Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Junho 2005 - nº 79 - Ano VII


Sumário

Festança

Danças populares do Vale do Paraíba
Ruth Guimarães

São Pedro no Boqueirão
Daniel Bicudo

O São João da minha terra
Jorge Ramos

Cancioneiro

A revolta do Arari — União da Liberdade

Fragmentos do ABC de Ana Freire de Brito

Ligeira de Severino Perigo

Imaginário

História de um pintinho
Figueiredo Pimentel

Aventuras de um jabuti
Figueiredo Pimentel

Histórias de onças
Gustavo Barroso

Colher de Pau

O velho mercado, no Rio de Janeiro
João do Rio

Jantar e debulha de milho
Robert Walsh

Alguns quitutes e bebidas das festas juninas
Jamile Japur

Oficina

Índios inspiram baianos nas cerâmicas de Maragojipinho

Dona Sebastiana é caiçara de muita arte

Aparece nova indústria artesanal em São Paulo: a de bonecas artísticas

Palhoça

Formalidades
Júlia Lopes de Almeida

Tamancos que não mais se vêem...
Flávio Guerra

Folclore das profissões
João Chiarini

Panacéia

Ladainha de São João no Guaçuí
Renato Pacheco

Amor e sonho no São João
Veríssimo de Melo

Pão dos pobres e lírios de Santo Antônio

Veja o que foi publicado em Palhoça
Apoio Cultural
Simplicitate Design

Veja como sua empresa pode apoiar a nossa iniciativa.

Palhoça
Textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...

Tamancos que não mais se vêem...

Flávio Guerra

Hou tempo no Recife, até uns quarenta anos passados, em que os tamancos de madeira tiveram uma grand eimportância na vida da cidade. Na rua Direita, esquina com o beco de São Pedro, na rua de Hortas e em Santo Amaro haviam grandes fábricas desse artefato de uso principalmente doméstico, intitulando-se a segunda, ela própria, imodestamente, como "importante e muito produtiva", acrescentando haver no estabelecimento um enorme sortimento de tamancos tanto para homens como meninos e mulheres, "tanto para o mato como para a praça".

O tamanco, em Portugal, de onde veio, ainda é chamado de tamancas, passando a masculino ao chegar ao Brasil. Um calçado grosseiro, feito de um só pedaço de madeira como solado e tiras de couro por cima para amoldá-lo e prender nos pés. Não houvera chegado ainda a era dos plásticos com as suas sandálias, e por isso, no tempo invernoso, ou nas ruas lamacentas da velha cidade e no massapé dos engenhos-banguês era muito comum usar-se o tamanco, que não deixava passar a menor umidade. O solado dos chinelos comuns, por mais grossa e resistente que fosse a sola, em pouco tempo dentro da água embebia-se e tornava-se mole e úmido. Não raro estava-se ouvindo dentro das residências:

— Tome cuidado, menino, que você se resfria. Calce o tamanco...

Não havia desdouro no seu uso. Tanto era utilizado na casa modesta do velho Recife, como no sobrado esguio ou no palacete do comendador. Tanto nas casas-grandes dos engenhos, como nas fábricas e nos depósitos de açúcar. Tanto o bodegueiro da esquina usava o tamanco, como o chefe de família dentro do lar. Tanto o utilizava a doméstica, a molequinha, como a patroa, a senhora, a sinhazinha, ao saírem do banheiro, ao ter, nos dias de chuva, que ir ao jardim, passar ao terraço, buscar o fundo do quintal. Nas senzalas é que não tinha vez. O negro escravo preferia os pés chatos, esparramados pelo chão, livres de qualquer proteção.

Durante algum tempo, o uso dos tamancos na praça ou no interior comprovou o baixo nível econômico da maioria das populações urbanas e rurais da então província de Pernambuco, onde somente uma minoria se dava ao luxo das benfeitorias técnicas de uma civilização que já começara, no início deste século, empregando a borracha maciça em solados de sapatos, chamando-os de crepe-sólas. Para as demais famílias — médias, de operários, funcionários, pequena burguesia, remediada ou até mesmo abastada — os pesados tamancos de madeira da rua Direita, da ria de Hortas, ou de Santo Amaro eram de grande utilidade.

Haviam com os couros em cores vermelha, cinza, verde e azul, sendo alguns até com bordados desenhados. Os dois últimos eram usados por mulheres. Produziam um ruído característico ao se andar com eles dentro de casa: toc, toc, toc... ainda nos recordamos da nossa avó, senhora do engenho Paróis, em Vicência, reclamando dos netos, que enchiam a casa-grande nas férias de fim de ano:

— Sustentem os pés, seus moleques... Que cavalhada é essa?...

Mas os meninos não se perturbavam, e a barulheira continuava dentro da casa-grande, calçando todos os seus tamancos: toc, toc, toc...

Comum era ver-se também, quase sem exceção, os velhos merceeiros do Recife antigo, por trás dos balcões das suas vendas, retalhando as mantas de charque, pesando a farinha de mandioca, o feijão, retirando das latas, com uma colher de pau, a manteiga francesa Le Peletier, ou inglesa, varrendo a sala, arrumando as prateleiras, sempre calçando os tamancos, nas passadas abaixo e acima. Chegava o moleque da casa de seu Cazuza e pedia:

— Seu Manuel, sinhá mandou buscar uma quarta de carne-do-ceará.

E lá ia o merceeiro, de faca em punho, caminhando para o tripé onde estava pendurada a manta de carne seca, e produzindo o ruído característico do tamanco arrastado: toc, toc, toc...

Ah, velhos tamancos do Recife antigo, por onde andarão vocês?...

(Guerra, Flávio. Crônicas do velho Recife. Recife, Gráfica Editorial Norte-Brasileiro Ltda., 1972, p.161-162
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