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Cristiano Ferreira Fraga
Às listas de expressões e provérbios capixabas que já temos publicado,
aditamos agora estes. Da paremiologia, mais alguns exemplos:
• Lugar grande, mora nele; lugar pequeno, passar por ele: este ditado
ouvimos em Alfredo Chaves ao cidadão Chico Pinto, verdadeiro andarilho, sempre
de branco, e que furando tresléguas a pé, varava todo o Espírito Santo.
• Quem morre de bexiga não fica com sinal: dito pelo oficial de
justiça Lincoln, em Mimoso do Sul. Querendo expressar, entre outras coisas, que
a morte tudo esconde ou acerta.
• Quem sabe do tempero da panela é a colher: ouvido em Vitória, e
significando que ninguém saberá melhor sobre um indivíduo do que algum de sua
maior intimidade ou convivência. Equivalendo também aquele outro anexim "Eu é
que sei onde o sapato me aperta".
• Se está com pressa, calce as botas: do município de Anchieta, aos
afobados hesitantes, para que logo se ponham a caminho ou façam o que têm de
fazer sem importunar aos outros.
• Não é com estes ganchos que você vem pro meu rancho: como quem
dissesse: "você não se enxerga?" Referido por Adolfo Cassoli, antigo negociante
na estação de Matilde (EFL)
E alguns termos não registrados em nenhum dicionário:
Baldeiro: adj. sinônimo de finório, tratante. Derivado de "balda".
Comum em todo o interior espírito-santense.
Bicuecas: s. f. o mesmo que perebas, e às vezes também,
pequenos achaques. Ha muitos anos o ouvimos em Bom Jesus do Norte.
Burdigão: s. m. corruptela de berbigão, molusco acéfalo
comestível, freqüente em todos os mares. Leia-se no romance da escritora
espírito-santense Margarida Pimentel, Apenas um homem (1965, p.76):
"Júlia com a turma dela, foi apanhar burdigão, lá embaixo, na faixa de
areia, que a maré vazia deixava descoberta".
Cara: s. f. entre o povo, só se emprega referindo-se a animais. Senão
replicam logo: cara é de cavalo, gente tem é rosto.
Cobertado, adj. e cobertar, v. t.: rel. e também pronominal. A
um hóspede, por exemplo, perguntam se está bem cobertado. Porque
coberto e cobrir são termos só usados em pecuária. Várias vezes os
deparamos em São Marcos, do município de Alfredo Chaves.
Conzinhar, conzinheira, em vez de cozinhar, cozinheira. Estas
expressões correntes em Vitória, entre empregadas de serviço doméstico,
pertencem à série dos ingênuos eufemismos populares. Assim como, na roça, se
costuma dizer politana em vez de égua, fraco em vez de tísico...
Corumba: termo ainda vigente em Anchieta, nas expressões "café de
corumba", ou "peixe de corumba", isto é, demorados. Segundo os dicionaristas,
esta palavra no Nordeste significa "sertanejo retirante" e "pau de arara".
Lembre-se Os corumbas, título de um romance de Armando Fontes.
Estampa: s. f. apresentação boa ou má do animal de sela. Certa vez, em
Iconha, o professor João Ribas da Costa quis elogiar um "coronel" presente,
dizendo-lhe que tinha boa estampa. O homem arrepiou-se insultado, bradando que
"estampa é de cavalo".
Gafo: adj. o mesmo que raso, ansioso: "Tô gafo pra acabar com isso e
batê pro rancho".
Muma: s. f. comum em nossos lugares praianos. É a moqueca de siris
novos, pequenos, aparados nas pontas das pernas e partidos transversalmente ao
meio. Do caldo prepara-se o pirão, que deve conter ainda pedaços do crustáceo.
Pomongado: adj. sinônimo de lambuzado. Ouvido ainda no município de
Anchieta.
Ponga: s. f. o mesmo que carona, passagem filada, ou oferecida pelo
dono do carro. Acrescido do verbo pongar, que signfica também tomar um
veículo em movimento. Velhos conhecidos ainda em todo o Espírito Santo.
Sati: s. m. qualquer cacoou fragmento dos mais pequeninos, quase
invisíveis de um objeto de vidro quebrado. Certa ocasiao, em Anchieta, uma
senhora, mostrando-nos a mão do filho pequeno: "O senhor nem vê o que ele tem na
palma da mão, mas incomoda muito: é um sati, espetado de uma garrafa
quebrada".
Viração: s. m. em Anchieta é chamado também "umbigo de tainha", e dele
fazem um prato popular apreciado. Na verdade, é a porção terminal do grosso
intestino. Afinal, é moqueca de bucho de peixe. Também é preparado como o polvo.
Em tal acepção, a palavra virote não consta de nenhum dicionário.
Vasto é o vocabulário popular capixaba, e outrora tanto mais rico quanto mais
nos aprofundávamos por localidades interioranas. Mas com a multiplicação e
rapidez das comunicações e a disseminação de aparelhos de rádio, muitas
expressões populares regionais se arcaízam, substituídas por outras de maior
domínio.
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