ativo para o serviço, conserva-se sempre nutrido, é mais vividor e menos sujeito a moléstiaa. Na episootia última, denominada mal-triste, o gado desta raça sofreu menos que o da outra; assim como resistiu com muito mais vigor à praga do carrapato; sendo pouco numerosos os exemplos dos que tivessem sucumbido. A reproducçâo dos malabares é também mais rápida do que a do gado europeu; sendo o parto temporão, além de comum, mui pouco nocivo, se por ventura o é, ao desenvolvimento físico e ao préstimo do animal. Uma novilha malabar dá à luz o seu primeiro filho antes de completar três anos e meio. É, enfim, o boi que a todos os respeitos mais nos convém para a lavoura; e deve ser tão estimado entre nós como o é entre os bírmans o elefante branco, pois se este é na Índia o símbolo da soberania, aquele em nosso clima é o da riqueza agrícola. Pena foi, portanto, que os nossos maiores senhores da África Oriental e da Índia tendo a facilidade e oportunidade que então lhes ofereciam as frotas, e um ativo comércio, não tivessem introduzido no Brasil esta raça preciosa que, aliás, eles conheciam e admiravam. Na ilha de São Lourenço, diz Diogo do Couto, há boi tamanho como dois do Além-Tejo, e com um mamilo sobre a canga, que é coisa façanhosa.

A uma mero acaso, porém, devemos a introdução deste gado, há pouco mais de vinte anos. Um navio chegado do Malabar aqui largou um casal; e reconhecido o seu préstimo, ou só por curiosidade, outros se encomendaram, e raros chegaram salvos. Infelizmente a descendência destes, por falta do cuidado preciso, acha-se em geral já quase escondida na raça européia. Mestiço há que mal tem um oitavo de sangue malabar; e todavia é preferível a qualquer outro novilho. Posso dizer, que à exceção do nosso ilustre consócio, o sr. Bahiana (a quem devemos, graças ao seu zelo e ardor pelos melhoramentos da nossa agricultura, a introdução da raça colossal dos bois de pagode, a conservação da dos carneiros merinós etc.) ninguém mais conserva indivíduo algum que tenha três quartos, ou ainda metade do indígena malabar. É pois de absoluta necessidade, para restaurar-se esta boa raça e propagá-la geralmente, mandar vir alguns casais de Bombaim, se houver oportunidade, ou de Madagascar (que é a ilha de São Lourenço que fala Couto), ou mesmo de Moçambique, que lhe fica defronte. Valia a pena talvez, como foi-me lembrado no Rio de Janeiro, que alguns proprietários se reunissem e fizessem uma especulação para aquella ilha, remetendo milho e arroz, que ali são de pronto consumo, para haver em retorno alguns garrotes e novilhas da casta malabar. Enfim, depois de haver prestado muito serviço, o boi malabar, por isso que se conserva sempre mais luzido e gordo, é melhor reputado para o açougue. E se a vaca desta raça fora leiteira, quase nada faltaria para que pudéssemos dizer só deste, o que diz Varrão do complexo de todos os gados.

A raça turina, originária da Lombardia e Piemonte, de cuja capital (Turim) lhe provém o nome, acha-se aclimatada na Suíça, onde aliás degenera se não é renovada de quando em quando; está muito aperfeiçoada no Holstein, na Holanda e na Grã-Bretanha; e já é boa na França e outros países da Europa. Chama-se por excelência a raça de leite e também presta-se ao trabalho com muita vantagem onde não há calor excessivo. Alguns casais temos deste gado, mormente nas cidades; e o comércio vai introduzindo cada dia um bom número de vacas [1]. De Hamburgo e França tem vindo a maior parte dos turinos que possuímos; mas cumpre advertir aos especuladores, que mais vale tirar hoje esta raça de Portugal, e Gênova, do que ir procurá-la nos portos do Norte. Dá-se melhor ao clima dos trópicos o animal vindo dos países mais temperados da Europa Meridional, do que o trazido de salto da terra dos gelos para a dos ardores. A vaca turina, transportada de Lisboa para qualquer ponto do Brasil, pouco sente a mudança, é menos doentia, conserva-se mais nutrida, dá leite por mais tempo, e é mais fecunda do que a de Hamburgo. É observação feita no Rio de Janeiro e não desmentida aqui.

Logo que se aumente mais, como é de esperar, a excelente criação desta raça, formada por touros e vacas das melhores origens; assim como a ótima caudelaria, composta de cavalos de sangue ingleses, e éguas de Holstein, Friza e das Pampas de Buenos Aires; estabelecidas, uma e outra, pelo nosso ilustre consócio o sr. George March, na sua fazenda da Nova Caledônia, ou Santa Ana do Paquequé, na serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro; poderemos haver dali, sem cruzar o oceano Atlântico, garrotes e vitelas turinas, e potros magníficos, tanto milhares, do que os importados da Europa, quanto reúnem à bondade de raça igual em perfeição, a preciosa qualidade de nascidos no país, que são, como é notório, menos expostos à moléstias.

Os carneiros da raça merina podem prosperar entre nós, como o demonstra a primeira Memória do nos ilustre presidente; e a sua tão acreditada lã, que, pela amenidade constante do nosso clima, deve ser quase toda exportada; aumentará consideravelmente a nossa riqueza agrícola. As caas do Tibete, já propagadas em França, e que dão-se bem no meio-dia daquele país, talvez possão ser aclimatadas no Brasil, e enriquecer com nais um produto estimado a nossa indústria rural. Os carneiros peruvianos, chamados de cinco quartos; e os de pêlo curto da Costa da África podem ser igualmente criados com decidida vantagem. Estas raças, mormente a segunda, apresentam indivíduos volumosos e a sua carne é excelente para o açougue.

Recorrendo a estes arbítrios, ou esmerando-se em criar e melhorar as diferentes raças de gados, o senhor de engenho, em geral farto de terras, acha um verdadeiro e valioso recurso contra o futuro que nos ameaça.

[1834]

 

Nota

1. A introdução da raça turina na Bahia foi feita há trinta anos, pelo nosso ilustre e erudito compatriota o padre Francisco Agostinho Gomes; e nesta ocasião aproveito para render-lhe por este bom serviço o agradecimento dos lavradores, e juntamente o meu particular tributo de estima e respeito pelos seus talentos.

(Almeida, Miguel Calmon du Pin e. Ensaio sobre o fabrico do açúcar [edição facsimilar]. Salvador, Federação das Indústrias do Estado da Bahia, 2002, p.81-88 (Documentos históricos, 1))
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