Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Março 2005 - nº 76 - Ano VII


Sumário

Festança

Cerimônias religiosas e procissões
Daniel Parish Kidder

Bailes e bochinchos
Manoelito de Orneelas

Desde quando se bate o pandeiro
Guilherme Santos Neves

Cancioneiro

As aventuras de Pedro Malazarte
J. O. de Lima e Manuel Caboclo e Silva

Trovas farroupilhas do cancioneiro gaúcho, colhidas por Augusto Meyer

A Galiza e as nossas trovas populares
Guilherme Santos Neves

Imaginário

Nome e número dos pares de França
Téo Brandão

História de um cão
Figueiredo Pimentel

O jabuti e o saca-rolhas
Luís R. de Almeida

Colher de Pau

Superstições e crendices: siris e caranguejos

Canjica e jacuba
Carlos Borges Schmidt

Costumes do Vale do Paraíba
Gentil de Camargo

Oficina

A terra trabalha e descansa
Carlos Borges Schmidt

A lua e o caipira
Carlos Borges Schmidt

A cerâmica dos carajás
Maria Heloisa Fénelon Costa

Palhoça

As castas das baratas

Os primeiros ciganos na Bahia e no Rio de Janeiro
Eduardo Tourinho

Onde ainda se dança a cana-verde, a marrafa, a ciranda
Regina Helena de Paiva Ramos

Panacéia

Põe-mesa
Osvaldo Orico

A cabeça da jibóia para atrair mulher
Alberto Canelas Filho

Toda a verdade sobre as cartas cruzadas (que não mentem jamais)

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Cancioneiro
Textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...

A Galiza e as nossas trovas populares

Guilherme Santos Neves

É possível, é bem provável que na Galiza — terra de feição mais portuguesa que espanhola — se localize o veio maior do trovário popular luso-brasileiro. Já o apontaram folcloristas e literatos de prol, como Teófilo Braga e Ferando Pires de Lima (Tradições populares de Entre-Douro e Minho. Barcelos, Portugal, 1938, p.205 e seguintes).

De posse do precioso Cancioneiro popular galego (século XIX), de José Pérez Ballesteros (Colleccion Dorna, Buenos Aires, 1942) — coletânea que me ofereceu a gentileza do jornalista Mário Martins — posso mal-amanhadamente, é certo... apontar, também eu, essa afinidade poética, pondo em confronto, por ora, apenas algumas trovas galegas e as que se cantam em nosso Espírito Santo.

Ora vejam:

O arrependimento ditou, lá na Galiza, esta quadrinha sentida (Canc. 1:54):

Casadiña de tres dias
Non se cansa de chorar
Pola vida de solteira
Que non ha de recobrar

Em Manguinhos, povoação de pescadores próxima à capital e em Caricacia, recolhemos esta variante

Casadinha de três dias
Não se cansa de chorar
Pela vida de solteira
Que não pode recobrar

Versão muito mais achegada à galega do que a que se canta em Portugal, segundo se vê dos Cantares do Minho, de F. Pires de Lima (Porto, 1942, v.2, trova nº 1299):

Casadinha ontem à noite
Ela aí vem a chorar
Pela vida de solteira
Que não a torna a apanhar...

Também trova de arrependimento é a seguinte, do Cancioneiro popular galego (1:54):

Solteiriña, non te cases
Aproveita a boa vida
Qu'eu ben sei d'unha casada
Que chora d'arrependida

Da qual, em Itaguaçu, topamos esta versão brasileira:

Solteirinha, não se case
Goze sua boa vida
Que eu já vi uma casada
Chorando de arrependida

É esta uma das quadrinhas mais divulgadas assim em trovários lusos como brasileiros. Cfr. Tradições populares, J. e F. Pires de Lima, p.216; Cancioneiro de Entre-Douro e Mondego, de Arlindo de Souza (Lisboa, 1944, nº 671); Trovas brasileiras, Afrânio Peixoto, 2ª ed., 1944, nº 593 e Cantos populares do Brasil, Sílvio Romero, Rio de Janeiro, 1897, p.335.

Também de Itaguaçu é esta trovinha tão delicada e bonita:

Adeus, adeus, queridinha
Adeus, meu sim e meu não
Regado da minha vida
Prenda do meu coração!

Corresponde a esta outra de procedência galega (Canc. 1:58):

Adiós, adiós, quiridiña
Adiós, meu si e meu non
Eres regalo d'a vida
E prenda d'o corazón

Nas suas Trovas e cantares capixabas (Rio de Janeiro, 1923, p.6), Afonso Cláudio registrou a seguinte quadra, que não me lembra ter visto em nenhum rimário de Portugal ou Brasil:

Se fores ao mar pescar
Que a fortuna te não deixe
Sê besta, besta e bem besta
Que quanto mais besta, mais peixe

No entanto, trova igual vamos deparar no Cancioneiro (1:123):

Si queres ir á pescar
Po-lo que sepas non deixes
Porque como diz ali:
Canto máis besta máis peixes

Por vezes, a variante é mais disfarçada ou longínqua. Tal o caso, por exemplo, desta quadrinha da Galiza (1:99):

Dá-me da pera que comes
D'a mazán un anaquiño
De tu boquiña unha iala
D'o corazón um cariño

À qual corresponde esta, colhida aqu,i em Defesa, próximo a Vitória:

Dai-me da laranja um gomo
Da lima, um pedacinho
Deste teu corpo, um abraço
Da tua boca, um beijinho

O mesmo ocorre com a seguinte trova do rico folclore da cachaça, recolhida em Pauí, fronteiro a esta capital:

A cachaça giribita
É neta da cepa torta
Faz uns perder o tino
E outros errar a porta

Variante, por sem dúvida, desta que se acha no citado cancioneiro galego, v.2, p.15:

É o vino cousa santa
Que se da na cepa torta
A unos pri-os d'o sentido
Y otros fociñan n'a porta

Da mesma forma, há nítido parentesco entre estas duas trovinhas. Do cancioneiro da Galiza (1:38):

Algun dia por te ver
Abriu portas e ventanas
Agora non te ver
Todal-as teño cerradas

Do nosso cancioneiro:

No tempo em que eu te amei
Pulava cercas de espinho
Agora pago dinheiro
Para não ver teu focinho...

Outras vezes, a afinidade se manifesta em dois versinhos apenas, como se nota deste confronto:

O anillo que me deches
Era de vidro e crebóa
Tan mala guía ti leves
Como o anillo levóu
(Canc., 1:74)

O anel que tu me deste
Era vidro e se quebrou
O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou

Ti d'un lado e eu d'o outro
Têmo-lo rio n'o meio
Pasame n'o corazón
Qu'eu te levaréi n'o peito!

Você de lá, eu de cá
Ribeirão passa no meio
Você de lá dá um suspiro
Eu de cá, suspiro e meio

Quén me dera estar ahora
Onde teño o pensamento
N-o mesmo muelle d´Habana
Falando com meu Rosendo
(Canc., 1:102)

Quem me dera ter agora
Um canudinho de vento
Para dar um galopinho
Onde está meu pensamento

Na maior parte, porém, a coincidência se verifica em um verso apenas, ou melhor, na identidade do mesmo "pé de cantiga". Ao rápido folheio, marcamos estes: "Púxenm'á contar estrelas" (1:46); "Esta vai por despedida" (1:53, 59); "Os rapaciños d'ahora" (1:57, 115; 2:82, 113); "Eu passei o mar a nado" (1:99); "Sete e sete son catorce" (1:107); "As señoritas d'ahora" (1:113); "Meniña, miña, meniña" (2:56); "Fun á fonte á beber anga" (2:125); "Se soubera que ti viñas" (2:142) etc., etc.

Como se vem de ver, é patente a proximidade e semelhança.

Ora, sabe-se que, em sua grande porção, a poesia popular brasileira se calca na poesia do povo lusíada. E a poesia deste? Não teria Portugal bebido, na Galiza, a inspiração maior para a feitura do seu trovário popular, da mesma forma que, outrora, fomos colher nas terras de além Minho o seu lirismo trovadoresco?

Se assim ocorreu — como faz crer o confronto entre os seus belos rimários, — a fonte originária de tanta quadrinha popular brasileira se deve buscar no cancioneiro galego, tão cheio também da mesma candura e graça, do mesmo ingênuo encantamento que todos sentimos no verso popular de Portugal e Brasil.

(Neves, Guilherme Santos. "A Galiza e as nossas trovas populares". Folclore. Vitória, julho-agosto de 1949)
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